domingo, 30 de outubro de 2011

E o céu furasse

São cinco reais, respondo ao cliente e vejo que há alguém parado entre o caixa e a saída. Finjo naturalidade e desejo um bom dia ao cliente que acaba de receber o troco. Me viro e vejo um rosto estranho, uma senhora ofegante, com os olhos bem abertos, me olha fixamente. Sinto como se tivesse chegado ao meu estomago um cubo de gelo inteiro, e uma fisgada na axila. Tento não demonstrar o susto que levei, não sei se por medo de que fosse ela uma louca, ou pra tentar ser simpática.
- A senhora quer alguma coisa? - perguntei.
- Nada. - ela responde arquejante, a respiração cheirando mal.
- A senhora tá se sentindo bem, quer um copo d'água? - tinha a sensação de que ela me odiava por algum motivo.
- Nada! - disse apertando os dentes.
Senti um desconforto sem igual, ela virou-se atravessou a rua e sentou na calçada da frente. Com a respiração rápida, tentei tirar a imagem da cabeça, olhei para a televisão, voltei a olhar pra rua, e ela não estava mais lá.
Contei a história a noite pra minha mãe, que deu risada, não tendo nenhuma graça. Deitei na cama depois de dois pedaços de pizza e fiquei por horas pensando no olhar daquela mulher. Lembrei da Dona Miriam, aquela do conto do trem, que não queria deixar a vida ir embora, tentando com pernas curtas e uma fraqueza delicada se fazer eterna, chamando minha atenção para que sua história ficasse pra mim e pra quem quisesse ler. Lembrei da tristeza em forma de pedinte cego, também no trem, que perdi a chance de subornar com alguma moeda. E talvez a mulher arquejante e de olhos enormes tenha aparecido aqui na rua Piauí, só para se eternizar num escrito qualquer.





Pra quem não acompanha, enfim, se quiserem, sei lá. Dona Miriam http://relicariodasindias.blogspot.com/2011/07/em-duas-cidades.html

E a Tristeza: http://relicariodasindias.blogspot.com/2011/06/o-amor-mais-nausea.html

sábado, 29 de outubro de 2011

Mas as almas não.

O telefone toca, Ana estende a mão preguiçosa para alcançar o pesado telefone antigo. "Deve ser mais uma beata chata perguntando se a hernia da vovó melhorou."
- Ana? - a voz do outro lado da linha insegura tentava contato.
De pronto ela reconheceu a voz, e o simples "Ana?" trouxe muitas lembranças, levou-a ao passado recente que cada vez mais era um passado distante.
- Ela mesma. Quem é? - dissimulando saber quem era.
- Sou eu, Marcos... Eu sei que talvez te telefonar não tenha sido uma boa coisa. Mas depois de todo esse tempo pensei que a gente podia conversar. Eu queria mesmo te ver, saber como andam as coisas.
- Estamos muito distantes, Marcos. E também acho que não foi bom você telefonar. - coçava a cabeça enquanto falava.
- Que isso Ana? Moramos na mesma Cidade. Acho que somos adultos, e já tivemos tempo o bastante pra superar essas besteiras.
" Besteiras?" ela pensava.
- Está distante de mim. Você não entende?
É triste, mas quando o ponto de referência é o "eu" ele é móvel. Quando algo é distante do "eu" nada aproxima, o distante torna-se enorme, e nada: andar, correr, voar, levar... nada fará o distante virar perto. Porquê a barreira não é física, não é disposta, nem quebrada. É permanente. Nada muda a condição distante. Nada.
- É como que se eu fosse ao seu encontro esmagaria as bochechas numa parede de vidro.

sábado, 30 de julho de 2011

Amplidão.




Todas as cartas estão manchadas. Eu lembro exatamente como manchei... Você me mandou rosas, e elas murcharam, e eu quis preservar alguma coisa das pétalas desidratadas, arranquei todas e coloquei dentro de um saco plástico, e as esqueci. Um dia resolvi abrir a sacola, e tudo o conteúdo vinho escorreu, manchando assim as cartas.
Hoje tirei a caixa com as cartas de cima do armário, os dedos tremendo sorteei uma: A primeira. Não a li de cara. Fui até a sala e deitei no sofá, liguei o som, fechei os olhos e depositei no meu peito. Lembrei das inúmeras vezes que quando eu estava assim, deitada ouvindo música eu ouvia sua voz, que vinha da porta da cozinha, e dizia: Manu? E eu as vezes levantava descabelada, morta de saudade pela semana que passávamos longe; as vezes fingia não ouvir, e você entrava e achava que me acordava, e eu fazia então, aquela cara de surpresa. Acho que fui muito atriz nisso tudo. Talvez por não saber como sou na verdade; na realidade eu não sei. Não é uma possibilidade, é fato que tentei me transformar em tudo que queriam. Fingia o amor, e quando cansei de o interpretar, descia no meu imaginário infantil a cortina negra, a luz diminuía gradativamente e então tomava de meu papel a tristeza. Deixava sempre em você a sensação de algo errado. Quero hoje te explicar: me esforcei em tantos papéis que quase te levei na minha loucura, na minha obsessão de ser alguém. Sinto-me tão tola, quero me esconder e chorar. Os outros dirão: que besteira! Eu sei que é uma, eu por inteira sou uma besteira. Talvez, por 19 anos pensei que não descobrir quem eu sou fosse uma forma segura de viver, desde então sigo fingindo, forjando relações, sorrindo cordialmente... Sempre atuando, numa tentativa ridícula de me enquadrar no que esperam. Não considerei o que eu queria, e sim o que você queria de mim. E tudo isso por pura covardia... Não! É pior que isso, é o resultado da minha ignorância de quem eu sou.
Ás vezes sofro por nunca ter amado ninguém, e também acho que nunca fui amada. Mesmo que alguém diga que sim, no fundo eu sei que não. Isso me angustia.
Nem o amor egoísta, nem o atarantado e nem mesmo o incômodo... Nem esse amor mundano e imperfeito apareceu.

Meninos.

Ela vestia aquele vestido de seda azul, uma fita branca separava a franja do resto do cabelo. E como era linda.
- Eu não aguento mais trabalhar o dia todo, chegar e ainda ter que ouvir as suas ladainhas. - ele disse apertando a cabeça e com os cotovelos sobre o joelho.
E ela, já vermelha de raiva, revidava: - Você pensa que é fácil cuidar dessa casa e desse demônio?
Ele, agora igualmente vermelho: - Demônio? Agora nosso filho é um demônio? Pois saiba que se não fosse por esse demônio eu já nem estaria nessa casa!
- Pois eu digo o mesmo. Se não fosse esse demônio, eu estaria bem longe!
Nem era preciso o menino ouvir mais, "será que eu sou um demônio?", e a dúvida martelou na cabeça do moleque a noite toda.
Pela manhã a mãe, de rosto inchado veio lhe comunicar:
- Pedro, você vai passar o resto das férias no interior com seus avós.
E ele sem saber das dimensões daquilo sorriu.
Pedro tinha três amigos na cidade dos avós, e adorava se reunir com eles pra ir a cachoeira, a padaria, comprar leite pela manhã e principalmente fugir no meio da noite pra encontrá-los.
- Heitor, sabia que eu sou um demônio?
- Quê?! E não é demônio, é dimônio!
E o outro moleque, o Júlio: - Mas como vocês são burros! - e deu uma risada longa: - É DIMONHO!
Os três riram.
E Pedro disse: - Ah só se for aqui, porque lá é demônio. E também não importa, o que interessa é que eu posso ter o que quiser, não é?
E os outros dois responderam juntos: - É, acho que é.
- Heitor, se você fosse um demônio o que você ia querer?- perguntou Pedro.
- Ah, eu ia pedir pra ser piloto de avião... - respondeu deitado na pedra, olhando o céu. - E você Pedro?
- Ah, eu ia querer ser playboy!
Os outros dois riram muito da palavra desconhecida: - E o que é isso?
- Ah, não sei bem. Mas dirige cada carrão! - disse fazendo com as mãos movimentos como se tivesse dirigindo um carro. - e você Júlio?
- Eu queria ser rico.
O sol esquentava os meninos deitados na pedra mais alta perto da cachoeira.
E o Pedro concluiu: - Até que não é má ideia ser demônio.
- É dimonho! - gritou o Júlio.
E os três caíram na gargalhada.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Enquanto ele dorme..


Essa é a ultima carta que te envio. É uma carta de desamor, que encerra as de amor.
O cansaço esta na minha medula, em meus nervos, na flor da pele... Ontem pela manhã foi tudo um mal entendido. E agora escrevo pra dizer que o entendimento nem pode ser mal, ele não existe mais.
Ontem faltou luz. Um breu imenso se instalou, não tinha velas em casa, e tive que me deitar... Pensei em tantas coisas: em mim, em você, mas não em nós. Vi então os vários indícios de que a palavra "nós" não nos pertencia mais. Aliás, pertence, de certa forma: nós poderíamos manter o amor, a felicidade... Isso se nós não tivéssemos feito tantas coisas, se não tivéssemos nos doado tanto. Mas houve uma quebra, uma ruptura, que até ontem eu não sabia onde estava. Descobri, entre todas as coisas que não concluí, que eu já não te amava mais havia um bom tempo...E nós ainda lutávamos quando o amor se transformou em "bom dia", estávamos tentando ir em frente, quando dizer "Eu te amo" se tornou desconfortável, se tornou poesia fácil; vá a merda!
Ontem a noite percebi que estávamos numa luta perdida, e você que se dizia forte foi um fraco, tínhamos em mãos um contrato quebrado, precisávamos só queimá-lo e fingir que o amor nunca existiu. Demos tudo de forma desregular, não soubemos distribuir o amor, o afeto, o carinho e nem a raiva.Bom, dei tantos rodeios nessa carta, quando o que quero dizer é só para que você não me procure mais. Escrevi essa carta na noite seguinte á que faltou luz, e tenho na minha cama, agora dormindo um novo amor. Não espero nenhuma resposta, não espero nenhuma gaveta, não quero que ela seja rodeada de cuecas, ou das cartas de amor que te escrevi. Pois as cartas de amor não merecem conviver com a carta que anuncia o fim do amor. Deixe que elas se enganem. Mando com a carta esse disco com faixa única. Quero destacar: "Porém não se surpreenda se uma outra mulher nascer de mim, como do deserto uma flor."

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Suis.


Ela não movia um único músculo visível.
- Você não deveria ter deixado ele te pintar.
- Antes ele queria me pintar por que me amava, depois, não queria me pintar por que me amava. Mas eu insisti. - disse, sem o olhar na cara.
- Eu disse á você...
- Eu nunca vi nada tão frio! O pior encontro é aquele que marcamos com nós mesmos, por isso ele só acontece quando estamos morrendo, e essa pintura adiantou meu encontro. Eu sou tão seca, tão fria.
Ele tentou se aproximar, tentou a abraçar:
- Eu sei que posso te ajudar, se você deixar.
Tirou os olhos da cadeira, e disse:
- Ontem o maquinista correu tanto, e o mundo da linha correu tão rápido aos meus olhos que até senti vertigem... De repente ele parou: "Estamos aguardando a movimentação do trem á frente." E na margem da linha de trem tinha um velhinho com um chapéu de palha e um cachorro ao lado, e ele me olhava fixamente. Como se soubesse que eu tinha vivido aquele encontro, mesmo longe da morte. Tenho certeza que ele queria me perguntar como era. Ele me perguntou, mesmo separados por um tanto de metais, eu sei que ele perguntou. E ele sabe que eu respondi: Sorte dos que, de fato, morrem após esse encontro. - disse com os lábios tremendo por prender o choro. - Eu não posso mais querer ajuda. Eu não tenho o direito de te perturbar previamente, eu já nem existo. Descobri que não tenho nada além da carne. É tudo frio, é tudo escuro e assim é o vazio: gelado.
- Eu sei o que vai fazer... Alguma coisa te impediria?
- Não.
Ele beijou-a na testa.
- Poderíamos viver felizes. Eu regaria teu jardim e você compraria todas as sementes que quisesse.
Ela enxugou o rosto com o dorso das mãos:
- Eu fiz minha escolha.

sábado, 2 de julho de 2011

Em duas cidades.


Tive a impressão de que um simples toque desintegraria aquele rosto, de tão enrugado que era. A boca parecia um rabisco de criança, e a língua não cabia inteira dentro dela. Talvez por isso, dizem que velhos são crianças. Que pobre conclusão! - penso.
Suas unhas estavam pretas... sujas. E era um sentimento, desses sem nome, ver que eram unhas, dedos, mãos e corpo que se agarravam à vida. Mesmo quando ela teime em sair de nós, nunca pensamos confortavelmente sua ida, e nem a encaramos docilmente. Talvez por isso ficamos com aspecto bestial, com essa fome de vida. Mas por mais garras que tenhamos, a morte fica aqui, ali, em mim, em você e nessa pobre senhora, ela fica instalada em nossa retina. Pega o espelho, olhe bem. Consegue ver?
Quem dividia lugar com a morte nos olhos da senhora era o desprezo, o desdém. Ela fitava a todos, e mostrava a pena que sentia das ilusões dos jovens. Deslizou as mãos no banco, e começou a escrever. Me esforcei tentando decifrar, e ela percebendo meu esforço, repetiu inúmeras vezes até que consegui: Miriam.
Por que Diabos, repetia o desenho de seu nome no banco do trem? Miriam, Miriam. Como que para lembrar-se que existe, para mostrar pra morte que o nome vai do dedo ao banco, mas não do corpo à lápide. Quando levantei os olhos dos dedos dela, fitei-a me encarando, com a boca semiaberta. Seu cabelo bagunçado e sujo movimentava-se pouco com a enorme ventania que entrava pela janela. Baixou os olhos, e os fixou em meu tênis.
Não consigo não pensar no que ela já viveu, amores dos bons, dos maus. Filhos? Todos devem ter ido embora. Amigos? Mortos. E a infância? era viva, bem viva dentro dela.
Levanto e sento ao lado dela.
- Dona Miriam?
Silêncio. Me senti uma tremenda idiota. Olhei pro chão, e assim fiquei, até que a boca rabiscada se abriu:
- Sim?
- A senhora se incomoda de virar uma história?
- Você quer me matar antes do tempo?
- Não, quero te perpetuar...
- Só se faz história de mortos, ninguém quer lembrar dos vivos.
- Não é bem assim. - disse já sem esperança
- Tudo bem, agora deixa eu seguir viagem em paz, e volta pro seu lugar. - ordenou vivaz. Fiquei tão desnorteada que obedeci prontamente. E assim, seguimos viagem: meus olhos nos olhos dela, os dela em meu tênis.

domingo, 19 de junho de 2011

Mentiras bonitas.

Faz quarenta dias que consigo me manter firme.
- Você vai dar alguma festa no seu aniversário? Eu queria te dar um abraço, não pode passar em branco.
- Não, provavelmente não. Comecei uma reforma, estou colocando prateleiras no quarto de hospedes, vou me mudar pra ele, preciso de espaço pros meus papéis.
- Bom, vou chegar na quarta, será que a gente não podia sair pra tomar um suco?
Senti aquela sensação de quando somos crianças e queremos muito alguma coisa, mas os pais deixaram avisado que não podíamos. E um misto de medo e vontade nos faz ter dor de barriga.
- Acho que sim. - respondi, mas logo cortei: - Não, melhor não, acho que estou indo bem, e te ver agora me abalaria. E também... Você ainda pensa em uma recaída?
- Penso.
- E?
- Não sei...
- Olha, não quero te ver, pelo menos não por enquanto, até porque, se você ama ela de verdade nem deveria pensar nessas coisas.
- É, é muita sacanagem com ela.
Ponto final, nada de recaídas. Estou bem, e não quero estragar o bem que construí nos últimos meses. Vi um por do sol de dentro do ônibus, foi o mais lindo que já aconteceu aos meus olhos, e eu estava ali, num ônibus, presa no transito, com pessoas estressadas ao meu lado, com um motorista apressado... E eu não tinha pra quem gritar: "Porra, olha esse céu!" Isso é tão ou mais angustiante do que saber que, mesmo existindo, nosso amor não cabe nesse tempo, ele não cabe nas lembranças, nem no chão sujo de esperma e nem no lençol suado. Ele cabe nas mentiras bonitas e na saudade do que não existiu. "Todo casal tem uma recaída", todos dizem, mas até nisso nós fomos diferentes.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

O amor mais a náusea.




Entro no vagão do trem, sento e abro o " Uma morte muito suave", de Simone de Beauvoir. Repentinamente uma voz faz com que eu levante os olhos: um senhor, de bengalas e com olhos apertados andava, cambaleando por conta do movimento do trem, com a mão estendida :" Cinco, dez centavos, não peço mais que isso.". E realmente não era preciso dizer mais que isso, muito menos contar uma daquelas histórias do tipo: "tenho uma doença em estado terminal, e os remédios são caros..." Pois ele mesmo era a tristeza, nunca imaginei que um dia a encontraria em carne e osso, tudo bem, mais osso que carne.
Os passageiros sentados o olhavam de rabo de olho, rapidamente, e logo baixavam os olhos, fingindo que nem o perceberam. E muito naturalmente voltavam a direcionar os olhares e a falsa atenção para o livro, para música escrota dos fones de ouvido, ou para a paisagem pobre da linha de trem Safira, que de jóia nada tem.
O senhor passa, a vida passa. Mas ele deixa seu cheiro de tristeza impregnado no trem, encrustado na pele de todos. Mas nem eu, nem nenhuma outra pessoa meteu a mão nos bolsos para encontrar alguma moeda. Tenho certeza que todos encontrariam alguma. E penso que deveria eu ter dado uma moeda á tristeza, quem sabe ela seja corruptível, e se venda por cinquenta centavos, e assim, vá embora da minha vida, saia da minha pele, e pare de se depositar em minhas unhas grandes. Mas ela já passou, e eu perdi a chance!
Volto os olhos ao livro, e leio: "Voltei para casa, conversei com Sartre, ouvimos Bartok." Sinto um cheiro que me faz tirar os olhos das linhas de Beauvoir: o perfume que o Cícero usa, ou usava, não sei. Olho para o lado e percebo que o perfume é do homem que sentou-se ao meu lado. Eu analiso-o na cara dura: é feio. Bem feio. Sinto frustração... Se ao menos fosse agradável, seria talvez uma aventura. Mas decido que vou viver uma aventura intimamente e em segredo.
Fecho os olhos e fantasio que ao meu lado esta Cícero, e o calor do braço encostado ao meu também é dele.
- Fico feliz por você aceitar me acompanhar até lá... Falei tanto de você que acabei despertando curiosidade geral. - eu disse sem abrir os dentes, impedindo assim o som de sair. Afinal a fantasia era minha, e eu tinha todo direito de não externar nenhuma sensação e nenhuma loucura, por mais sutil que seja. Prefiro acreditar que seja uma loucura sutil.
" Próxima estação: Itaquaquecetuba. Ao desembarcar cuidado com o vão entre o trem e plataforma." E o homem do perfume de Cícero vai embora. Demoro ainda alguns segundos pra abrir os olhos, mas os abro. E de olhos abertos e alma saudosa leio Beauvoir falando do casamento de seus pais: "Que o casamento burguês seja uma instituição antinatural, o seu caso bastaria para me convencer disso.". Há, quando termino de ler a frase, uma ruptura no saudosismo barato, algo suga meu pensamento, e o transporta até as ultimas conversas que tive com Cícero, onde nossas palavras e intenções eram cinzas. Um cheiro azedo permeia as recordações, que são bem recentes, e apontam as deficiências de nós dois:
- Fui a uma sarau com um cara, depois fomos pra casa dele, ouvimos Coltrane e assistimos Chaplin... blá, blá, blá. - eu provoquei.
- Hum... É o tipo da coisa que nós nunca fizemos, não gosto de poesias, nem de Coltrane, muito menos desses filmes. - ele dizia, sabendo que por trás do que eu dizia, estava apontando suas faltas.
E noutra vez:
- Você precisa beber menos, se drogar menos. Fiquei sabendo do se ultimo porre, até comentei com a Karen o quanto eu estava preocupado com você. Ela passou o fim de semana aqui em casa, e conversamos muito sobre você. - ele disse paternalmente, mas com a intenção de se vingar.
- Não se preocupe, eu sei me cuidar. - eu disse fingindo não dar atenção ao que ele dissera. Desligo o telefone e percebo a minha deficiência: eu nunca dormia fora de casa.
As lembrança, a saudade e a amargura assumiram uma forma, um jeito de ser, de se instalar inomeável. Não sei do que chamar.
Sacudo a cabeça e o cheiro azedo já havia sumido. Coloco o fone, e a musica parada ontem continua hoje, e termina exatamente assim: "Te perdoou por te trair." E continuo a viagem olhando pro nada, e lamento mais uma vez ter perdido a chance de subornar a tristeza, que sabe-se lá quando tomará de novo a forma humana.

sábado, 28 de maio de 2011

Já é de manhã.

- Passo ai ás 19:00 - Disse a seco.
- ok, vou por aquele vestido que você gosta, e a jóia que a sua mãe escolheu.
Ela estava tentanto concertar a situação havia algum tempo, mas como lutar pra algo não cair/quebrar, quando ele está destinado a cair de nossas mãos e espatifar no chão?
As 19:00 em ponto ele buzinou, ela deu um beijo nos pais, pegou um casaco e desceu as escadas. E ele olhava com cara de nenhuma novidade, antes ele a via descer as escadas com cara de bobo apaixonado.
- Vamos? - ela entrou no carro.
Sairam pra comemorar o que os afastaria pra sempre.
- Você pensou no que conversamos ontem? - ele perguntou enquanto tentava juntar o espaguete com o garfo.
- Sim, e conclui que eu quero você, e estou disposta a abrir mão das possíveis experiências que eu viveria lá se você não existisse.
- Você não tem certeza disso. - ele disse.
Eles sempre quiseram comer juntos naquele restaurante, e nessa noite em que foram passaram a noite tensos, prevendo catastrofes. E ela realmente não tinha certeza do que dizia, pois passou a vida inteira tentando agradar, tentando não sair fora do caminho supostamente seguro, quando no fundo ela queria se jogar sem saber o que a esperaria.
- Nós éramos duas crianças, e agora crescemos em sentidos opostos. Você não suporta meus livros, e eu não suporto seu cigarro, sua bebida exagerada, suas atitudes politicamente corretas, sua cara de tédio quando vem aqui.
- Eu te amo, e nada vai mudar isso. - ele beijou os dedos dela, beijou a aliança, que em alguns dias não estaria mais ali, e sim num compartimento secreto dentro de um livro, embrulhada num papel branco.
- Estamos bebendo e comemorando nossa separação. - ela afirmou com choro nos olhos.
- Acho que sim. - respondeu ele ,como sempre, sem choro nos olhos.

terça-feira, 24 de maio de 2011

To com vontade,

Hoje não conseguiria dormir sem te dizer isso, pois me sinto preenchida, e preciso externar: to com vontade de você aqui, de te abraçar e sentir sua mão percorrendo minha cintura, depois minhas costas, de beijar seus olhos, morder seu nariz, e fazer meu pseudocafuné (um dia eu aprendo o jeito certo). Queria você aqui, mordendo meu pescoço e minha bochecha, to com vontade de falar mal dos trabalhos, e dizer o quanto estou cansada, to com vontade de ir pro nosso canto deitar e acender mais uma vez um insenço, to com vontade de Lua Cheia, to com vontade de sexta-feira, to com vontade de sentir o desenho do teu rosto com os dedos, to com vontade de dar o beijo da Amelie (agora do jeito certo), to com vontade de ler Arnaldo Antunes e de você me contar de algum sociólogo maluco que acredita em darwinismo social, to com vontade de te ligar pra dar risada e de ouvir você dizer do nada: sua linda! To com vontade de você, da sua pele, do seu cheiro, do teu cabelo, do seu jeito de olhar, e do gaguejo charmoso,rs. To com vontade de sentir a energia boa que você emana! To com vontade de você continuar me fazendo feliz, e nutrir um companheirismo bonito.
To com vontade de você roubar mais um beijo, to com vontade de ouvir seus projetos e ser parte dele, to com vontade de sentir sua sede de transformação, de fazer as coisas acontecerem, de mostrar força de ir em frente, to com vontade de começar a dar aulas de teatro no futuro centro cultural. To com vontade de seguir esse caminho lado a lado com você. E ter Maria, Vitor, Cecília, Benício, Bernardo, Zoé
e Sebastião.

sábado, 21 de maio de 2011

Ainda há.




- Querido pega o jornal lá fora pra mim. To com tanto frio... Não queria nem levantar da cama hoje.
Rafael tinha a testa toda cortada pelo tempo, que cravou rugas que não são contáveis. E era engraçado como o tempo poupou Lúcia, era uma senhora linda, como dizem por aí, ela estava inteirona.
Moravam os dois na casa azul, virando a esquina, depois do bar do Benê. Acendiam incensos todos os dias, regavam as plantas e ela fazia bolo de amora pra receber os dois netos aos domingos.
- Falta tanto tempo pro domingo chegar né Lucia? Fico aqui aginiado com o silêncio da casa. Mas também não gosto de destruir o silêncio de qualquer forma. A quebra, a ruptura do silêncio só é digna quando é feita por crianças... Ando com os ouvidos cansados Lú.
Ela levantou-se da cama, encostou o corpo ao dele, pousou a cabeça no peito dele e disse:
- Quanto tempo não? E estamos aqui, esperando a morte um do outro, esperando pra ver quem perde a lucidez primeiro...
Ele olhou com os olhinhos apertados, cheios de lágrimas.
E ela disse baixinho: - Chora homem, não precisa mais ter vergonha de nada. Estamos em tempos de não haver vergonhas. Está tudo tão corrompido em nós, não é mesmo? E o que devemos fazer é corromper a vergonha também. - e disse isso, feito a mãe que consola o filho quando perde a primeira namoradinha.
E ele deixou-se levar pelas palavras, chorou feito bebe. Um bebe de cabelos brancos... Ela sempre foi mais forte que ele, sempre o protegeu, sempre disse nos momentos difíceis: temos um ao outro! Parece poesia fácil, e seria se fosse qualquer outro casal. Não consigo passar o que existe entre eles com fidedilidade, pois nunca experimentei esse companheirismo verdadeiro.
- Sabe Lú, até ontem com 79 anos nunca havia sentido cansaço, e hoje, pela primeira vez, eu sei dizer o que é estar cansado.
E uniram as bocas cortadas inteiramente por riscos verticais.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Sente.





Sonhei com você debruçada num balcão feito aquele em que o Lorca fazia suas poesias. Lembra? A gente viu num filme, que eu odiei. Mas assisti porque enfim, gosto de te agradar, ou melhor gostava. No bacão tinham flores coloridas, você chamaria de flores do campo, mas não sei se são. Eu só te dei rosas não é? Quanta bobagem! Mas você gostava mesmo eram de damas da noite, ervas daninhas e plantas carnívoras... Deveria ter te dado uma planta carnívora genéticamente modificada... Pra ela te devorar, antes que desse tempo de te odiar.
Lembra, quanto te dei um colar de perolas?
" - Luisa, tenho um presente, é uma coisa que transpassa gerações...Pertenceu à minha bisa, e agora sinto uma vontade imensa de entregar à você."
Desamarrei o laço dourado, e tirei o presente do saquinho de veludo vermelho.
" - Pérolas? Não não posso Pedro."
" - Que isso, não... É de coração, você é a mulher que merece receber essa jóia."
" - Mereço?"
Ela ficou reticente, olhando pros meus sapatos. E sem levantar o olhar disse:
" Você sabe de onde vem as pérolas?" antes que eu pudesse pensar em responder, ela disse com os olhos ainda nos sapatos.
" - Ela surge da dor. A ostra sente dor ao produzir a pérola... Você gostaria de carregar a dor de alguém? Porque eu não, mal posso suportar a minha."
Levantou os olhos, mas não me olhou. Olhava pra algo no fundo, e tive muita vontade de me virar pra ver o que ela olhava enquanto falava aquelas baboseiras de sempre.
Que dor ela teria? Eu dava tudo, tratava ela como uma princesa. Afinal que dor era essa que ela não podia suportar?
Ela fugiu, saiu, sumiu e agora aqui dentro do metro sonhei com você. Não quero saber que sinto sua falta! Mas sinto tanto, e sem nenhum resultado, que agora a falta e a saudade são lúcidas.
Lembra quando te encontrei pela ultima vez? Você mentiu, sei que sim.
" - Eu te desculpo por todas as besteiras que você disse e por me deixar sozinho, mas volta comigo pra casa. Ta todo mundo lá achando que eu tô louco... Vem Luisa, vem provar que loucos são eles!"
" - Não posso Pedro. Estou morta."
Eu sei que você mentiu. Por que fica todo mundo querendo me enganar? Se você não quer assar o pão pra mim de manhã, se não quer colher manjericão no quintal pra temperar o molho do macarrão, se não quer fumar umzinho comigo tudo bem Luisa, eu tento te entender. Mas não vem com essas mentiras! Isso dói.


ps: a aquarela linda é da Karise :]

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Várias coisas num corpo só.

Ele é tão foda, que consegue cantar coisas tristes de uma maneira engraçada e leve. Daí você pensa, como a tristeza é engraçada/boba :]
Curtam Jorge Ben ben ben




Agora outra coisa. O plano de fundo do blog agora, por enquanto, são cravos, pra homenagear a Revolução Portuguesa, que fez do cravo símbolo de luta e resistência, assim com fizeram os abolicionistas com a camélia, que virou símbolo da luta pela liberdade.
E separei essa foto linda:


E a música linda linda linda do Chico, que cresci ouvindo :]

terça-feira, 17 de maio de 2011

Que seja doce.

E a dor tem que ficar pra trás.
- Queria falar com você...
- A gente pode ir lá em cima.
E o pôr do Sol havia terminado, a noite ja se fazia, mas eles criarão um novo pôr do sol, na verdade um novo amanhecer. Um nascer de luz, um porvir de energia boa.
Olhavam na mesma direção, compartilhavam talvez o mesmo sonho, mas quem saberá?
E lábios pousam em lábios...


O balanço do ônibus embalou a primeira vez que te vi. Enquanto eu lia um poema minha borboleta caiu, você a pegou com todo cuidado e sorriu.
A segunda vez que te vi foi em sonho, nós caçava-mos borboletas, num lugar verde e muito vasto. Vasto mundo, como disse Drummond, mais vasto é meu coração. Mas nem eu sabia se seu coração era vasto, nem você sabia nada sobre o meu. E sempre que te via pensava: preciso falar do sonho.
O sol nos esquentava e eu tinha comprado um presente de aniversário pra você. Parece bobo, mas eu estava ansiosa pra entregar. E quando eu mostrei você disse: Amarra em mim, agora você anda sempre comigo. E senti a alma sendo pintada, e ela tornou-se uma aquarela de criança.
Você tinha terminado com ela, e tinha os olhos inchados. Essa foi a terceira vez que te vi.
Na quarta vez que te vi, você tinha um presente pra mim, um livro lindo, com a cor de velho e o cheiro de coisa antiga, e disse: eu escrevo nele depois. E alma agora era coloridade e sentia vontade de dançar.
A quinta vez que te vi, meus olhos registravam sua imagem deitada ao meu lado, fazia frio, e a Lua estava sobre nós, como que em uma cermônia não humana. Você esquentava as mãos na minha barriga.
A ultima vez que te vi... Não sei quando será. Pois essa visão não é física, ela vai além, ela é como esse algo misterioso que existe entre nós, que faz querer bem, querer juntar os corpos, fazer com que eles se entendam. Não sei se a felicidade será uma constante, mas o que importa agora é o estar... E eu estou feliz.
Estive perdida, e agora sei que estive cega. Mas agora... Agora eu te vejo, e percebi que é um egoísmo acreditar em todos os pesadelos.
Estamos aqui por um instante. E eu quero você do meu lado, todos os dias e todas as noites. De novo, de novo, de novo. Que seja doce.


Cólica, cólera.

E sol entra, ela levanta a blusa e deita-se na cama, em uma posição que ele bata no ventre. E fecha os olhos pra sentir o calor no útero seco. É branca... Está mais magra, também depois de tanta desilusão é compreensível que esteja. A moça seca atrai os olhares mais devotos, mas o olhar que ela deseja atrair está longe longe... Fitando uma piscina ou uma menina de pele morena, bem morena. Sente um pricípio de cólica e o calor é um ótimo conforto, pois os remédios não tem mais efeito.

sábado, 14 de maio de 2011

Tom, aflito e só.

Estava linda em uma saia azul florida. Haviam quase dez anos que não nos víamos, mas certas coisas não mudam, ou melhor não se esquece, ela disse depois de uns dois minutos:
- Você roubou todos os sonhos.
- Não precisamos falar as mesmas coisas... Já dissemos tudo isso. - eu disse mais uma vez.
Não queria falar sobre o tempo já passado, queria mesmo era sentir aquela energia que vinha dos olhos dela, a pele bonita que brilhava no nariz. Os cabelos sempre mal presos... Eu sempre pedia depois que fazíamos amor, pra que ela prendesse o cabelo... E ela continuava com o frescor jovem. Haviam passado dez anos desde que eu a havia deixado. Errei muito, mas agora não é tempo, e nem há tempo pra concertar tudo isso.
Agora ela está com o cabelo mais claro, a pele está mais branca ainda e continua usando óculos de aro grosso.
Se houvesse tempo... Minha vontade é cantar como num dia de karaokê de bar: "Ainda é cedo, cedo, cedo, cedo, cedo..." Mas não quero pensar. Só quero poder olha-lá.
Nem foi preciso perguntar da sua vida: tem uma aliança na mão esquerda. Eu a faria muito mais feliz, mas me deixei levar pela razão naqueles tempos. Hoje poderíamos ter a famíia mais linda da cidade. E filhos? Será que ela tem?
- E você como vai? Aquela sua namorada... continua com ela?
- Não. Não deu certo... Ela me traiu.
- Juro que não foi mal olhado.
Nós rimos.
E o que dizer do sorriso? Os olhos ficam mais pequenos, as bochechas sobem. Ela sorria pra mim antigamente, hoje ela ri de mim, comigo, mas não pra mim. Como pude deixar isso escapar?
- Bem, eu preciso ir, apesar de doer muito ainda. Eu nunca te desejei mal...
- Sei disso Catarina. Mas por que a pressa? Nós poderíamos sei lá, tomar um café.
- É que estou esperando...
Antes que ela terminasse a frase, voltou os olhos na direção de um homem segurando a mão de um menino de uns dois anos.
- Esse é o Heitor, meu marido... E esse é o nosso pequeno grande Sebastião!
E antes que eu pudesse fechar os olhos e abrir, querendo estar sonhando, o cara estendeu as mãos. E eu apertei. Apertei as maõs que apertavam ela agora.
- Prazer! E você quem é?
E ela respondeu por mim:
- É um amigo da escola, estudamos juntos no ensino médio... É o Roberto.
Ela mentiu sobre meu nome. Ainda não tinha perdido o costume das mentiras... Mas se não quis dizer meu nome é porque ela ja falou de um Tom pra ele. Já sei! Ela enquanto ele faziam amor, alguma vez deixou escapar meu nome, tenho certeza.
Me deram um "tchau Roberto" em coro, e foram andando os três de mãos dadas. Não posso ser infantil e dizer que não era aquela uma bela família. Catarina nem olhou pra trás, num gesto de saudade, o único que olhou foi o Sebastião. Que com certeza sentiu que eu é quem era pra ser seu pai.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

E meus olhos teimam em ver você.

E meus dedos enroscam nos teus cabelos. E a carne poe-se a frente dos órgãos e todas as coisas burocráticas. Tão pouco tempo, preciso reduzir, reduzir.





Ele acordou sem dia
então abriu o céu com você
Teve tempo de molhar os punhos
e coragem pra secar os olhos

Ela sempre vê bobagem
lê dentro de mim no escuro
só ela sabe o que

Vamos deixar isso entre ele e você
vamos sonhar isso entre ele e você
vamos sangrar isso entre eu e você

Se é pouco que eu vejo, é muito
o que meus olhos teimam ver, em você
o que ainda está aqui
ainda que

Vamos deixar isso entre ele e você
vamos cantar isso entre ele e você
vamos sonhar isso entre você e eu

Por que deu errado?
Por que fez saudade?
e choveu o rio
e secou o dia
Por que deu saudade?
Por que fez errado?
Por que secou o rio e choveu no dia?

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Secreto.

"E mais um avião colide na Lua! E ninguém faz nada pra conter os pilotos piratas! Onde está o partido? Onde?" O apresentador do telejornal diz gritando e provavelmente cuspindo na camera. Desligo o aparelho estranho e deito no chão. Hoje vou dormir no chão, preciso melhorar minha coluna, quem sabe funcione... Quero pensar num quarto branco, sem cheiro e sem som, onde eu poderia não pensar em nada. Mas já estou pensando no quarto branco, já estou pensando em não pensar. Já tentei todos os mantras, ervas e remédios, nada me fez chegar ao quarto branco. E você se pergunta: "pra que?" Porque quero esquecer dos rostos que vi hoje.
Estava vindo pra casa e pensei em coisas dolorosas, faz tanto tempo que estou aqui, e ainda não me acostumei com essas situações e comportamentos enraizados estranhamente. Vi uma menina, de uns 15 anos chorando no ponto do ônibus, e me perguntei quando ela entraria no estado em que chorar em público é algo inimaginável. As crianças choram sem nenhum pudor, choram por todas as coisas possíveis. E quando atingimos uma certa idade secreta, queremos ser fortes...Somos tão babacas! Seguramos o choro e achamos poético dizer que lugar de chorar é debaixo do chuveiro. Quem disse isso sociedade de merda? Lugar de choro é onde ele quiser rebentar, segurar choro faz mal, segurar choro é hipocrisia, deixem que ele venha, moças maquiadas. Depois atingimos uma outra idade secreta, em que qualquer lembrança, pode ser um cheiro, um lugar... Qualquer coisa é motivo de choro saudoso.
Escrevi no meu caderno: " Queria muito saber por que chora, menina." O fechei, e quando voltei a olhar pela janela do ônibus vi uma senhora, uns cinquenta anos, mexendo numas sacolas de lixo, separando latas de cerveja... E me perguntei: que estágio é esse? Esse não requer uma idade secreta. É um estado que não admite vergonha, nem nojo e nem pudores. É o caos, é a fome, é o ser humano despido de todas as maquiagens.
Entendem por que quero alcançar o quarto branco? Espero de verdade que essa dor nas costas passe.

domingo, 8 de maio de 2011

É de lágrima.

- Alô?
- Fala Marcinha!
- Então Hugo, queria te pedir pra fazer a feira do restaurante hoje. Meu filho acordou com febre e quero levá-lo ao médico. Sou mãe solteira, você sabe como são essas coisas... Pode ser?
Ele não sabia como eram essas coisas - não tinha filhos. Mas como recusar? Respirou fundo e então:
- Tudo bem, eu faço a feira. Tem muitas reservas pra hoje?
- Ah, tem algumas. E tem gente importante hoje...
"Que saco, nem conheço o famoso filho da puta e tenho que me referir a ele como importante. Importante por que? Importante pra quem?" Pensava toda vez que ouvia isso.
- Ah sim... Você vai demorar pra chegar?
- Antes do jantar já estou lá. Muito obrigada mesmo Hugo.
- Ok, beijo.
Que chatice! Trocou de roupa, pegou a chave do carro e saiu. Eram 09:00.
Levou todas as sacolas pro restaurante, guardou tudo e foi pra casa esperar a hora de voltar. Em casa ele treinava, pra não perder o costume, o falso sotaque francês. As vezes sentia-se entediado por conta do constante teatro, mas tudo bem, por seu sonho, dizia tudo bem.
17:00 e ele sai de casa outra vez, agora já com espírito afrancesado. Chega ao restaurante e Márcia já estava lá. Pelo menos isso - pensou aliviado.
- Acho que vou pedir pra que você faça a feira todos os dias... Fez tudo certinho.
- Ah bela piada! Não basta a correria da cozinha?
Os dois riram e seguiram pros seus postos. Ela na recepção, ele na cozinha.
Por uma janelinha aberta na cozinha ele conseguia ver a maioria das mesas do salão. Os pedidos não paravam e ele tinha que coordenar o pessoal e visitar as mesas dos clientes... Mas um casal que acabará de chegar o fez parar. "Era ela? Mas não, estava muito diferente... Mas são os mesmos olhos."
- Marcinha! Marcinha!
- Que foi Hugo?
- Quem são eles?
- Ah um empresário famoso... lembra, o cara importante que te disse pela manhã no telefone.
- Hum... E ela?
- Deve ser a namorada oras. Pelo amor de Deus, não é hora de flertes!
- Não, não. É que ela me lembra uma mulher... na verdade uma menina. Mas é besteira, devo estar me confundindo.
- Olha só o pedido deles. Tenta dar uma adiantada e visitar logo a mesa deles, está bem?
"Mas será? São os mesmos olhos, as mesmas bochechas rosadas... Preciso saber se é ela, e como veio parar aqui." Sentia um queimor por todo corpo. A mulher que por anos tentou esquecer sem sucesso estava ali bem a sua frente e com um cara "importante". Sim. Era ela, não havia mais dúvida. Era ela, a mesma que o havia feito chorar todas as noites, todos os dia 09 desde que se fora. " Eu é que vou preparar esse prato!" Anunciou à cozinha. Foi ao canto mais escondido e chorou. Chorou muito preparando o prato do casal. "Eu mesmo levo!" E foi, com passos inseguros, os olhos vermelhos servir-lhes.
Olhou bem fundo nos olhos dela, e ela o reconhceu. Mas não deixou nenhuma palavra escapar. Percebeu depois, de longe, que ele passava a mão no rosto dela, como quem pergunta se há algum problema, e ela balançando a cabeça negativamente.
Começaram a comer, e ele fez um gesto chamando Márcia.
- Querida o prato está muito salgado.
- Só um minuto senhor, vou chamar nosso cozinheiro.
Márcia veio apressada e Hugo sabia muito bem o motivo.
- Hugo, teve algum problema com o prato... Tenta enrolar eles. Sei lá, diga que é uma técnica francesa... ou coisas do tipo.
Ele foi andando, agora seguramente do que fazia.
- Pois não senhores?
- Notamos o prato muito salgado.
Ela mantinha a cabeça baixa.
- São lágrimas.
- Ah sim... Que? Como disse? - o homem perguntou achando ter ouvido errado.
- Lágrimas!
E percebeu nos lábios dela um tremor no canto da boca.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Cai logo, tempestade!

E sinto uma tempestade se formar dentro de mim, os olhos veem escuro, a garoa fina começa. Mas quem disse que ela veio pra ser garoa? Ela quer derramar sobre tudo sua densidade, sua força. Quer cair sem roupa ou maquiagem. Ela será tão forte, que ficará na primeira página dos jornais por dias. Será tão forte que os amantes deixarão de se amar, pois nem conseguirão sair de casa. Todos ficarão com a pele verde de tanta umidade, e entre os dedos irá surgir mofo, bolor.
E então quando todas as relações humanas forem destruídas pela tempestade, ela passará, e as pessoas tentarão edificar os sentimentos. Aos poucos limparão o mofo... Os amantes, antes verdes, ficarão aos poucos amarelos e depois ,enfim, voltarão à sua cor natural. Quero te pedir: Cai logo tempestade! Todos nós precisamos ver o edifício desabar, para depois, edificarmos tudo.

domingo, 1 de maio de 2011

Trust in me, baby.

Mais um dia, outro dia, novo dia. Mas, o que ele tem de novo? Nada. Ela acorda pontualmente ás 7:07, toma café, não penteia os cabelos e vai trabalhar. Pega dois transportes públicos, que pra variar são cheios de tarados desinteressantes, e quando lá chega tem que aturar o chefe, que pensa que por status ou dinheiro ela renderá as pernas, a pele e as carícias. E o pior de tudo, ele geralmente escosta nos cotovelos dela e olha enquanto ela boceja, duas coisas que, para ela, são extremamente irritantes.
Trabalha o dia inteiro sob os olhares dos machos de plantão. Que são estranhamente atraídos pelo não-sorriso da moça. Que teria ela na cabeça? E os mais safados diziam: "Quieta desse jeito... deve ser quente na cama." E o chefe pensava: "E se eu aumentar o salário?"
Só existia um momento que ela sorria. Que contarei mais tarde.
Todos contavam os segundos para que o expediente terminasse, mas ela contava muito mais ansiosa, que todos os trabalhadores do mundo juntos; pois queria abrir seu único sorriso do dia. Mas não podia ser ali.
20:00, e ela sorria por dentro: acabou!
Sentia-se melhor nos ultimos dias, pois agora conseguia falar com seu único ex-namorado e não dizer: "Não posso mais viver sem você". Isso era bom, depois de tanto tempo chorando sem sorrir no final, tinha ela alcançado uma meta. Tudo bem que era uma pseudoindependência... Mas não dizem que uma mentira em que se acredita vale muito mais que uma verdade desagradável?
A verdade? Ela quer tanto esquecer... Mas como a moça não sabe que eu existo vou contar: ela ainda não sabe viver sem ele. Talvez sobrevive, mas engana todos muito bem.
Tira os sapatos, o vestido, a calcinha bege e entra no banho. Sai com os cabelos molhados e percebe que precisa corta-los. Não que estejam grande, mas quando ela sente ele nas costas é sinal de que já passou da hora passar a tesoura. Poe o roupão e dispensa as pantufas que havia ganho dele. E coloca pra tocar "Trust me", chora no todo decorrer da musica, e quando acaba o som e seu rosto está encharcado ela vai até o espelho e sorri.
Coloca o mesmo filme de sempre, pois assim consegue dormir. As cenas repetidas todas as noites dão sono. E ela se sente tão sozinha.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Evanira.

Era o ano de 1935 e meu pai tinha um jumento, que era brabo a beça. O bicho fazia todo o trabalho pesado do sítio. Mas ele relutava, empacava, dava coices e não obedecia de jeito algum meu velho pai. Pois sabia muito bem que seria levado pro trabalho duro.
Ouvia meu pai ralhar com o pobre bicho, xingando ele de tudo quanto é nome. Eu devaria ter uns dez anos, e assustada ia ao quarto de minha mãe:
- Mãe, o pai ta nervoso, vai lá ajudar ele.
Ela respirava fundo e virava a cabeça pro lado, os lábios finos, as rugas, o rosto sofrido. E o virar a cabeça significava claramente desdém. Mas eu sabia que se ele voltasse pra dentro de casa sem que o jumento o obedecesse, ele descontaria em nós... Puxaria o revólver, como muitas vezes fez, e quebraria as poucas coisas que tínhamos. E tudo porque fora contrariado. E eu não podia deixar isso acontecer denovo: arribei as saias e saí. Enquanto meu pai fumava num canto seu cigarro de palha, eu fui convencer o jumento, e disse no seu ouvido: "Vem bichinho, vem comigo." E ele, que ao lado de meu pai mantinha as orelhas duras para baixo, destencionava e levantava as orelhas, e olhava muito fundo em meus olhos.
Confiava e me seguia, mas eu, traídora, o levava à meu pai, que me olhava dos pés á cabeça, sem emitir um único som. Fazia tudo isso não para o agradar, mas sim para não ver mais uma vez toda aquela ladainha, dele ameaçar minha mãe e todo aquele reboliço... Era única e exclusivamente por isso que eu traía a confiança, que o pobre bicho depositava em mim.
Enquanto andava em diração a casa do sítio, ouvia os gemidos de dor do jumento, que, com certeza meu pai estava surrando, achando que assim ele não seria mais tão birrento. E pensar que fora eu que o tinha levado pra junto de meu pai, doía fundo no meu coração de criança.
Entrava em casa com os pés sujos de lama, e ía de mansinho até a cama da minha mãe, que já dormia. Beijava-lhe a testa e dizia, quase inaudível: "Hoje a senhora dorme sossegada minha mãe."

Levante o véu.

Hoje minha fita do Senhor do Bonfim arrebentou. Na verdade, quando eu acordei achei ela na cama, e não tinha arrebentado, mas sim desfeito os três nós bem presos. Eu não lembro quais eram os três pedidos. Na verdade lembro de um único, e sei que os outros dois envolviam você, na real, eu mais você, numa história ímpar, como queríamos desde o início.
Mas, sua morte artifícial já aconteceu. E não vale a pena esperar que algo bom aconteça hoje, ainda mais quando quem se amou por muito tempo morreu. E recebi um email vindo da casa dos mortos que dizia: O pra sempre acaba. E tudo muito formal, como se nunca tivessemos tido nenhuma liberdade. Quase um por favor, mande os arquivos que solicitei.
Doux rêves, e sei que um dia você vai acordar. E eu continuarei a dormir e sonhar.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Les jours triste,

21:59 E ela ligou. Com alguma esperança dele atender e ela começar a conversa: - Pensei que não fosse me atender...
Ele ficaria em silêncio, e ela não teria o que dizer. O que dizer nessas horas? Já havia demonstrado toda sua fraqueza, já usou todos os artifícios mais mentirosos. Tenho outro! - ela disparou pra assustar. Mas não adiantou, nada adiantará. O amor nele estava morto. O tempo, os prédios, os quilometros, e principalmente o crescimento matou todo o amor, que era fresco, que era infantil, que era duro, que era forte. Era forte, era forte. Era, era... Foi.
Foi, agora tudo pertence ao passado. E ele disse: confia no futuro. Como? E o pior é que ele realmente acredita no futuro. O futuro? O dela é bonito; pena que ainda não o sabe. Mas ele é próximo, e não envolve amor. Amor é coisa ruim, cobra espaços que hoje pouca gente dipõe. E disputa tempo com o mundo, porquê o amor não pertence ao mundo. Amor é imaginário, e faz parte das doenças mentais.
O telefone toca. Seria ele arrependido?
- Pronto. - ela atende forçando, um pouco, uma voz triste.
- Opa, tudo bem? Posso falar com o Beto?
- Não tem nenhum Beto aqui não cara!
- Ah, tá bom.
O canto da cama onde ele sempre ficava estava ali. O canto da parede onde se amassavam estava ali. O chão onde muitas vezes se amaram estava ali. A prateleira que ele sempre arrumava estava ali. Tudo estava ali, menos ele. As folhas tomavam conta do quarto, isso fazia ela um pouco feliz, pois assim alguma coisa nova fazia parte do cenário. Alguma coisa ali traía a fome que as lembranças tinham de ficar.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Tem espaço.

É... Eu ando meio tarada pela Lua. Enfim, na falta de muita coisa resta alguma coisa. Tá, nem eu entendi.


E sempre que subo no terraço pra vê-la escuto a Valsa de Amelie, que é extremamente linda. E me dá vontade, ou melhor, eu saio dançando, rodando, dançando, rodando.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Tum.

Quando as pessoas são almas gêmeas, sempre acabam juntas no final.
- Quero ser outro cara.
- Que tipo de cara?
- Um bom o suficiente pra ser visto do teu lado.
E separaram-se sem data pra voltar.






Morena dos olhos d'agua, Chico Burque.


[..]
Morena, dos olhos d'água,
Tira os seus olhos do mar.
Vem ver que a vida ainda vale
O sorriso que eu tenho
Pra lhe dar.

Seu homem foi-se embora,
Prometendo voltar já.
Mas as ondas não tem hora, morena,
De partir ou de voltar.
Passa a vela e vai-se embora
Passa o tempo e vai também.
Mas meu canto 'inda lhe implora, morena,
Agora, morena, vem.

domingo, 17 de abril de 2011

Umbu ou anotações sobre um amor nem um pouco urbano.



Debaixo do umbuzeiro, onde Lampião e seu bando descansou, onde ele e Maria bonita fizeram Expedita, e onde nasceu ela, a filha única da resistência sertaneja.
Assombreados pela árvore sagrada do sertão, estavam os dois deitados. Que depois estariam separados por um imenso pedaço de terra vermelha e seca... Mas agora vou fingir não conhecer o fim dessa história.
Eles derramam leite sobre a terra, o gozo: leite da vida. E ali debaixo está a raíz do umbuzeiro, de onde se extrai o leite que retarda a morte seca, o líquido que mata, e que matou a sede de muito homem bom, desses que sabem os segredos dessa terra resistente.
Mas a única sede do casal era o amor, e a esperança que é artigo de luxo pra esse lado do Brasil. E além do leite, derramavam o sangue do fim da pureza da moça. O fluído vermelho penetrava com facilidade o solo sedento, que já havia bebido o sangue de Canudos: sangue de milico, povo e conselheiro. E agora sugava o da moça.
- Eu te amo mais que qualquer coisa desse mundo. - ele dizia baixinho.
- Eu também, muito.
E se beijavam sob a sombra gostosa do umbuzeiro. Mas logo eles chegariam.
- Homem nenhum nasceu pra ser pisado Rosa!
- Abre mão dessa luta. Nós podemos fugir dessa secura humana. Recomeçar... Hein?
Ele não era ingênuo, e sabia que nesse Brasil que falta pão não há espaço pros sonhos de amor.
- Eles estão a caminho Rosa! Vá embora, eu sei de minha morte, e lido com ela há muito tempo, só não lido com a hipótese de você a ver.
- Pois eu não vou! Eles que me matem também.
Graciliano iria insistir, iria xinga-lá se fosse preciso, pra que ela fosse embora. Mas não havia tempo, no sertão até o tempo é racionado, pois eles chegaram: Sem nada dizer, pois a economia afetava inclusive as palavras, atiraram pra matar. E no nada, no meio da vegetação cinza, debaixo da árvore verde só se ouvia o grito de Rosa. Mas quem? Quem, meu Deus, ouvia o grito? Ninguém.
Ela queria enterrar-se junto a ele; cravou a unhas no chão batido, mas era inutil, pois a terra não se deixaria mover.
E nesse sertão esquecido, embaixo do umbuzeiro, onde ninguém consegue se enterrar, nem enterrar a ninguém. Onde não cabe amor, nem poesia, morreu Graciliano.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Havia mil motivos.

Preciso pegar esse bonde. Puta merda odeio correr, vou chegar ofegante dentro dele, e se o homem da minha vida estiver lá dentro? Não quero que ele me veja logo de cara suada. Mas sabe o pior, penso tudo isso enquanto corro. Entro, ufa. Olho em volta e nada me chama atenção.
Próxima parada: entra uma senhora com um colar de pérolas. É ele, é o colar da minha avó. E um arrepio me percorre. A minha avó era uma mulher linda. De fato muito bonita, mas profundamente triste, talvez o meu lado dramático venha daí. Ah não vou fazer essa comparação idiota, minha avó tinha motivos reais pra ser triste.
Tenho duas lembranças, ela sempre usava esse colar que ninguém sabe onde foi parar, e lembro que ela passava pó de arroz no meu rosto e me chamava de boneca de porcelana. Meu avô era um cara do tipo bruto, e não cuidou dela como ela merecia. A enchia de jóias... Mas pra que elas servem, quando falta dizer te amo? Ela nunca ouviu um eu te amo, tenho certeza. Eu nunca disse eu te amo pra ela. Nem pro meu pai, nem minha mãe. Que dissecante pensar nisso! Meus pais nunca disseram "eu te amo", está subentendido. Está? Eles morrerão, eu morrerei e ela morreu e nunca quebramos esse gelo. Talvez se faltasse dinheiro o amor sobraria.
Será que ela me escuta? Olho fixamente pro colar, a senhora que o usa deve estar pensando que vou roubar, sei lá. Desvio o olhar com dificuldade. Duda Duda, deixa isso pra lá, olha pra pista.
Olho pra pista, como manda minha razão. Mas não consigo parar de pensar nela. Queria conseguir dizer o quanto ela era bonita. Ela morreu... e nenhum filho, nenhum neto disse: "Eu te amo Isabeli!" Ninguém.
Fecho os olhos pra prender o choro que quer rebentar. E digo em voz baixa: Vó, eu te amo muito. E tenho certeza que essa herança bruta é pura fachada, pois no fundo todos nós aqui te amamos e admiramos muito, pela mulher forte e linda que foi.

domingo, 10 de abril de 2011

Chora Pierrot.

Meus cabelos estão claros, do jeito que você não gostava. Talvez pintar os cabelos de louro acaju é uma forma de não lutar mais por você. É uma forma discreta de dizer que não gastarei essa pouca energia me esforçando em te agradar a distancia. Porque essa distância é tosca. E nossas ultimas conversas foram ainda mais toscas: Eu ameaço me matar(tem coisa mais idiota ou melodramática?) e você age como um psiquiatra " calma, você tem muito o que viver" e conclui: "se cuida." Devo ter ouvido nesses ultimos meses uns mil e quinhentos "se cuida" no som da sua voz, que antes servia pra dizer " te amo, hoje e amanhã e sempre." É difícil encarar que a sua voz não dirá mais eu te amo. Antes era tão simples, e agora ouvir um eu te amo seria a cura. Cura do que?
Nós iríamos casar, lembra? Discutíamos horas o que tocaria na minha entrada na igreja. Você todo conservador queria violinos e eu queria que tocasse all star, relicário ou sinceramente. E sempre acabávamos rindo muito das discussões antecipadas. Ah que merda! Não quero rememorar nada disso. Quero te apagar, vou contratar um especialista nisso... Vou te apagar e ser muito egoísta pra deixar você sofrer sozinho.



p.s (meu, Dani.) Sei que os últimos contos estão muito dramáticos, e que tá chato ler tanta coisa sobre o mesmo assunto. Mas é uma fase que encerro (por enquanto) hoje.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Ela ela ela.

- Que frio! - disse ele pra quebrar o silêncio.
- Pois é... - disse ela pra não ficar calada.
Por fora tudo era calmo, mas por dentro, os dois sentiam como se tudo ardesse num fogo. Era sufocante deixar o silêncio reinar, era preciso preencher o momento com falas, mesmo que tudo fosse vazio, mesmo que as palavras fossem uns adornos idiotas.
Os dois, mesmo sabendo que tudo dito era ruído, continuavam feito bestas colocando a mente pra funcionar, tentando quebrar o suposto gelo.
- Quando isso começou? - perguntou ele
- Isso o que?
- Isso... De um chamar o outro de amor, do "eu te amo" virar " bom dia", " boa tarde", " boa noite" e o pior de tudo: quando o "eu amo você" virou pedido de desculpa que não se pode negar?
- Quando você fechou os olhos. - disse ela, olhando pro asfalto gasto.
- E eu os fechei?
Para a pergunta veio o silêncio, que os incomodava tanto. Continuaram andando, e ele achou uma resposta que não respondia:
- Eu estou feio, sujo, barbudo...
- Eu não disse que você fechou os olhos para você.
- E por acaso foi pra você?
Novamente o silencio.
- Não quero ficar sem você Sandro. Não quero ir, e precisar me redimir pra poder voltar.
- E se você for e não voltar?
Se olharam, agora sem nenhuma vontade de que, um ou outro respondesse à pergunta.
- Hoje o céu tem estrela a beça. Lembra quando vimos o eclipse juntos?
- Lembro - ele riu - Mas não foi, propriamente dito, juntos. Foi pelo celular...
- É verdade ia ser de madrugada... Nós programamos o despertador e quando começou, era uma da manhã, você me ligou.
A nostalgia fez as palavras serem deliciosas, serem de verdade ditas, e não vomitadas. Mas a realidade... Ah a realidade:
- Preciso ficar longe de você. - ele sentenciou.
Ela não chorou e não gritou. Mas sangrou e como sangrou. E como era denso e incrivelmente vermelho o sangue da moça. Ela não tentou acordos e não ligou. Mas odiou. E mais: odiou a ponto de sair com caras babacas, fingindo ver neles um amor. Mesmo que um amor medíocre, mediano, sujo e eu diria vagabundo!
Mas ele chorou, gritou e pensava em voltar. Mas não tinha coragem de dizer à moça que estava errado (homens, sempre racionalmente ridículos). O moço finge não saber que, sentir saudade de alguém vivo é tão mortal quanto as drogas fabricadas, que ele usa agora. E tudo por orgulho. Ah o orgulho.

domingo, 3 de abril de 2011

Minha, agora, borboleta.

Sexta indo por banheiro da unifesp achei num canto essa borboleta morta. Dai na hora resolvi que ela ficaria no meu moleskine, que agora anda com tudo. Tem até umas poesias, mas não ouso coloca-las aqui, são bem ruins. Mas queria mostrar ela, é bem simples, mas ao mesmo tempo encantadora. E como eu colei ela, tirei uma foto.

terça-feira, 29 de março de 2011

Elisa, Lisa, Lis, Lise. Minha flor, minha cor, minha cara.



E você diz: Não fica triste não Nani, eu amo vc. E quando eu chego cansada você diz: Vamo tomar banho, tirar essa roupa... E conta histórias incríveis : Daiii tinha uma princesa que queria beber coca-cola. Aiii o pai dela disse, não pode beber coca não, aiii ela bebeu e ficou assim. E vc se treme pra mostrar o estado da princesa teimosa. É como se fosse minha filha, na verdade acho que era pra ser :] Maaas me veio como irmã, e faz dos dias difíceis sorriso de Lisa.

vocês não Tao com nada e nem entenderão.

Entrou na estação de trem e seguiu andando na linha de segurança amarela. Olhava a linha até seu final, e parecia ver o infinito, mas a linha era finita. E todos olhavam curiosos para a moça. Os cabelos esvoaçavam... Ela era triste, talvez sem nenhum motivo justo, mas era.




As vezes dói ter você, e pensar nas possibilidades, no futuro e no agora. Queria intensidade... Eu tô mesmo é mal acostumada. Talvez o bom sejam as coisas correrem de maneira calma, sem paixões devastadoras... Agora sinto mais vontade de me cuidar. Mas daí você aparece e da vontade de me jogar, e por você no meu sofá nos fins de semana. E agir feito louca, te amar nas escadas e imaginar cenas.

E o vento dança no quintal, e a chuva samba no telhado, e eu volto a sentir enjoos e penso é melhor assim. E o cachorro pede socorro, ligo o som para que os vizinhos não escutem minha loucura.

Estou aliviada. Tempo tempo tempo tempo tempo. Para.

E mais uma vez, e mais uma vez eu espero

Um homem que dirá: Por favor 4 maçãs e um pacote de canela... São para o famoso bolo de maça com canela da Dani.

Paródiazinha, né.

domingo, 27 de março de 2011

Vem, querendo ir embora.

Vem mudar o fim da história... Escrevo num pedaço de papel. É pra você que escrevo, mas não irá chegar até você. Corto o abacaxi em cubinhos e coloco uvas passa, o médico recomendou... estou bem mais gordo. Queria muito por leite condensado pra acompanhar, mas agora minha namorada é natureba, e fica no meu pé. Hoje é domingo, e você passaria a tarde aqui, colocaríamos um filme como pretexto e faríamos amor até os créditos passarem mil vezes. Depois ouviríamos Janis Joplin, eu dançaria e você daria risada. Agora lembrei da tua risada, parecia de bebê... Mas seus dentes andavam amarelos por conta do cigarro. Agora eu fumo querida. Nem posso mais te repreender...
E como será que vão as coisas por ai... Dizem que a Hungria é bonita. Que diabos alguém faz ai? Por que não admite que tem medo de amar? E assim que eu ia te chamar de minha namorada, você pulou fora. " Congresso de poetas na Hungria. Sinto muito, mas desde o início deixei claro, que não anularia nenhuma experiência, por qualquer tipo de relacionamento." Qualquer tipo de relacionamento? Como assim? Era amor. Tem algo maior? Uns poetas mal sucedidos e alcoólatras são mais interessante do que beber desse amor que te ofereço? Tá bom, tá bom... Eu prometi não falar mais sobre isso. Mas o amor é tão grande. Poxa, queria muito te mostrar.
Não se preocupe, não quero mais me matar, nem te matar. Estou indo muito bem. Comprei ontem uma pólo, lembrei que você achava bonita. As que você me deu infelizmente doei num momento difícil. Falando nisso já arranjou alguém pra passar o tempo? Bem provável, e, sinceramente não quero resposta. Queria pedir pra você usar aquele casaco que te dei... Lembra? Um roxo, quadriculado. Você adorava coisas quadriculadas... Credo, disse como se você estivesse morta.
E se estiver? Quem irá me avisar? Tomara que você tenha anotado em algum caderno meu endereço ou meu telefone. Um dia um estranho me telefonará ou me ligará comunicando sua morte. Morrer na Hungria... Do que você morreria? Atropelada... não... Já sei, você iria se apaixonar, acharia ele um máximo, poeta enfim... essas coisas que você gosta. E quando ele estivesse te amando você diria: " Querido tenho um congresso de pintores no Cazaquistão... Deixei claro desde o começo que não anularia nenhuma experiência por nenhuma espécie de relacionamento..." E ele tentaria argumentar: " Eu vou com você... Não tenho nada a ganhar aqui, e nem a perder lá. Mas eu te acompanho por que te amo." Mas você não deixaria espaço para os argumentos dele, e iria empurrá-lo pra fora do quarto dizendo: " preciso arrumar as malas, o voo sai daqui a uma hora. Foi bom te conhcer." Ele sairia a contragosto, segurando as lágrimas de ódio e tristeza. Você arrumaria suas malas,e na saída do prédio, ele iria te esperar para te assassinar a facadas.
Mande notícias, mas não responda à pergunta.

Bob Dylan.

Garota do Norte do País


Bem, se você estiver viajando pelo norte do país,
Onde o vento sopra forte na fronteira,
Fale de mim para quem mora lá,
Ela foi certa vez, meu verdadeiro amor.

Bem, se você for quando a neve estiver caindo,
Quando os rios gelarem e o verão estiver terminando,
Por favor veja se ela esta usando um casaco quente,
E a mantenha afastada do ganido dos ventos.

Por favor veja se os cabelos dela esvoaçam,
Se balança e escorrem sobre seu peito.
Por favor veja se os cabelos dela esvoaçam,
É assim que mais me lembro dela.

Eu fico imaginando se ela ainda lembra de mim.
Por vezes tenho muito rezado
Na escuridão da minha noite,
Na claridade do meu dia.

Então se estiver viajando pelo norte do país,
Onde o vento sopra forte na fronteira,
Fale de mim para quem mora lá.
Ela foi certa vez, meu verdadeiro amor.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Doce doce agridoce amargo amargo insuportável.

Parou de frente pro espelho, com a caixa de lembranças nas mãos e choro escorrendo, fazendo o corpo tremer, a boca desfigurar e as bochechas ficam vermelhas. E ela se olha, admira o próprio sofrimento. E molha as fotos, as cartas, os desenhos, as colagens, os recibos e os cartões, de lágrimas pesadas, antigas e doce. Não sabia que fim dar a todas aquelas coisas, que despertaram, um dia, os melhores e mais gostosos sentimentos, mas que hoje, despertava uma amargura tremenda. Alguém dirá: " Ponha fogo Amélia!" Mas nem coragem lhe resta. Outros dirão: "Mate-se Amélia!"
Mas ela não pode. Quer estar viva pra superar a imagem do espelho, e voltar e dizer: "Agora engole esse meu sorriso."
Dizem que a felicidade é algo fácil de se ter, basta querer. Mas a noite, principalmente, ela percebe que ela não está ao alcance. Nem das mãos, nem da alma e talvez nem do desejo. E ela grita no meio da noite: " Ne me quittte pas!" Foi um sonho Amélia.


segunda-feira, 21 de março de 2011

E o amor faltou ou sobrou.

Hoje, depois de muito muito tempo sem ter coragem de abrir meu moleskine, o abri. Senti uma coisa nostálgica. Pro bem e pro mal, como todas as coisas antigas né?! Trazem coisas muito boas, mas trazem a saudade e nem venha me dizer que saudade é sentimento bom. Saudade é uma merda. Os poetas etc querem deixar a saudade adornada, mas não acredito mais nisso, já acreditei.
Mas voltando, o que me fez hoje escrever nele foi uma música, que me mostraram hoje :] E senti muita vontade de acreditar em coisas que eu já tinha desistido. Claro que não colocarei o que escrevi no moleskine aqui,rs. Mas a música sim:





Janela Nos Céus

As algemas foram retiradas
As balas deixaram a arma
O calor do sol
Nos manterá quando não houver mais nenhum

A regra foi contestada
A pedra foi movida
O grão é agora um bosque
Todos os débitos foram pagos

Oh, você não vê o que o amor fez?
Oh, você não vê o que o amor fez?
Oh, você não vê o que o amor fez?
O que fez comigo?

Amor cria estranhos inimigos
Faz amor onde parece improvável
Despe a alma em um strip-tease
Põe o ódio de joelhos

O céu acima de nossas cabeças
Podemos alcançá-lo de nossa cama
Se você me deixar entrar em seu coração
E sair da minha cabeça... cabeça...

Oh, você não vê o que o amor fez?
Oh, você não vê o que o amor fez?
Oh, você não vê o que o amor fez?
O que fez comigo?

Oh oh oh oh, ohh
Oh oh oh oh, ohh
Por favor, nunca me deixe fugir de você...

Eu não tenho vergonha...
Oh não,Oh não

Oh, você não vê o que o amor fez?
Oh, você não vê?
Oh, você não vê o que o amor fez?
O que está fazendo comigo?

Você não pode ve o que o amor fez?
Eu sei que te feri e te fiz chorar
Você não pode ve o que o amor fez?
Fiz tudo menos matar você e eu
Você não pode ve o que o amor fez?
Mas o amor deixou uma janela nos céus
O que está fazendo comigo?
E eu sou fã do amor

Você não vê o que o amor fez?
Para todo coração partido
Você não pode ve o que o amor fez?
Para todo coração que chora
Você não pode ve o que o amor fez?
O amor deixou uma janela nos céus
O que está fazendo comigo?
E eu sou fã do amor.

Você não vê?!

domingo, 20 de março de 2011

Só sei sonhar.

Fumar umzinho e ouvir Coltrane... Não faço mais isso, mas entendo muito bem.

Acorda Maitê... O tempo tá escorrendo, correndo, morrendo. Gritar, chorar, desamar, acordar, mergulhar, retornar, ressuscitar e findar. Não não não não deixa isso acontecer! Fica feliz, vem ressurgir. Onde você quer ir?

Esse é o ultimo dia da minha vida.

Chorava enquanto pintava as unhas de preto. O que ela queria mesmo eram ataduras pretas de Amaranta. Lembram dela? Não importa.
Queria viver um luto eterno, mas restou um bebê no ventre. Como poderia esquecer? Se existia uma lembrança do amor que existiu bem ali dentro dela. E logo ele ia ser visível... E teria talvez os olhos dele, talvez o jeito racional de ver as coisas. Uma lágrima caiu exatamente no dedo que uma aliança, feita por ele, enfeitava. E a água dos olhos estragou a pintura daquela unha. Levantou e foi pegar algodão e acetona, apagando o borrão. Mas ela queria mesmo era apagar as noites, as tardes e as manhãs que passou com ele. Queria arrancar da retina memorial o semblante dele.
Mas não dá pra voltar. Ele não vai escutar, e ela não acredita em nada além do que vê.
E ela deita no chão, fuma cigarros e escuta First Day of My Life, e lembra que quando ele estava lá, escutaram a música felizes. Ele disse: senta aí, quero te mostrar uma música. Mas fecha os olhos. Ela obedeceu e ele ficou atrás dela, lendo a tradução por cima de sua cabeça. O inglês dela é assustador... Lembrou que sempre pedia pra que ele traduzisse as músicas. Agora ele não lerá isso, por que não está mais aqui. A moça vive entre lembranças, mas a culpa é dele, que não podia ter morrido.
Quero dizer uma ultima coisa: Ela cantará essa música pro filho quando ele perguntar pelo pai.





Primeiro Dia da Minha Vida

Esse é o primeiro dia da minha vida
Eu juro que nasci bem na porta
Eu saí na chuva, de repente tudo mudou
Eles estão espalhando toalhas na praia
Seu rosto foi o primeiro que eu vi
Acho que eu era cego antes de te conhecer
Agora eu não sei onde estou eu não sei onde eu estive
Mas eu sei aonde eu quero ir

E então eu pensei que deixaria você saber
Que essas coisas demoram para sempre, eu especialmente sou lento
Mas eu percebo que eu preciso de você
E eu imaginei se poderia voltar para casa

Eu lembro de quando você dirigiu a noite toda
Só para me encontrar de manhã
E eu achei aquilo estranho, você disse que tudo mudou
Você sentiu como se tivesse acabado de acordar

E você disse, "Esse é o primeiro dia da minha vida?
Estou grata que não tenha morrido antes de te conhecer?
Mas agora eu não me importo, eu poderia ir para qualquer lugar com você
E eu provavelmente seria feliz"

Então se você quiser ficar comigo
Com essas coisas não há o que falar
Você tem que esperar e ver
Mas eu prefiro trabalhar por um salário
Do que esperar para ganhar na loteria

Talvez dessa vez seja diferente
Eu realmente acho que você gosta de mim

Fica mais um pouco, amor.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Eu te abro as cortinas da manhã.

Caminhavam os dois, de mãos atadas de superstições engraçadas, com o coração ansioso... Mas por que a pressa? Era a pressa de ter certeza, era a vontade de ouvir e dizer palavras confortadoras. Sabe, existem palavras que podem mudar o curso de um sentimento; por isso é preciso dizer, expressar. Acredito que o amor, ou qualquer coisa dúbia como ele, deve ser feita de gestos, que as vezes destroem e outras vezes constroem. Mas, daí vem o medo... Quais palavras edificam e quais desedificam? Não dá pra saber, é triste, mas não dá mesmo.
Ela cantarolava qualquer coisa, e ele observava. E sempre quando ela ia embora, os olhos dele seguiam preocupados. Mas agora eles andavam por aí com a mente distraída e com os corações unidos por algo que não cabe explicar. O vento batia rasgando, invadindo camadas da pele... Até onde o vento entrava? O suficiente pra se fazer notar, e balançava os cabelos dela, procurava espaços pela barba dele. O que será deles? Sei que estão tentando viver bem. Fazer bem um ao outro, confiar e sonhar.
- Você quer casar?
- Quero... E você?
- Sim, acho que sim.
E agem como se coisas fossem certas, numa condição deliciosa. Pra que pensar? Tem algo que diz, não sei quem disse, que não se deve sofrer por antecedência. Até porque, dessa vez, o sofrimento não vai chegar, eles não irão deixar.
- Vou te cuidar e te gostar...
E eles correrão o mundo, sim, agora dei pra fazer previsões. São só duas crianças querendo a felicidade.
- Vou te acompanhar nos teus sonhos.
- Quero você aqui hoje, amanhã e depois.
- ... E sempre.





quarta-feira, 16 de março de 2011

Dois.

- Quando você ri seus olhos apertam-se e sobem suas bochechas. E fica adoravelmente bonita tua expressão. Desencontramos, não sei quando e nem onde, mas agora é a hora. É estranho, nunca imaginei sentir isso. E não digo sentir de novo, por que é uma sensação completamente nova. Deixamos histórias longas e doídas para trás. Mas agora minha estrada uniu-se a tua, numa mão unica, num momento único. E mesmo prometendo não ouvir mais meu coração, me peguei nesses dias envolvida por ele. E nosso ultimo beijo e as suas ultimas palavras antes da gente se despedir ficaram em minha cabeça. E penso em você muito, e sinto como se te conhecesse há anos.
- Pode dormir, vou manter os olhos em você. E vou decorar suas pintas, imaginar constelações e beijar suas costas descobertas.
- Pode dormir, vou beijar teus dedos... Tua mão, e vou contornar teus lábios a ponta dos dedos, e você vai sentir um arrepio manso. Me mostra o mundo com teus olhos... Vê o que tem do outro lado do muro pra mim?
- Já viu o pôr do Sol daqui? Um dia a gente vê juntos.
- Quero você. Quero fazer dar certo.
- Quer dormir? Depois comemos um pão assado.
E tudo se faz, tudo segue um caminho bom. Não importa o que nos aguarda, eu confio nisso, por que de uma maneira estranha esse amor... Posso chamar assim? É verdadeiro. Eu vou levar sua bagagem e o que mais estiver à mão.




Como dois estranhos,
Cada um na sua estrada,
Nos deparamos, numa esquina, num lugar comum.
E aí? quais são seus planos?
Eu até que tenho vários.
Se me acompanhar, no caminho eu possso te contar.
E mesmo assim, queria te perguntar,
Se você tem ai contigo alguma coisa pra me dar,
Se tem espaço de sobra no seu coração.
Quer levar minha bagagem ou não?
E pelo visto, vou te inserir na minha paisagem
E você vai me ensinar as suas verdades
E se pensar, a gente já queria tudo isso desde o inicio.
De dia, vou me mostrar de longe.
De noite, você verá de perto.
O certo e o incerto, a gente vai saber.
E mesmo assim,
Queria te contar que eu talvez tenha aqui comigo,
Eu tenho alguma coisa pra te dar.
Tem espaço de sobra no meu coração.
Eu vou levar sua bagagem e o que mais estiver à mão.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Ponto de partida.

Tenho 42 cartas tuas, das mais bobas até as mais profundas. E hoje, não sei por que resolvi as ler, e senti um frio imenso como a morte, porque foi exatamente isso que aconteceu, eu morri. Morri nessas cartas, naquele tempo e não me reconheço em nenhuma linha. Achamos por um longo tempo, que um se adaptou ao crescimento do outro... Que ilusão! Você cresceu e perdeu o encanto, o brilho dos olhos quando me via. Eu cresci, e você ficou procurando um vestígio da menina que conheceu. Deitávamos na cama: antigamente, você gostava de como eu ficava te olhando, e de uns tempos pra cá você ficava sem jeito, dizia: " Dá vergonha alguém ficar olhando assim." Você arrancou todas as pétalas desse amor, e quando restou o caule, quando até poderíamos regar a flor, você arrancou pela raíz. Houve sofrimento? Talvez sim, mas um bem comportado e silencioso.
De princípio eu fiz tempestade, te gritei, te chamei e te amei, mesmo não querendo. O amor é assim mesmo. Um dia nos veremos pra conversar bobagem. E talvez você se apaixone pela Helena mulher. E talvez eu me apaixone pelo Flávio frio. Mas vai ser tarde, eu sei que vai.
Você se perdeu, e o pior a culpa pode ser minha, eu causei isso. Não vamos levar o que houve de ruim. Eu sei que você vai me chamar, mas eu não quero, e não vou mais te escutar. Tem outro alguém, no teu lugar.

" Nem choro mais, só levo a saudade morena... É tudo que vale a pena."





Eu tentei evitar
Liguei a tevê
E deitei no sofá
Desde que haja tempo pra sonhar
E assuntos pra desenvolver
Não é muito fácil desligar
Me dá pena do meu chinês
Por ele eu passava o dia inteiro
A meditar
Bebendo chá verde ele me diz
"Fica feliz que vai funcionar"
Mas eu tô feliz,
Eu juro pelo meu irmão
O saldo final de tudo
Foi mais positivo que mil divãs
Por isso que não adianta
Querer julgar
É cada um por si
Na sua
Própria bolha de ar
Mas o que eu penso mesmo
É encontrar alguém que me dê carinho e beijo
Me trate como um nenêm,
Me trate muito bem
Ah, eu só quero amor
Seja como for o amor
Seja bom, seja bom,
Seja bom, seja amor
Me faz mais feliz
Me dá asas pra fluir
E cantar o amor

sábado, 12 de março de 2011

Amanhã é 23

Amanhã é dia 23 de junho e é meu aniversário. É também véspera de São João. Sempre ouvi isso na infância... " Essa vai pular fogueira todo ano, nasceu bem na véspera!" Mas as coisas mudaram.
Minha mãe conta que antigamente em todas as casas havia fogueira, e isso quando não eram nas ruas! E todos os vizinhos participavam, levavam comidas, dançavam, e brincavam até de amigo secreto. Como ela diz:" era de dar gosto tanta animação! Foi numa dessas festas juninas que teu pai me deu aquela caixinha de música..." Ela lembra com os olhos brilhando com o mesmo brilho dos olhos de minha avó.
Mas logo ela conta uma história que não sei se chamo triste ou engraçada: uma mulher que pulando fogueira se queimou e ficou com marcas por todo o corpo, mas principalmente no rosto... Ela cresceu e casou-se com o único bêbado que a quis com o rosto deformado. E tiveram um filho, na verdade tiveram quatro, mas é o primeiro que importa. Ela, a moça queimada, nunca mais participou de nenhuma festa junina, coisa difícil de fazer no nordeste, e nem deixava seus filhos participarem... Mas um dia o moleque foi. E adivinha? Queimou-se feito a mãe! E a parte mais afetada fora o rosto. Minha mãe tentava dar uma explicação delirante a isso. Imagina! Até disse que era coisa de vidas passadas. E se eu ria da história, duvidando um pouco da veracidade, ela ralhava braba a beça! E quando terminava de contar ficava assim-assim reticente.
E agora? Se meus antepassados me vissem agora diriam: Que menina sem sal é essa Maitê! Amanhã é véspera de São João, e eu longe das minhas raízes, assisto uma série americana e que provavelmente estarei assistindo amanhã.




Outro Dia

Todos os dias ela toma banho pela manhã,molha seu cabelo
Enrola-se em uma toalha,e se dirige para a cadeira no quarto
É só mais um dia

Veste suas meias,calça seus sapatos
Põe a mão no bolso de sua capa de chuva
É só mais um dia

No escritório, onde papéis se amontoam,ela dá um tempo
Bebe outro café,e tem dificuldade de se manter acordada
É só mais um dia
Du du du du du du,é só mais um dia
Du du du du du du,é só mais um dia

Tão triste,tão triste,às vezes ela se sente tão triste
Sozinha em seu apartamento ela moraria
Até que o homem dos seus sonhos viesse quebrar o encanto
Oh, Fique,não saia por aí
E ele vem,e ele fica,mas vai embora no dia seguinte
Tão triste,às vezes ela se sente tão triste

Enquanto envia mais uma carta ao som das cinco
As pessoas se recolhemem a sua volta,e ela sente dificuldade em manter-se viva
É só mais um dia
Du du du du du du,é só mais um dia
Du du du du du,é só mais um dia

Tão triste,tão triste,às vezes ela se sente tão triste
Sozinha em seu apartamento ela moraria
Até que o homem dos seus sonhos viesse quebrar o encanto
Oh, Fique,não saia por aí
E ele vem,e ele fica,mas vai embora no dia seguinte
Tão triste,às vezes ela se sente tão triste

Todos os dias ela toma banho pela manhã,molha seu cabelo
Enrola-se em uma toalha,e se dirige para a cadeira no quarto
É só mais um dia

Veste suas meias,calça seus sapatos
Põe a mão no bolso de sua capa de chuva
É só mais um dia
Du du du du du du,é só mais um dia
Du du du du du du,é só mais um dia

terça-feira, 8 de março de 2011

Ah mulher mulher mulher.

Parabéns pra nós, com muito merecimento. To meio sem inspiração para escrever hoje, por mil motivos que me desgastam, mas enfim, não podia deixar passar esse dia muito muito especial. E pra não encher linguiça vou me diminuir a isso: dizer que me orgulho de ser mulher, ter todos os charmes, crises e dores que todas nós temos, por enfrentar diariamente gente de cabeça pequena que pensa que mulher não tem direito de ir atrás de felicidade e de beber, causar, chorar, amar e desamar. Por que muitas vezes ouvi: Como é feio uma mulher fazer isso! E se fosse um homem? Ah daí é diferente. E olha que ouvi isso de mulheres, triste não? Pois é, ainda temos muito espaço que ocupar, não que mulheres deveriam dominar o mundo, perder a feminilidade e odiar homens... Não é isso. Mas é lindo ver toda delicadeza encobrindo uma força linda. Se eu fosse um homem, piraria na alma feminina.
Daí, escolhi Vinicius para enfeitar esse texto meio chinfrim. O poema é ótimo, eu acho, e beem conhecido. E talvez o poema nem tenha muito a ver com nosso dia, mas confesso que toda mulher adoraria ouvir um homem recitando ele ao pé do ouvido.

Soneto de Fidelidade

Vinicius de Moraes


De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

domingo, 6 de março de 2011

Caio Fernando Abreu, A moça que não era Capitu.

"Lá está ela, mais uma vez. Não sei, não vou saber, não dá pra entender como ela não se cansa disso. Sabe que tudo acontece como um jogo, se é de azar ou de sorte, não dá pra prever. Ou melhor, até se pode prever, mas ela dispensa.
Acredito que essa moça, no fundo gosta dessas coisas. De se apaixonar, de se jogar num rio onde ela não sabe se consegue nadar. Ela não desiste e leva bóias. E se ela se afogar, se recupera.
Estranho e que ela já apanhou demais da vida. Essa moça tem relacionamentos estranhos, acho que ela está condicionada a ser uma pessoa substituta. E quem não é?
A gente sempre acha que é especial na vida de alguém, mas o que te garante que você não está somente servindo pra tapar buracos, servindo de curativo pras feridas antigas?
A moça…ela muito amou, ama, amará, e muito se machuca também. Porque amar também é isso, não? Dar o seu melhor pra curar outra pessoa de todos os golpes, até que ela fique bem e te deixe pra trás, fraco e sangrando. Daí você espera por alguém que venha te curar.
Às vezes esse alguém aparece, outras vezes, não. E pra ela? Por quem ela espera?
E assim, aos poucos, ela se esquece dos socos, pontapés, golpes baixos que a vida lhe deu, lhe dará.
A moça – que não era Capitu, mas também têm olhos de ressaca – levanta e segue em frente.
Não por ser forte, e sim pelo contrário… Por saber que é fraca o bastante para não conseguir ter ódio no seu coração, na sua alma, na sua essência. E ama, sabendo que vai chorar muitas vezes ainda. Afinal, foi chorando que ela, você e todos os outros, vieram ao mundo.”

(Caio Fernando Abreu)


sábado, 5 de março de 2011

Betina.

Tinha ido comprar meias e cigarro, estava um frio e era março, até o tempo bodeou esse ano. Esperava o ônibus quando passou por mim um casal. A mulher era linda, mas de uma beleza escondida por cabelos presos, óculos velhos, e uma tristeza notável. O homem era feio, desculpem a frieza mas era realmente feio. Não era um frankenstein, mas era perceptível sua escuridão. Ele segurava uma menina, meio sem sal, pela mão. Devia ser a filha do casal.
Não pude deixar de ouvir,nem de imaginar como se deu aquela familia.
- Você vai no açougue Fernando? - ela perguntou ajeitando o óculos pobre.
Como o marido não respondeu, ela repetiu:
- Você vai no açougue querido?
- Você é surda? Já disse que sim.
- Desculpa, não tinha ouvido. - ela se redimiu, sem nenhum motivo, pois ele não havia respondido.
Fiquei vendo eles atravessarem a rua. Pensando, fantasiando o que ela fazia ao lado dele. Como aquela história começou? Não sei, mas sei como poderia acabar.
Entrei no ônibus, 2,80, e o percurso nem leva dez minutos! Um dia ela acordaria, e pintaria os lábios de vermelho, um bem vivo; e tiraria aqueles óculos, poria um vestido alegre. A filha? Ah, prefiri imaginar que ela não existia. Ela sairia pela manhã, e pelo café da tarde voltaria, com a boca num batom não tão vivo quanto o que saíra. E ele? A olharia bestificado, hipnotizado pela beleza da mulher. Mas era tarde. Pois ela saíra para comprar passagens para o mar. O açougueiro, seu acompanhante, sujeito misterioso e bonito a dissera ser linda.
Está chegando meu ponto, dou o sinal. Salto do ônibus, entro em casa, acendo meu cigarro e fico pensando, agora sem fantasiar, na vida infeliz daquela mulher linda.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Ouço todos os dias.




Chorando Esperando Desejando
Chorando , esperando , desejando
Que você volte para a única que você ama
Pense nisso todo o tempo

Eu estava chorando
E eu estava esperando
E eu parei de ter esperanças
De que você voltaria para mim

E se você não voltar
Nós seremos um choro
Nós seremos uma espera
E talvez todos nós deixemos de ter esperanças
De que você volte
À única que você ama

Então você irá chorar
Você irá esperar
E talvez você pare de ter esperanças
Que nós voltaremos para

Não há mais choro
Não há mais espera
Não há mais esperança
De que você volte para mim

.

Sentir seu corpo pesar sobre o meu. Era só o que eu queria. Mesmo você com seu um metro e noventa e eu com meus um metro e sessenta e quatro, o peso seria um detalhe. Um detalhe que eu não esqueço. A tua pele, teu cheiro, seu calor, ancas em ancas... Mas e o agora? Agora chove, está um puta frio lá fora e enquanto meus pés não esquentam eu não consigo dormir. Na verdade não conseguiria de qualquer forma, nem mesmo com cobertores elétricos. Ouço os cavalos da tropa de Napoleão, ouço o arrastar de móveis dos vizinhos, a gotas baterem forte na janela, como que impondo a saudade.
Ouço tudo, menos tua voz, tua respiração, seu gemido. Aliás ouço: teu silêncio, tua pressa... Você me sente? Levanto da cama, não tem jeito, não vou dormir mesmo. Abro um livro numa folha qualquer, procurando uma resposta enigmática, e o autor, não importa, diz: "Atira a maçã para cima, recebe-a de novo, indecisa, num movimento que quase descobre os seios. As pernas compridas, um pouco brancas demais. Os olhos talvez meio estrábicos. Mas a cor? Que cor? O gesto antigo de afastar um fio de cabelo inexistente.
- Vá embora - ela diz.
Visto a roupa devagar. Começo a descer as escadas.Não olho para trás. De que adiantaria olhar? De que adianta olhar?
Vou desviando das poças sujas da chuva de ontem. O asfalto esburacado. O céu cheio de fumaça. E de repente uma maçã espatifada contra o cimento. A carne madura demais espalhada em torno. Não há nada a dizer sobre ela, não passa de uma maçã morta" C.F.A
Cacete por que as coisas se fazem complicadas. Você tem medo de ir fundo em você? Eu tenho medo e de encontrar um demônio muito indomável e deixar ele tomar conta e enlouquecer, ufa!
Sinto um frio que vem de dentro, surge em algum lugar escuro e quente, segue os impulsos nervosos e se instala na flor da pele, e sinto percorrer cada centímetro que um dia seus dedos longos tocaram. Que importa? Você se importa? Você não sente esse cheiro de egoísmo? Eu sinto e fingi não sentir, me anulei por teu medo. Você não diz nada, o silencio não basta baby.
Agora não tenho sono, nem nada. Me resta um Budapeste e uma Felicidade clandestina. Me resta talvez morrer seca como a Clarice. E você? Me manda ser feliz. Com que armas vou a guerra, meu Quixote? Talvez terra arrasada funcione.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Tempo, tempo, tempo mano velho!

Vou dar um tempo nos contos por enquanto, pra participar de um concurso de contos e quero trabalhar pra valer nos que vou mandar. Mas logo volto a escrever pro blog. Torçam por mim,rs.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Filme pro fim de semana.

Antoine e Colette, de Fraçois Truffaut.

Bom mesmo pra descontrair o fim de semana, especialmente o domingo,rs. Conta a história de uma mulher, a Colette, que deixa seu pretendente com seus pais enquanto sai com outro rapaz. Não sei contar histórias de filmes, sem entregar completamente tudo. Então me reduzo a isso, mas afirmo que é bom.

Parte única : http://www.megaupload.com/?d=JRFS9GMZ


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Posso esperar o verão passar.

Ela sempre ficava ali: na entrada do Parque Trianon pintando quadros; ele a conhecia,sabia que sim. Mas de onde?
Alguns curiosos sempre paravam, e eu nunca tinha parado. Entendam, a correria do dia a dia não deixava. Mas eu olhava seus quadros enquanto andava com passos largos pela calçada. Por que alguém resolve pintar assim, na beira da Avenida Paulista?. Mas a noite, sempre depois que concluía algum processo, era naquela moça do Trianon que eu pensava, eram dela meus últimos minutos antes de dormir.
Teria ela familia, casa ou cachorros? Aquela moça, ah aquela moça. Mesmo assim, com pedaços da minha noite que como num ritual meu cérebro dedicava a ela, não parei para olha-lá.
Mas um dia a moça me fez parar. Ela terminava fde pintar três flores verdes, que pareciam conversar com os olhos distraídos de quem passava pela calçada.


- Resolveu parar hoje? - ela perguntou naturalmente sem largar o pincel, nem tirar os olhos azuis da tela.
Raul surpreso, respondeu: - É.
- Sempre vi nos teus olhos desejo de parar.


Fiquei confuso com a resposta da pintora de rua. E fui pra casa. Fui dia e noite. Insônia e sonho solto. Lutei para não voltar lá. Ela mexia comigo de uma forma estranha. Tinha dentro daquele peito uma ressaca intensa e perigosa. Quem era ela? Como sabia do meu desejo contido de parar. E se ela não existir?
As perguntas ecoavam como em uma gruta e a única coisa que ouvia era a voz amarga da dúvida. Não podia ficar aqui esperando alguma luz, algum fresta esclarecer a essência daquela moça.
Voltei. E lá estava ela pintando um elefante. Fiquei de longe observando. E me aproximei aos poucos, como um caçador paciente.


- Sabia que voltaria hoje. - ela disse com uma voz de monge.
- Demorei porque...
- Não precisa de mais explicações. Vou embora. Um dia volto e recomeço.


Juntou seus instrumentos e saiu calmamente. Achei que ela estaria lá no outro dia, talvez na outra semana. Mas os dias viraram meses, depois anos e finalmente viraram loucura. E fico aqui sentado do lado da estátua de um bandeirante qualquer esperando a mulher de olhos azuis, tentando lembrar quem ela foi.
- Mas o senhor mora aqui na rua, esperando ela? Nem sabe ao menos o nome dela?
- Não menina, fico aqui, tocando saxofone, ganhando um trocado. E sei que um dia ela voltará e pintara esse velho aqui, tocando esse saxofone.

Não sinto teus sinais.

Acabara de chegar em casa, quando uma ventania começou. Maria ficou na janela da sala vendo a rua ser coberta pelas folhas das árvores,e em alguns instantes de vento, a tempestade estava anunciada. O céu tornou-se negro em alguns minutos, o Sol se escondeu e algumas pessoas olhando para o céu corriam para tentar chegar em casa antes que o céu chorasse. Mais alguns minutos e ninguém na rua. Só as folhas ficaram, dançando ao sabor do vento. Agora era pra valer, as gotas grossas começaram a molhar a rua e Maria abriu a janela pra sentir o cheiro de asfalto molhado. Respirou fundo e se deliciou. Fechou a janela, e ficou vendo as gotas da chuva bater e escorrer no vidro. Ficou ali por um tempo que são se mede. Um tempo que nem ela sabe quanto durou. O céu está de luto - pensou. Mas logo corrigiu-se: pára de bobagem Maria, é verão, óbvio que tem que chover. Resolveu sair e se molhar. Mas e os raios?- ponderou. Qual o problema? A morte já não é um mal distante. Anestesiada por pensamentos de criança ela saiu. Alguns vizinhos, que olhavam a chuva pela janela, fitavam Maria com olhos de espanto e curiosidade:
"- Filho vem ver! A moça que mora no número 9 enlouqueceu."

"- Mãe, olha só. Sempre disse que ela era estranha, está na chuva rodando com os braços abertos. É mesmo uma louca!"

Maria não via ninguém. Sentia a chuva dançar no seu corpo, não deixando nem um único pedaço de pano seco. E ela rodava rodava rodava. Mas acordou, e viu que em quase todas as janelas haviam pessoas olhando-a. Voltou pra dentro da casa. O que vão pensar de mim?- sentiu vergonha. Nada Maria, eles é que deveriam se perguntar. No fundo cada um daquelas pessoas, eram pobres coitados, sem vontade de viver, nem de amar. E infelizmente, Maria também era mais uma infeliz.







Vai chover de novo,
deu na tv que o povo já se cansou de tanto o céu desabar,
E pede a um santo daqui que reza a ajuda de Deus,
mas nada pode fazer se a chuva quer é trazer você pra mim,
Vem cá que tá me dando uma vontade de chorar,
Não faz assim, não vá pra lá, meu coração vai se entregar à tempestade
Quem é você pra me chamar aqui se nada aconteceu?
Me diz, foi só amor ou medo de ficar sozinho outra vez?
Cadê aquela outra mulher?
Você me parecia tão bem,
A chuva já passou por aqui, eu mesma que cuidei de secar,
Quem foi que te ensinou a rezar?
Que santo vai brigar por você?
Que povo aprova o que você fez?
Devolve aquela minha tv que eu vou de vez,
Não há porque chorar por um amor que já morreu,
Deixa pra lá, eu vou, adeus.
Meu coração já se cansou de falsidade