domingo, 5 de dezembro de 2010

Não há o que lamentar quando chega o fim do dia.

   - Ponha aquele vestido florido.- pediu ele, com a voz branda e os olhos brilhantes.
   - Faz tanto tempo que não o uso! Nem sei se ainda cabe.
   - É, faz tempo mesmo. Você fica tão clara com ele, tão cheia de vida.
   Clara foi, sem entender muito bem o pedido do marido. Era o ultimo grito de sanidade dele, era a despedida da vida real. Esse foi o ultimo diálogo verdadeiro e racional entre dois. Ela volta, e ele a olha devotamente, como se ela fosse uma santa em meio a agonia dos ardentes de fé.
   - Você está linda.
   - Mas por que queria que eu pusesse ele?
   - Queria ver você com ele, só isso.
   Há muito tempo ele fazia um enorme esforço pra não transparecer que estava podre e corroído por dentro. Clara era o único elo entre Fábio e a realidade. E aos poucos o elo ia desmantelando-se, e a cada vez era mais difícil manter-se firme. Os dois foram para a cama, e ele esperou que ela dormisse para por fim a tudo que pudesse, na manhã seguinte, lembrar Clara que um dia Fábio existiu.
   Levantou com cuidado, foi até a sala e começou pelas fotos: queimou todas e em sua cabeça repetia, coisas antigas queimam bem! Coisas antigas queimam bem! Quando não restou uma unica foto, foi ao armário e pegou um saco preto. Seguiu para o banheiro, foi colocando tudo dentro do saco : o shampoo anti caspa, o barbeador amarelo, o pós barba... Enfim foi jogando naquele saco tudo que pudesse ser um vetigio de que ele existira um dia.
   Foi indo por todos os comodos eliminando tudo, e não tinha no rosto nenhuma expressão de tristeza, nenhuma nota de saudade e em seu suor não havia cheiro de arrependimento.
   Já começava a amanhecer. Pegou a chave da casa, o saco preto e saiu.
   Clara acordou, foi ao banheiro lavou o rosto e imaginando que Fábio estava na sala, seguiu pra lá. Não o viu, achou estranho. Os porta retratos da sala não estavam mais lá.No banheiro nem a lamina de barbear nem nada. Não sentia nem medo, nem dor nem nada! Só queria alguma coisa que pudesse sentir. Sentiu loucura. Era isso, pensou, aquilo tudo era fruto de sua imaginação, na verdade estava era louca! "Isso, era depressão, hoje a tarde vou ao analista. Não há nada demais, tantas amigas já foram, ele passará alguns remédios e eu pararei de delirar." Colocou o vestido florido, e pediu um táxi.

4 comentários:

  1. As partes de falas e diálogos estão mal colocadas, enfim.

    Rita T.

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  2. Eu acho tudo bem colocado. E vejo também como um filme. Talvez misturando com a casa da janela azul, talvez não. Pra se pensar. Já pensou em ser roteirista de cinema, Danii?O despertar é terrível, e principalmente o lugar vazio, onde antes existiam retratos. É um momento de solidão terrível, só quem passou sente o impacto.Pode ser só esse conto, mais um filme. Dessa vez com uma solidão que não acha um bálsamo como a Marina. A solidão que já é ou que leva à loucura. Parabéns, Danii. Achei que até a desarrumação na ação e nos diálogos ajudou na criação do clima. Beijos. RobertoMenezes.

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  3. E o "sem lenço,sem documento, nada no bolso ou nas mãos" é o final do livro auto-biográfico "As Palavras"de Sartre, que Caetano genialmente se apropriou no "Alegria Alegria". Aí até isso sintonuiza com esse blog maravilhoso. Amei o seu blog, Danii.

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