sábado, 2 de julho de 2011

Em duas cidades.


Tive a impressão de que um simples toque desintegraria aquele rosto, de tão enrugado que era. A boca parecia um rabisco de criança, e a língua não cabia inteira dentro dela. Talvez por isso, dizem que velhos são crianças. Que pobre conclusão! - penso.
Suas unhas estavam pretas... sujas. E era um sentimento, desses sem nome, ver que eram unhas, dedos, mãos e corpo que se agarravam à vida. Mesmo quando ela teime em sair de nós, nunca pensamos confortavelmente sua ida, e nem a encaramos docilmente. Talvez por isso ficamos com aspecto bestial, com essa fome de vida. Mas por mais garras que tenhamos, a morte fica aqui, ali, em mim, em você e nessa pobre senhora, ela fica instalada em nossa retina. Pega o espelho, olhe bem. Consegue ver?
Quem dividia lugar com a morte nos olhos da senhora era o desprezo, o desdém. Ela fitava a todos, e mostrava a pena que sentia das ilusões dos jovens. Deslizou as mãos no banco, e começou a escrever. Me esforcei tentando decifrar, e ela percebendo meu esforço, repetiu inúmeras vezes até que consegui: Miriam.
Por que Diabos, repetia o desenho de seu nome no banco do trem? Miriam, Miriam. Como que para lembrar-se que existe, para mostrar pra morte que o nome vai do dedo ao banco, mas não do corpo à lápide. Quando levantei os olhos dos dedos dela, fitei-a me encarando, com a boca semiaberta. Seu cabelo bagunçado e sujo movimentava-se pouco com a enorme ventania que entrava pela janela. Baixou os olhos, e os fixou em meu tênis.
Não consigo não pensar no que ela já viveu, amores dos bons, dos maus. Filhos? Todos devem ter ido embora. Amigos? Mortos. E a infância? era viva, bem viva dentro dela.
Levanto e sento ao lado dela.
- Dona Miriam?
Silêncio. Me senti uma tremenda idiota. Olhei pro chão, e assim fiquei, até que a boca rabiscada se abriu:
- Sim?
- A senhora se incomoda de virar uma história?
- Você quer me matar antes do tempo?
- Não, quero te perpetuar...
- Só se faz história de mortos, ninguém quer lembrar dos vivos.
- Não é bem assim. - disse já sem esperança
- Tudo bem, agora deixa eu seguir viagem em paz, e volta pro seu lugar. - ordenou vivaz. Fiquei tão desnorteada que obedeci prontamente. E assim, seguimos viagem: meus olhos nos olhos dela, os dela em meu tênis.

2 comentários:

  1. O sentimento de que todos os seres são mortais e é preciso contar estórias , abarcar essa finitude com o olhar de ternura e ao mesmo tempo revolta.Contra a vida que envelhece,contra a náusea que corrói os relacionamentos,contra o tédio a dois. Só se faz história de mortos. Seu personagem, Dona Miriam, confirma a maioria dos seus contos .Mortos casados, mortos separados,mortos à espera, mortos enterrados em meio às ervas daninhas.

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