sexta-feira, 15 de julho de 2011

Suis.


Ela não movia um único músculo visível.
- Você não deveria ter deixado ele te pintar.
- Antes ele queria me pintar por que me amava, depois, não queria me pintar por que me amava. Mas eu insisti. - disse, sem o olhar na cara.
- Eu disse á você...
- Eu nunca vi nada tão frio! O pior encontro é aquele que marcamos com nós mesmos, por isso ele só acontece quando estamos morrendo, e essa pintura adiantou meu encontro. Eu sou tão seca, tão fria.
Ele tentou se aproximar, tentou a abraçar:
- Eu sei que posso te ajudar, se você deixar.
Tirou os olhos da cadeira, e disse:
- Ontem o maquinista correu tanto, e o mundo da linha correu tão rápido aos meus olhos que até senti vertigem... De repente ele parou: "Estamos aguardando a movimentação do trem á frente." E na margem da linha de trem tinha um velhinho com um chapéu de palha e um cachorro ao lado, e ele me olhava fixamente. Como se soubesse que eu tinha vivido aquele encontro, mesmo longe da morte. Tenho certeza que ele queria me perguntar como era. Ele me perguntou, mesmo separados por um tanto de metais, eu sei que ele perguntou. E ele sabe que eu respondi: Sorte dos que, de fato, morrem após esse encontro. - disse com os lábios tremendo por prender o choro. - Eu não posso mais querer ajuda. Eu não tenho o direito de te perturbar previamente, eu já nem existo. Descobri que não tenho nada além da carne. É tudo frio, é tudo escuro e assim é o vazio: gelado.
- Eu sei o que vai fazer... Alguma coisa te impediria?
- Não.
Ele beijou-a na testa.
- Poderíamos viver felizes. Eu regaria teu jardim e você compraria todas as sementes que quisesse.
Ela enxugou o rosto com o dorso das mãos:
- Eu fiz minha escolha.

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