sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A porta se abriu.


- Era um sufocante outubro. Estava frio. Nunca gostei de frio, por isso mudei-me para cá. Mas vamos a história!
As meninas estavam algumas sentadas outras deitadas no tapete bege, mas mesmo as deitadas estavam com os olhos bem abertos e bastante ansiosas, esperando para que aquela conhecida e ilustre senhora contasse um pouco que fosse sua história.
- Conta-se uma história nos bordeis de Buenos Aires: de uma prostituta e de um homem que se apaixona por ela.
E noite adentro as novatas meninas ouviram aquela senhora contar-lhes sua vida. Que um dia, prometo, contarei a vocês.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Olhares, ervas, inferno.














- Eu era pequeno, tinha 4 anos meus pais viviam um casamento feito de olhares frios, com pinceladas de palavras secas, quase sempre dentro de frases rudes. Não me lembro como isso começou, em minha memória só existe a imagem das brigas, no princípio discretas -dentro do quarto. Depois as discussões escorreram pela casa, como erva daninha em terreno abandonado. E de fato o terreno estava abandonado. - Bento relembrava enquanto acendia o cigarro.
- Não precisa me falar de coisas difíceis.
_ Diga a verdade! Você nem liga! Não quer me poupar das lembranças e sim poupar a você.
Ficaram os dois olhando a rua pela janela, e por alguns minutos só a respiração dos dois era audível.
-O inferno são os outros. -disparou ele sem nenhum propósito.
- Você me irrita com essa sua intelectualidade. Sartre e você vão a merda!
Ela acende o cigarro. Ele pega as chaves e sai pela porta.
- Tudo isso, como sempre, não levará a nada. - Falava sozinha enquanto colocava agua na chaleira

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Marina, você é o mar.

Seus olhos ficaram tristes de tanto olhar a chuva. Matutava a horas ouvindo e vendo a chuva forte que caia lá fora. Pensou em tantas coisas, imaginou que era Colombina, sentiu o peito apertar, como um desejo de gritar. Lembrou das contas pra pagar, que tinha que comprar um álbum novo e percebeu que as rosas que havia ganho do Eduardo já estavam murchas no vaso amarelo.
Marina fora alegre, mar de sorriso fácil, rosto limpo sem pintura, era bonita de tão simples, era mortal de tão bela. E agora? Estava verde esperando ser sacudida. Mas o que? O que faria aquela mulher sorrir? Trocar os móveis, pintar o quarto, comprar rosas? Já fizera tudo isso, e continuava esverdeada.
Então lembrou-se de um 3 de outubro em que o circo passou. Se viu correndo pela casa, com o vestido que sua avó lhe dera para usar aos domingos. Chegou ao portão e o viu, lindo e encantador. Essa lembrança a fez lembrar do quão fácil é ser feliz. Esboçou um sorriso com a boca pintada de vermelho e sentiu-se incomodada com o batom, foi ao banheiro e lavou bem o rosto. Fitou sua imagem no espelho e enxergava uma criança de rosto limpo.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Salve Noel Rosa

Aniversário do centenário de Noel Rosa, não poderia deixar passar sem nenhuma homenagem ao poeta da Vila e da vida.
Então decidi por uma das músicas que mais gosto: a sempre atual e verdadeira Filosofia. 


                          Filosofia
O mundo me condena, e ninguém tem pena
Falando sempre mal do meu nome
Deixando de saber se eu vou morrer de sede
Ou se vou morrer de fome
Mas a filosofia hoje me auxilia
A viver indiferente assim
Nesta prontidão sem fim
Vou fingindo que sou rico
Pra ninguém zombar de mim
Não me incomodo que você me diga
Que a sociedade é minha inimiga
Pois cantando neste mundo
Vivo escravo do meu samba, muito embora vagabundo
Quanto a você da aristocracia
Que tem dinheiro, mas não compra alegria
Há de viver eternamente sendo escrava dessa gente
Que cultiva hipocrisia

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Me mostre pecados secretos.




Tenho dançado muito ela por esses dias, sozinha ou com o Sinuhe. Me lembra a gnt, e me lembra felicidade. Procurem get a grip, também da nouvelle vague, é muito muito boa. Dancem aí também!

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A ópera.

   Esse é meu conto preferido entre todos que já li. Na verdade é um capítulo de Dom Casmurro, mas até quem nunca leu essa que pra mim a maior obra machadiana, irá entender, pois é um conto dentro do livro. Espero que gostem, faz todo o sentido.






É Tempo
.
(...)
“A vida é uma ópera”, dizia-me um velho tenor italiano que aqui viveu e morreu... E explicou-me um dia a definição, em tal maneira que me fez crer nela. Talvez valha a pena dá-la; é só um capítulo.

A Ópera

Já não tinha voz, mas teimava em dizer que a tinha. “O desuso é que me faz mal”, acrescentava. Sempre que uma companhia nova chegava da Europa, ia ao empresário e expunha-lhe toda as injustiças da terra e do céu; o empresário cometia mais uma, e ele saía a bradar contra a iniqüidade. Trazia ainda os bigodes dos seus papéis. Quando andava, apesar de velho, parecia cortejar uma princesa de Babilônia. Às vezes, cantarolava, sem abrir a boca, algum trecho ainda mais idoso que ele ou tanto; vozes assim abafadas são sempre possíveis. Vinha aqui jantar comigo algumas vezes. Uma noite, depois de muito Chianti, repetiu-me a definição do costume, e como eu lhe dissesse que a vida tanto podia ser uma ópera como uma viagem de mar ou uma batalha, abanou a cabeça e replicou:
— A vida é uma ópera e uma grande ópera. O tenor e o barítono lutam pelo soprano, em presença do baixo e dos comprimários, quando não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimários. Há coros numerosos, muitos bailados, e a orquestração é excelente...
— Mas, meu caro Marcolini...
— Quê?...
E, depois de beber um gole de licor, pousou o cálix, e expôs-me a história da criação, com palavras que vou resumir.
Deus é o poeta. A música é de Satanás, jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no conservatório do céu. Rival de Miguel, Rafael e Gabriel, não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prêmios. Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu gênio essencialmente trágico. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo, e ele expulso do conservatório. Tudo se teria passado sem mais nada, se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera, do qual abrira mão, por entender que tal gênero de recreio era impróprio da sua eternidade. Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. Com o fim de mostrar que valia mais que os outros — e acaso para reconciliar-se com o céu —, compôs a partitura, e logo que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno.
— Senhor, não desaprendi as lições recebidas, disse-lhe. Aqui tendes a partitura, escutai-a, emendai-a, fazei-a executar, e se a achardes digna das alturas, admiti-me com ela a vossos pés...
— Não, retorquiu o Senhor, não quero ouvir nada.
— Mas, senhor...
— Nada! nada!
Satanás suplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cansado e cheio de misericórdia, consentiu em que a ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias e comprimárias, coros e bailarinos.
— Ouvi agora alguns ensaios!
— Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libreto; estou pronto a dividir contigo os direitos de autor.
Foi talvez um mal esta recusa; dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado. Com efeito, há lugares em que o verso vai para a direita e a música para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a beleza da composição,­ fugindo à monotonia, e assim explicam o terceto do Éden, a ária de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam, sem razão suficiente. Certos motivos cansam à força de repeti­ção. Também há obscuridades; o maestro abusa das massas corais, encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso. As partes orquestrais são aliás tratadas com grande perícia. Tal é a opinião dos imparciais.
Os amigos do maestro querem que dificilmente se possa achar obra tão bem acabada. Um ou outro admite certas rudezas e tais ou quais lacunas, mas com o andar da ópera é provável que estas sejam preenchidas ou ex­plicadas, e aquelas desapareçam inteiramente, não se negando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todo ao pensamento sublime do poeta. Já não dizem o mesmo os amigos deste. Juram que o libreto foi sacrificado, que a partitura corrompeu o sentido da letra, e, posto seja bonita em alguns lugares, e trabalhada com arte em outros, é absolutamente diversa e até contrária ao drama. O grotesco, por exemplo, não está no texto do poe­ta; é uma excrescência para imitar as Mulheres patuscas de Windsor. Este ponto é contestado pelos satanistas com alguma aparência de razão. Dizem eles que, ao tempo em que o jovem Satanás compôs a grande ópera, nem essa farsa nem Shakespeare eram nascidos. Chegam a afirmar que o poeta inglês não teve outro gênio senão transcrever a letra da ópera, com tal arte e fidelidade, que parece ele próprio o autor da composição; mas, evidentemente, é um plagiário.­
— Esta peça, concluiu o velho tenor, durará enquanto durar o teatro, não se podendo calcular em que tempo será ele demolido por utilidade astronômica. O êxito é crescente. Poeta e músico recebem pontualmente os seus direitos autorais, que não são os mesmos, porque a regra da divisão­ é aquilo da Escritura: “Muitos são os chamados, poucos os escolhidos”. Deus recebe em ouro, Satanás em papel.
— Tem graça...
— Graça? bradou ele com fúria; mas aquietou-se logo, e replicou: — Caro Santiago, eu não tenho graça, eu tenho horror à graça. Isto que digo é a verdade pura e última. Um dia, quando todos os livros forem queimados por inúteis, há de haver alguém, pode ser que tenor, e talvez italiano, que ensine esta verdade aos homens. Tudo é música, meu amigo. No princípio era o dó, e o dó fez-se ré etc. Este cálix (e enchia-o novamente), este cálix é um breve estribilho. Não se ouve? Também não se ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na mesma ópera...












domingo, 5 de dezembro de 2010

Não há o que lamentar quando chega o fim do dia.

   - Ponha aquele vestido florido.- pediu ele, com a voz branda e os olhos brilhantes.
   - Faz tanto tempo que não o uso! Nem sei se ainda cabe.
   - É, faz tempo mesmo. Você fica tão clara com ele, tão cheia de vida.
   Clara foi, sem entender muito bem o pedido do marido. Era o ultimo grito de sanidade dele, era a despedida da vida real. Esse foi o ultimo diálogo verdadeiro e racional entre dois. Ela volta, e ele a olha devotamente, como se ela fosse uma santa em meio a agonia dos ardentes de fé.
   - Você está linda.
   - Mas por que queria que eu pusesse ele?
   - Queria ver você com ele, só isso.
   Há muito tempo ele fazia um enorme esforço pra não transparecer que estava podre e corroído por dentro. Clara era o único elo entre Fábio e a realidade. E aos poucos o elo ia desmantelando-se, e a cada vez era mais difícil manter-se firme. Os dois foram para a cama, e ele esperou que ela dormisse para por fim a tudo que pudesse, na manhã seguinte, lembrar Clara que um dia Fábio existiu.
   Levantou com cuidado, foi até a sala e começou pelas fotos: queimou todas e em sua cabeça repetia, coisas antigas queimam bem! Coisas antigas queimam bem! Quando não restou uma unica foto, foi ao armário e pegou um saco preto. Seguiu para o banheiro, foi colocando tudo dentro do saco : o shampoo anti caspa, o barbeador amarelo, o pós barba... Enfim foi jogando naquele saco tudo que pudesse ser um vetigio de que ele existira um dia.
   Foi indo por todos os comodos eliminando tudo, e não tinha no rosto nenhuma expressão de tristeza, nenhuma nota de saudade e em seu suor não havia cheiro de arrependimento.
   Já começava a amanhecer. Pegou a chave da casa, o saco preto e saiu.
   Clara acordou, foi ao banheiro lavou o rosto e imaginando que Fábio estava na sala, seguiu pra lá. Não o viu, achou estranho. Os porta retratos da sala não estavam mais lá.No banheiro nem a lamina de barbear nem nada. Não sentia nem medo, nem dor nem nada! Só queria alguma coisa que pudesse sentir. Sentiu loucura. Era isso, pensou, aquilo tudo era fruto de sua imaginação, na verdade estava era louca! "Isso, era depressão, hoje a tarde vou ao analista. Não há nada demais, tantas amigas já foram, ele passará alguns remédios e eu pararei de delirar." Colocou o vestido florido, e pediu um táxi.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Janela da casa azul.

 Depois de mais um dia de medíocre trabalho, ele volta pra casa. Só que hoje é diferente; entra no ônibus barulhento, sempre tem vontade de gritar pra que os outros passageiros calem a boca, mas nessa noite era como se estivesse somente ele e a solidão no ônibus. Sempre a velha solidão, essa velhinha de cabelos brancos e óculos enorme; pela manhã sem perceber, antes de sair de casa havia feito um pacto austero com ela.
   Sentia-se inerte, e especialmente hoje havia percebido que estava assim há muito tempo. Percebeu que os anos passaram, sua mulher estava velha, nem reparava mais nela. José não tinha culpa, a culpada era a vida, ela sim o endureceu, o deixou bruto e tosco, e o fazia sempre escorregar e recuar pelo caminho.
   José desce do ônibus e continua seu caminho a pé. Notou que chovera, o asfalto ainda estava molhado. No céu não havia uma unica estrela e o vento, que soprava manso, tocava sua pele rústica, seu cabelo sujo e tentava entrar pelo seu nariz quase fechado pelo pó da fábrica. A brisa tentava por vida dentro do pobre diabo, mas nem isso era possível. Chegou a sua casa, parou para observa-lá da calçada, era simples, lembrou que tinha economizado por muitos meses pra pagar pintura azul da casa.
   Entrou e encontrou sua mulher fazendo bordado enquanto assistia televisão. Ele reparou nos calos, nas rugas, nas cicatrizes, e notou o quanto não conhecia sua própria mulher. Não sabia de onde vinham aquelas marcas.
   - Que ta fazendo ai parado homem?! Vai tomar um banho, que eu já ponho tua janta.
   Ele, envergonhado por ter sido apanhado observando-a , obedeceu às ordens sem pensar muito, na verdade nem estava com fome. Tudo que ele queria era entender o havia acontecido com ele, e saber quem era aquela mulher que se dispunha a por sua janta.
  Entrou no chuveiro, e tomou uma decisão. Ao sair do banho lá estava a mulher encostada na pia olhando fixamente o piso. José respirou fundo e perguntou:
   - Rosa, você me ama?
   - Mas que pergunta meu deus! Pra que isso a essas horas? - ela rebateu envergonhada com a pergunta.
   Ele, então também sentiu-se envergonhado.
   - Não sei, é melhor mesmo parar de pensar nessas besteiras...
   - Amo.
   - Que?
   - Você não me perguntou se eu te amava?
   - É.
   - Pois então, respondi que amo. - Disse, olhando de novo para o piso.
   - Rosa, você ia achar besta se eu pedisse pra dançar com você?
   A mulher, sem responder foi até o aparelho de som e colocou um disco antigo. Começou uma balada que os dois gostavam muito: " Eu não me acostumo sem seus beijos. E não sei viver sem seus abraços. Aprendi que pouco tempo é muito se estou longe dos seus braços [...]"
   Toda a vizinhança notou a música que vinha da casa de seu José. Naquela noite todos perceberam  a felicidade que transbordava, pela janela carcomida pelo tempo, do quarto da casa azul.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Volta elefante, volta vacilante.

   Esse poema, marcou muitas fases da minha vida, e já atribui a ele muitas interpretações. Diria que é um poema que se encaixa onde eu quiser, já o li feliz, triste, com raiva e com luz. Enfim, agora o coloco aqui, pra marcar uma nova fase da minha vida, hoje pela manhã eu li ele com a alma leve e feliz, de peito e sorriso aberto. Adoro elefantes, é uma coisa desde criança, acho que começou com o rei Babar, e depois agreguei outros motivos pra gostar tanto deles.






Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos móveis
talvez lhe dê apoio.

E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
é a parte mais feliz
de sua arquitetura.
Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.

Eis meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê nos bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa
as formas naturais.

Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo sozinho.
É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há na cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.

Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos,
esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.

E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
e todo seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.
Amanhã recomeço.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Boas novas.

   Agora minha vida corrida acabou, pelo menos por enquanto! Enfim, estou com mil idéias na cabeça para criar novas histórias. Além disso preciso terminar os três livros que comecei a ler em setembro, e por causa do cursinho fui lendo muito devagar e deixando-os de lado, e também deixei de lado meu sono, e até minha saúde mental ( ta, exagerei um pouquinho!). Enfim, agora esse blog vai estar mais vivo do que nunca, e a dona dele também! Um beijo, e esperem boas novas, novas boas!
   "Das águas de março, é o fim da canseira."

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

   A FUVEST ta chegando, e eu sinto um misto de ansiosidade e raiva (não sei explicar o porque). Alterno entre esses dois estados de ser, e agora o meus olhos e minha alma querem ler Augusto dos Anjos. É escuro, mas de certa forma, acredito nos seus versos (em partes). Então, resolvi contagiar todos que passaram por aqui, sei que são poucos, se eu conseguir passar um pouco do mal augustense pra alguem já me sinto aliviada, rs. E também, porque dei um pequeno tempo nos contos, estou sem tempo pra tudo, vocês nem imaginam! Enfim :
                O Martírio do artista

Arte ingrata! E conquanto, em desalento,
A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,
Busca exteriorizar o pensamento
Que em suas fronetais células guarda!

Tarda-lhe a Idéia!  A inspiração lhe tarda!
E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,
Como o soldado que rasgou a farda
No desespero do último momento!

Tenta chorar e os olhos sente enxutos!...
É como o paralítico que, à míngua
Da própria voz e na que ardente o lavra

Febre de em vão falar, com os dedos brutos
Para falar, puxa e repuxa a língua,
E não lhe vem  à boca uma palavra!

domingo, 21 de novembro de 2010

Ah, Amaranta.

"Amaranta entrou na cozinha e pôs as mãos nas brasas do fogão, até doer tanto que não sentiu mais a dor, e sim o fedor de sua própria carne chamuscada. Foi uma dose cavalar para o remorso. Durante vários dias andou pela casa com a mão metida numa caneca cheia de ovo, e quando sararam as queimaduras era como se as claras de ovo tivessem cicatrizado também as úlceras do coração. A única marca externa que lhe deixou a tragédia foi a atadura de gaze negra qye pôs na mão queimada, e que haveria de usar até a morte.
          
                                                                 Gabriel García Márquez.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Like a rolling stones

   Ouço gritos, vozes confusas e gritos, e não sei de onde eles vem. Agora ouço nitidamente, é uma voz aguda, e parece que vem de mim, como se eu tivesse escutando algo no meu interior. Mas essa voz não é minha voz.
   Como pode, eu aqui, dentro deste apartamento escuro ouvir esse som angustiado? De onde vem essa dor?
   É a tortura e a privação. São os documentos falsos e a pólvora em mãos boas, mãos que sonham e que lutam. Mas que bobagem isso! Que ideologia é essa? Ele não tinha que fazer isso, deveria calar-se, pois, no fim de tudo isso, voltaríamos a rir, beber, e ler Rimbaud.
   Por que você escolheu ir na linha de frente, a antiga linha da esperança e futura linha da morte. Me deixa em paz, o que eu tenho com isso? Quero dormir, mas a sua imagem morta não sai de minha mente: você caído em meio às pessoas, com o rosto desfigurado, e também com uma mancha de sangue no peito, é um tiro.
  Fecho os olhos, num esforço inútil de me ver livre dessas vozes e da sua imagem, mas você vem de novo. Não adianta, não quero e não vou te acompanhar nessa loucura. Você está na zona do crepúsculo, sua morte é certa, mas não quero pensar nela, não quero isso. Tentei tantas vezes trazer você de volta pra casa. Mas percebi que a sua luta é muito maior que o amor que tínhamos.
   Ouço um disparo. E um grito rapidamente abafado, tenho uma sensação de terror, escuto agora murmúrios e um riso demoníaco. Abro os olhos. Foi um sonho? Não, você está morto, eu sei. O telefone toca.

sábado, 6 de novembro de 2010

" Eu quero é que esse canto torto, feito faca, corte a carne de vocês!"
                                                   
                                                                                               Belchior.
  

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Grande sacudida na Terra que está caindo.

   Fiz esse conto na varanda aqui de casa, fazia frio, subi com um café bem quente e quase sem açúcar. Fui lá pra varanda, pra ficar longe dos gritos da Elisa (apesar de adorá-la, ela tem uma garganta potente! rs).
   Escrevi pensando na coisa pequena que existe em muitos de nós, mas que não exterioramos e muitas vezes nem percebemos sofrer desse mal, ou até percebemos, mas a vida passa tão rápida e as vezes fria, que não importa esse estado de ser. Bem, que acho que vocês irão se identificar. Apesar de achar uma sensação real e de domínio público, não é um autoconto (nem sei se essa palavra existe). Espero que gostem.





   Sinto uma angústia que causa calafrios. É outono, as folhas estão caindo, e minha vida derrama-se aos poucos, nem sei mais quanto resta. Acabei de chegar do trabalho, e não tenho planos para essa noite. Há algum tempo atrás, tomaria um bom banho e leria um livro. Mas, agora não tenho a menor paciência de percorrer uma história e ter de ficar dias e até meses acompanhando o desenrolar de uma trama. Não tenho mais saco para as pessoas. E até meus filmes de Godard, Glauber e Sganzerla me irritam, não porque descobri serem ruins, mas sim porque não agüento esperar quase duas horas até o final. Não suporto mais o processo da vida, o amadurecimento dos frutos ou o crescimento dos filhos que não tive.
   Não tenho namorados, para poder afirmar que o amor murchou, e que não agüento mais ver seu rosto. Para então, poder dizer que meu problema é mal de amor. Será que é bom sofrer de amor? Já sei! Vou por um filme incrível, e esperar pacientemente o final. Escolho Terra em transe, fora meu filme preferido quando jovem, e há muito não o vejo. Ele começa com uma música, que, de certa forma, é contagiante. Sinto vontade de dançar. Pauso o filme, vou ao quarto e ponho uma saia antiga, também de quando eu era menina. Volto à sala, aperto o play e danço.A música acaba e eu sento ofegante no sofá. Começa a discussão; ao invés da deliciosa música, toca uma marcha militar acompanhando de tambores, que aumentam e diminuem de intensidade. Lembrei do final do filme. Merda! Já não quero mais acompanhar a história. Não adianta, nada adianta! Já tentei livros  filmes novos, nenhum me anima. Volto ao começo do longa, pois a única coisa que me faz feliz agora é dançar a música baiano-africana do começo de Terra em transe.

sábado, 30 de outubro de 2010

Você não quer ser livre?

                                                                                                  Ponha seu cabelo pra cima, diga boa noite.
                                                                                                                                                         


   Havia chegado de Barcelona há pouco. Achei tudo entediante, mais que aqui, e qualquer lugar que já fui. Talvez a cidade nem fosse tão ruim, talvez as prostitutas nem fossem tão desdentadas, talvez eu é que era uma merda, que via merda em tudo.
   Queria companhia para um café, queira falar mal da viagem para meus amigos, mas ninguém aceitou o convite. Realmente eu devia ser insuportável. Mas tudo bem, eles também são uns toscos, que acham que a felicidade está em qualquer coisa, e bebem feito idiotas, para fingirem estar bem. Mas depois, no outro dia, voltam a sua vidinha medíocre acrescida de dores de cabeça.
   Vou a cafeteria sózinho. Pra variar estava chovendo, uma garoa chatissima que me deixava ainda mais nublado. Que inferno! Entrei, a cafeteria era até agradável. Pedi um café:
   - Um expresso, por favor.
   Demorou um pouco, mas veio. Quando coloquei-o perto do nariz pra sentir seu cheiro confortável, entrou pela porta principal, apressadamente e muito desengonçada, uma mulher. Ela tenta fechar o guarda-chuva ( que está com os arames ou tortos ou quebrados), passa a mão na testa, conferindo o suor. Tinha o cabelo preso bem no alto da cabeça, a boca engraçada por um batom bem vermelho, e ainda que vermelho, não era vulgar, dava-lhe um ar de vida, de menina que roubou o batom da mãe pra ver ser os meninos davam-lhe atenção, e usava uma blusa que havia estampado um elefante. Por um certo tempo achei-a interessante, mas logo o cinza voltou a me cobrir, ela deveria ser como minhas amigas: linda e burra.
   A cafeteria estava cheia, e único lugar disponível era o ao meu lado. Ela sentou-se, me olhou, eu percebi e retribuí o olhar, mas ela fingiu nem ter olhado. Pegou o guardanapo, e tirou uma caneta da bolsa roxa, começou a escrever escondendo com as mãos, feito criança de primário. De repente, ela tirou as mãos e, com os dedos, empurrou o bilhete em minha direção. Olhei pra ela, e ela não me olhava. Antes de ler, senti a textura do papel ( babaquice, era só um guardanapo; o que teria de especial?). Devo ter ter ficado cerca de um minuto com o papelzinho entre os dedos. Focalizei na letra, era horrivel. Li:
   " Sei exatamente o que você sente, sinto o mesmo. Sinto-me acorrentada, como se cada pedaço dessa cidade fosse uma algema, mas sei que não adianta sair aqui, pois as correntes me perseguirão em qualquer lugar. Na verdade não é a cidade e nem as pessoas que te acorrentam e sim você. "
                                                                                              Ao meu Capricorniano.
   Por que capricorniano? Esta nem era meu signo. E como ela sabia exatamente o que sentia? Essas perguntas só vieram depois que ela foi embora, pois depois de ler aquele bilhete me senti paralisado e enfeitiçado. Olhei-a, resolvi falar:
   - O que você quer? O que você sabe sobre minha vida?
   - Muito mais do que você pensa. Mas na verdade o que sei não interessa, o que importa é o que você não enxerga.
   Saiu sem nada dizer. Quem era aquela mulher? Dois dias depois desse encontro, recebo uma encomenda: um elefante, de remetente inexistente. Foi ela, tenho certeza. Olho pra ele todos os dias, é até bonito, e sempre que o olho tenho vontade de sair pra beber e fingir que sou feliz, afinal não é assim que todos fazem? Não quero mais fugir a regra.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Estrela.

   Ela acordou cedo, pois tinha um encontro. Mas por que um encontro? Estava velha, passava uma tristeza gélida pelo olhar. Seus olhos carregam o peso de seu mundo (seu passado). E agora, neste estado de linhas confusas espalhadas pela face tinha um encontro.
   Sentia-se fria e com aquela sensação infantil de borboletas na barriga... Ah e a barriga? Estava flácida, caída. Há quanto tempo não a olhava? Há muito não encarava o espelho, não via no vidro dos prédios da cidade seu brilho, pois ele havia se perdido nos muitos lençóis de motel que deitou.
   Quantos homens haviam passado por sua vida... e nenhum ficou. Mas isso já não importa, o que importa é que ela tinha um encontro. Levantou-se, colocou os chinelos com detalhes de flor; nunca ganhou flores - pensou. Foi ao banheiro, e olhou-se no espelho: a sua boca estava menor, meio murcha - concluiu. Olhou seus dentes, estavam amarelos. Veio em sua memória a sua imagem antiga: fora bonita e fresca. Lembrou-se dos homens e dos casamentos destruídos. Começou a pensar nas mulheres traídas. Onde estariam? Provavelmente esquentando seus enrugados pés em outros igualmente ou ainda mais enrugados, e a tarde receberiam os netos em casa para comer um bolo de chocolate. Nem chocolate ela podia comer, tinha diabetes - lembrou. A única coisa que lhe restara foram seus pés frios e enrugados.
   Jogou água no rosto, tentando afastar as lembraças. Deveria animar-se, pois tinha um encontro. Tirou o pijama e se deparou com seios murchos, e lembrou-se dos seios enormes que tivera um dia, aqueles seios que faziam qualquer homem largar tudo para tocá-los e beijá-los, agora estavam feito uvas passas velhas e pesadas.
   Escolheu a roupa, uma roupa de respeito adequada a uma senhora de respeito. Mas quem ela queria enganar? Ou será que ela foi enganada o tempo todo pelo moralismo? Enfim estava pronta! Até a maquilagem era de respeito. Saiu do apartamento, entrou no elevador, a imagem de seu corpo nú não lhe saía da mente. No saguão estava parado o porteiro, ele tinha um olhar perdido, como que cansado da farsa de ser simpático, cansado de tantos 'bom dia!"
   - Vai sair Dona? - perguntou ele numa tentativa inútil de retomar seu papel.
   - Vou sim! Irei à um encontro.
   - Bom passeio. Vai demorar?
   - Depende! Tchau Osmar.
   O táxi que ela pediu estava a sua espera em frente ao prédio. O motorista não lhe ra estranho. Mas foram tantos não conseguiria lembrar exatamente quem ele era, e, nem ele a reconheceria, afinal estava velha e vestida respeitosamente.
   - Para onde senhora? - o taxista perguntou.
   - Para um encontro.
   Ela queria que todos soubessem de seu encontro.
   - Sim, mas onde será seu encontro? - perguntou o motorista irônico.
   - Ah sim, perdoe-me. Será na praça á tres quarteirões.
   Chegaram, a praça era modesta. Tinha umas árvores frutíferas que atraiam passarinhos que alegravam a praça. Procurou a única macieira da praça, pois era lá o encontro. Achou, e estendeu uma toalha azul na grama sob a macieira. Não esperou muito, logo viu ele vindo em sua direção. Abriu um sorriso de dentes amarelos, mas logo o fechou, pois tinha vergonha.
   Já ele, sem nenhuma vergonha, veio de sorriso aberto. Vestia um casaco xadrez, e usava uma boina preta. Era velho como ela, mas tinha uma luz de muitas cores.
   - Não sabe o quanto esperei por esse encontro! - disse ele com os olhos brilhando.
   - Não posso dizer o mesmo, tenho receios, te fiz tão mal. Por que quis me ver mesmo depois de tudo aquilo? - ela falava sem olhar pra ele.
   - Olha, não quero lembrar do passado; nós estamos velhos e sós aqui, vamos viver e somente viver.
   Ficaram ali até o final da tarde, e estavam decididos e desejosos de viver aquele amor. Ele a fazia abrir os mais belos sorrisos, ainda que amarelos, eram alegres. Ela nem notava que seus seios murchos estavam numa boca também murcha. Nada importava.
   Se encontravam sempre ás escondidas. De quem se escondiam? Nem família tinham... Se escondiam do mundo, do céu, dos carros, dos relógios e principalmente dos olhos da morte. Encontravam-se sempre no mesmo motel. Ela voltou aos lençóis que um dia roubaram seu brilho, mas agora esses mesmos lençóis devolviam seu brilho. Aconteceram muitos encontros ali naquele quarto com um quadro que mostrava uma paisagem muito bonita. Passavam ali horas preciosas, ali, naquele quarto, o tempo nem existia.
   Segunda, 03 de outubro de 2009. Ela levantou cado, iria o encontrar. Arrumou-se, perfumou-se e segiu ao mesmo lugar. Ele já estava lá esperando ela. Sempre ficavam horas deitados se observando sem nada dizer, sem falar do passado e sem sonhar com o futuro.
   Tudo no escuro silêncio estava, quando este silencio foi rompido por um barulho estranho, eles não deram importancia. Ouvia-se grito, havia uma correria pelas escados do prédio velho. Acontecia algo estranho lá fora, mas dentro do quarto eles agiam como se nada tivessem ouvido ou notado.
   Viram o teto vindo em encontro da cama... Do barulho fez-se silêncio. Do silêncio fez-se a morte.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Conto do amor menor.

     A trsiteza tomou conta do ambiente mal decorado. Uma cerâmica chinesa contrastava com a pobreza de detalhes da sala. Helena era como as uvas doces, que de tão doces chegam a ser enjoadas, mas se adentrarmos com a língua a polpa chegaremos até as sementes, onde pode-se sentir um amargo delicioso.
     - Bela herança! Um vaso chinês. - vaso arrogante - pensou Helena.
   Pegou a chave do carro, se dirigiu até a porta. Parou, pensou e voltou. Resolveu andar, afinal Amanda não morava tão longe, e a noite ostentava estrelas elegantemente bebadas. Amanda morava a três quarteirões dali, não seria nenhum esforço, ainda mais quando se anda em Paris.  Parou em frente a uma casa azul. Nada mais alegre que uma casa azul, pensara Amanda enquanto decidia a cor de sua nova casa.
    Helena bateu na porta . Bastaram dois secos toques e Amanda abriu. Entrou.
    - E ele?
    - Morreu.- Amanda respondeu com os olhos vagos.
    - Morreu? Já sei você mandou uma caixa decorada com uma bomba dentro. E tudo foi pelos ares, ele, as lembranças. E tudo num unico golpe.
    - Não. Morreu de velhice. Velhice de amor, numa morte bem lenta.
    - Você ainda vai se casar com ele? - Perguntou Amanda pra mudar de assunto.
     - Não.
     - Você quis dizer não agora? - Amanda perguntou surpresa.
     - Não agora e não nunca. Tudo que eu era sofreu mutação, sofreu corrosão. Minha alma virou poeira, feito esta que cobre os carros da cidade, cinza e fina. Todos os sonhos que um dia foram desse azul claro agora atacam minha rinite. - respondeu a mulher com os olhos fixos no retrato na estante de Amanda.
      No retrato estava Felipe, ali espiando a conversa das duas amigas de certeza vaga.
      - Você ainda guarda esse retrato? - Helena quis saber.
      - É só o que sobrou dele, o sorriso congelado no espaço feliz dessa foto.
      A sala, ao contrario da de Helena, era bem harmoniosa. Tudo pensado e planejado minunciosamente.
       - Vou buscar o vinho na cozinha. - Anunciou Amanda.
     Foram muitas taças, e durante boa parte daquela noite as duas fiacram ali deitadas no carpete cor de sangue bebendo sangue. Foram muitos palvrões: Merde! Voila l' hiver. Era um natal frio.
      - Bateram na porta. - disse Helena.
      - Mas como alguem incomoda a essas horas? - Perguntou-se ja levantando com certa dificuldade.
      Abriu a porta, e seus olhos de ressaca de mar fixaram-se na figura ali para em frente a porta.
      - Você não tem o direito de me privar. Foi u quem te fez. Você deve toda essa luz a mim, pq a minha alma eu dediquei toda à você. E agora, o que sobrou?
       Amanda nada respondeu, sua cabeça rodopiava como os vestidos de renda que usara quando criança. Sentia-se numa ciranda sem fim. Ainda sem nada falar, subiu ao quarto.
       Felipe continuou ali parado, confuso com a reação de Amanda. Em seu pescoço estava o cachicol que os dois, ele e Amanda, uma dia compartilharam. Helena olhava-o do sofá, mas sua mente estava longe, como que em um nirvana, pensava em poemas de Malarmé, e como se recobrasse os sentidos disse:
       - Entra Felipe. Não! Melhor, vá embora. Você sabe que esta fazendo ela sofrer, matando ela aos poucos com isso .
       - Ela não tem alma, isso dentro dela é meu. - disse Felipe, sem nenhuma convicção.
       O relógio, o unico racional naquela cena marcava onze horas da noite. Todo o cenário estava montado, afinal eram onze horas - pensava Amanda no quarto.
       Onze horas e Amanda desse as escadas. Pólvora, revolver na mão. Ela atira. Um unico tirou, Felipe cai morto, Helena cai sentada no sofá. Olhando para suas mãos, mas parecendo não vê-las, Amanda sussurra:
        - Ele gostava de Florbela Espanca. Só fiz a vontade dele, só fiz o que ele não teria coragem de fazer. Agora não há nenhuma alma para nos fazer brigar.