quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Os olhos das mulheres da família.

     Atravessando a pé a cidade depois das onze, vejo em cada esquina o olhar das mulheres da família. Cada uma me encara com as mãos cruzadas sobre a barriga, e elas têm uns olhos... Olhos de cores que não sei, são olhos de reprovação pela minha nudez e desbocamento, são olhos morais, sofridos, trinta, sessenta, vinte anos e olhos blues, doloridos, são todos bolas de amor sem paralelos.
     São olhos que, de tão querentes destes escassos paralelos, fazem brotar ódio. Mas vejo: são olhos pedintes, mendigos, complacentes, não- correspondidos até essa noite. São olhos que fitam suas marcas de corpo, de surra, de desprezo. São os olhos que imaginam as marcas da alma, talvez sem consciência de que o fazem. São olhos que choram e são enxugados hora pelo chuveiro, hora pelo pano de prato.
     Caminho eu pela cidade, depois das onze, com olhos de medo, assim como elas, as mulheres da família. Herança maldita e deliciosa esse olhar das mulheres da família. Mas por que me olham com desprezo? No espelho vejo em meus olhos, o sofrido olhar delas, de todas elas. As invoco! Acabemos com isso! Vejam meus olhos. Vejam seus olhos. No mesmo espelho vejo surgir todas, as de rosto conhecido e as irreconhecíveis, a não ser pelos olhos. Os olhos das mulheres da família.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Clara e o conhaque

     Aqui estou eu na Cidade do México, com um dinheiro que preciso trocar pela moeda local... Não sei quanto vai dar, ou para o quê vai dar, a minha certeza é a de que é pouco. Vou precisar arranjar grana, não sei como, mas depois dos últimos acontecimentos, dos quais agora não quero falar, aprendi, não tão facilmente quanto possa parecer, a viver um dia de cada vez, a não pensar demais no amanhã. Falando nesses passos pequenos e um bocado despreocupados que penso em ter neste novo velho lugar, que minha memória teimosa diz conhecer de algum outro tempo, lembrei do mito de Porthos, aquele que ao pensar, pela primeira vez, como podia o cérebro comandar um pé atrás do outro, para que pudéssemos andar, paralisa e morre soterrado numa adega. Gosto de mitos.
     Enfim: só por hoje tenho uma garrafa de conhaque barato, do qual muito bebi com ela pra afastar o frio das crises de abstinência; um quarto todo forrado de carpete vermelho, que faria ser desnecessário o conhaque para espantar o frio, mas ele por sua vez se faz amigo presente porque me anestesia, assim como a minha companheira a droga, assim como a mim ela com sua presença. Há também um telefone, destes que ela queria comprar se um dia pudéssemos comprar algo que não cigarros, drogas e bebida. Nele posso pedir algo, não sei, talvez uma sopa. Teria sopa no México? Não sei, nem saberei, não sinto fome, apesar da dor no estômago.
     A ultima vez que a vi sóbria, meu amigo, foi o dia mais triste, suponho, da vida dela. Seu ex-marido veio lhe mostrar uma foto de seu filho e lhe contar de sua preocupação. Ela e eu, que observava de longe, no outro lado do bar, sabíamos qual falsa era aquela conversa. O velho diplomata, com o qual ela perdeu parte de sua juventude estranha, a fazia cavalgar nele e em cavalos de raça. A fazia seguir seus conselhos de “não beba tanto, querida. Não fica bem pra uma mulher linda como você”. A fazia ter postura ereta e assistir aulas de etiqueta com uma senhora estranha... Tudo isso ela me contava depois do nosso sexo, na nossa Bagdá, nas nossas não regras, nos nossos silêncios, porres e barulhos.
     O passado dela não se apagava, a não ser quando parte dela ia embora, quando a razão não se fazia presente, não era ouvida. Quando a racionalidade evaporava através de sua pele clara, manchada no peito de sardas, quando saia a razão pela sua boa surda pintada. É triste que sua ultima imagem- aparição tenha sido pautada pela sobriedade e pela, tão detestada por ela, razão.
     Depois do bar, ela ainda triste sem uso de nada que a fizesse escapar do passado marido e do presente filho, pediu pra que eu tocasse sua musica preferida. Toque, ela chorou, choramos; e com o dorso da mão, da mesma mão, enxugou o seu e o meu rosto. Disse algo muito baixo e levantou-se arrumando por debaixo do vestido a meia- fina preta queimada de cigarro, e agora alto: “Preciso ir, tenho que fazer uma entrega, ando sem grana pra nada e não quero mais que pague o que uso. Eu te amo, meu Xenofonte, não duvide, nem esqueça.” Foram esses os últimos sons e ordens calmas que saíram de sua boca, que nesse dia estava branca, como há tempos não ficava.
     Dias, semanas, meses. Não minto, não faço drama, foram sim meses. Não sai do quarto, com medo de ao ir comprar cigarros me desencontrar dela, perder sua volta. Aos poucos sentia que o pacto que fizemos uma noite, sentados na rua, ia se desfazendo perdendo sentido, não porque esqueci e duvidei do amor que fez de nós raízes entrelaçadas e unidas desgraçadamente, mas sim porque sentia que a existência física e espiritual dela iam- se dissolvendo e escapando de meus dedos a cada vez que angustiado pela falta de tudo, dela, de mim, da bebida, da droga, da presença de algo, dos gritos, de suas mãos machucadas de socar a parede... de tudo jogava uma água gelada em meu corpo quente desse verão fétido que fez nos meses que Clara sumiu.
     Clara sumiu. Eu desisti e duvido de sua existência agora. Não, não estou caindo em contradição, o passado é meu amigo fiel, que não tenta aliviar minhas dores. Vivo em função do que existiu e não existe. O presente é este aqui, em que fumo e escrevo esta carta à você, pra pedir, não em nome do presente, mas do passado- futuro, dessa tese macabra, pra que se você a ver em algum lugar, boca vermelha, branca ou verde, pra que se você ver seus cabelos negros que sempre entravam intrusos como ela em nossos beijos. Avise que a amo, e que se ela vier, não sairei de casa nem um só dia, até que por essa porta, na entrada dessa ponte, no diabo a quatro, ela entre com uma garrafa de conhaque barato segura por seus dedos caros.
  

domingo, 18 de agosto de 2013

Voy.

     Esse líquido é azul e irá se tornar amarelo.
     Freud, Victor Hugo, todos vocês, não ousem teorizar meu sentimento, minha melancolia. Tire as mãos,   tire os olhos de mim!
     Estou na aula de química: O líquido azul, o líquido amarelo, o professor gordo com cheiro de merda na boca. A menina de cabelo loiro longo, o menino de óculos, que tem cheiro ruim de boca por nunca abri-la nessa selva, ao contrário da do professor. Os seios grandes, as pernas grossas, a bunda boa.
     Eu. Nariz grande, fala nordestina, poucos peitos, muitos pelos. Roupa pobre, cabelo bagunçado e muitas vezes sujo. Unhas curtas, nunca pintadas.
     1984, Pagu, Beauvoir. Vocês não me pegam mais. Não mais. Pequenos e meus, peluda e minha, suja fedida e completamente minha. Eu transo, eu como, eu meto. Eu amo, desamo, quero e não mais. E um pouco menos. Na curva, na loucura, na nudez, no nervosismo, sinto que posso voltar. Sair, no entanto não totalmente, do alerta que criei, contei e paguei. Da defesa que veio de cima pra baixo, do duro pro buraco quente (incerto, feio e medroso).
     Dos grandes lábios, do sangue de menstruação que você chupa, do vômito que você limpa, do cocô que faz na minha frente jorra gozo de vida, de realidade, de companheiros, lágrimas e banhos não tomados. Não falo de vulgaridade. Aliás falo, e o que vocês querem com isso?
     Estou, nas quatro paredes daqui. No cigarro que apago no copo cheio até as tampas de cinzas, estive feito o copo. Poucas cinzas, de repente tantas. Está, no cheiro de suor do travesseiro, nos livros que empilhamos, nas cuecas que uso, na mesa que trabalhamos muito pouco, na cama que transamos, choramos, brigamos, discutimos, rimos. Nossa cama? Não sendo vulgar em falar de gozo e cocô, sou burguesa falando em cama que dividimos?
     Companheiro, de cabo a rabo, meu companheiro, basta que nós saibamos que não. Basta que sua unha grande me sinta, que sua alma me chegue, que nos desentendamos para depois beijar, amar, afagar e consolar.
     Comecei numa coisa, terminei noutra. Nunca se sabe o sentido de Saturno, mesmo sendo filhos da melancolia. Não me falem em coesão, em razão, em sentido, pois sou azul, que poderia ser amarelo, mas é vermelho. E quem, quem poderia prever qualquer uma dessas coisas? Se até as palavras, criaturas duras e vezes opressoras no seu sentido natural, são incertas.


sábado, 6 de abril de 2013

Ouso.

"Nessa cidade tem uma rua, que eu não posso mais passar."
Toda minha liberdade quadrada, de manter minha pouca castidade, espalhando bocas, pernas que abrem e fecham a cada segunda e quarta-feira é resultado de um medo de ver uma boca perder a necessidade de "matar a sede na saliva".
Toda essa liberdade gasta com bocas de plástico ficou cansada, perdeu sentido ao ver, numa esquina, seus cabelos e olhos; numa casa ao ver sua boca rígida ao cantar.
Toda essa liberdade tornou-se redonda ao ver o quão maleável ela pode ser, ao ouvir um cético, quase biológo, mas filósofo, que disse convencido numa música secreta, pra sentarmos, e com seus lábios grossos e roxos de cigarro e frio:
- A boca sempre está suja, sempre produz saliva. Aliás sempre precisa de saliva. Ele precisa de você, tem sede de você e você a quer matar. Mate-a. Mate-a dócil e docemente
Agora seu dedo de toque de cordas arranha minha meia- fina preta, intromete-se por debaixo da blusa que fiz de presente pra você (mas que uso), esquentando com arrepio frio.
Ele pega a "faca cega" com "fé afiada", abre a lata de cerveja: "- Cuidado!" - e faz um cinzeiro que inauguro batendo a unha azul no filtro branco.
Aqui agora não preciso de nada. Fiquei velha para a minha falsa pouca castidade assim que te vi de perto e andei contigo no meio fio dessa cidade, que posso e ouso passar entrelaçada com/em você

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Vamos.

Aqui te esperando, com uma hora de antecedência observo o amor, como o observador de "O amor bate na aorta", de Drummond. Que do alto de algum lugar tece considerações acerca do bicho instruído e encantador que chamamos, inutilmente, de amor.
De pé e com vontade contida (pela lei do transporte público) de sentar, fico, a princípio impaciente com a hora que demorará pra passar, pois nem ao menos um cigarro posso acender. Dois homens de amarelo despedem-se em minha frente, olho por olhar, eis que vejo que se trata de um casal, que como eu, com vontade de me esparramar no chão de pedra fina, se contiveram na despedida: um tapa nas costas, aperto de mao londo com corpos timidamente encostados. Quando eles querem, na verdade, esparramar o amor, o beijo e a saliva sem medo de olhares estranhos.
 Uma fome enorme, acordei de ressaca e mal consegui fazer descer o pão. Por algum motivo nesta manhã pensei ter um filho na barriga. Um filho teu, coisa que você não quer. "Bobagem", pensei no instante seguinte ao forte enjoo matinal, é ressaca e ponto.
Mas não é sobre mim que escrevo. Sou aqui um obseervador do amor, entretanto, precisarei novamente me colocar nessa história. Estava falando na fome, e ao sair da estação de metrô dou de cara com um amor desgarrado, pouco verdadeiro. Um amor que corrói, enquanto por natureza é corroído e que tem por amigo inseparável a aparência que esconde a vontade de pôr inseticida na comida um do outro.
Um casal sorridente e loiro, uns 40 anos, entra no shopping, na qual fui comprar uma coxinha e um café, sorrindo, sorrindo muito. Não um para ou do outro, mas os dois (separados) para os outros.: volto descontente com o amor reprimido do casal homossexual e com o amor plástico do casal de cera.
Olho em volta, nada de você, já se passaram uns 25 minutos. Uma menina de uns 16 anos espera impaciente alguém. Dez minutos: ela chega, era sua companheira, se beijam, se abraçam e não sentido Jabaquara de mãos dadas e sorrido aberto. Sorriso de criança, Coragem de adulto.
Observando esse amor nem vejo quanto tempo decorreu. Penso nas duas meninas: sempre quis transar com uma mulher, mas nunca houve essa mulher, mas há uns dias atrás que vi olhando a Betina com olhos diferentes.
O amor, o desamor e o amor plástico se misturam em minha cabeça me causando um mister de sentimentos, um turbilhão sensorial, que me entra pelos olhos e instalam-se em algum canto do cerébro. Uma nova onda de passageiros surge do subterrâneo e você vem entre eles: guarda- chuva em mãos, mochila nas costas, sorriso com dentes de criança na boca: me beija levemente e olha interrogativo para os papeis desse conto, respondo: cheguei cedo demais e vi coisas demais.
Você sorri e encosta em meu ombro e diz: - Vamos?

terça-feira, 2 de abril de 2013

Azul - Vermelha.

Uma mochila pesadíssima, uma bolsa a tira- colo colorida, e eu, com costas doloridas pelo peso, cruzo o caminho, as paralelas de uma senhora de cabelos curtos e boca cor-de-rosa. Ela, a senhora, sorri e eu o retribuo com outro sorriso até que a porta do metrô abra e, em meio a dança de pessoas em disputa de um banco marrom, sentamos frente-a-frente.
A partir desse momento, do "sinal de fechamento das portas" é como se para ela eu não existisse mais. Existo, é claro, ou talvez... Mas não como protagonista dessa cena. A senhora, nervosa a beça, começa a fazer careta de desgosto para as informações da tela do metrô e dos anúncios fixados nas paredes do vagão. Se pergunta: "Tudo bem?" e se responde: "Oh sim, sim! Vamos indo."
Um homem de gravata e mala entra. Mal senta no banco quente recém livre e já saca papéis com planilhas, traços e números. Ela: "Hum. Um advogado... Não, não! Um gerente. Isso!" Uma mulher entra e traz consigo, junto ao peito muito pequeno, uma sacola de feira, com panos dentro. A senhora, descaradamente a encara e ela, por sua vez, nem percebe o olhar analítico da velha senhora com boca cor-de-rosa: "É uma mãe... Três filhos." - com rosto triste: "... E um marido bebado."
A essa altura você pode se perguntar: e falava alto a senhora?
Não sei. Sei que era audível pra mim, e assim deveria ser. Faz mais caretas, gesticula muito e olha à todos, menos à mim. Em nenhum momento, após o inicial sorriso na plataforma, ela tenta me analisar. Todos a olham, mas o curioso é que os olhares dela não encontram de forma alguma o de ninguém. Ela, sentindo-se invisível/ imperceptível em sua analise acerca dos outros passageiros e eu, sentindo-me igualmente invisível/ impeceptível analisando e escrevendo sobre ela, descemos. Ela na Praça da Árvore, eu na Sé.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Mão dupla/ Coração Selvagem.

"Um sorriso, e basta, fico nervoso acendo um cigarro: sim, um simples cruzar de olhares em meio à rua e os dentes dela se mostrando, entre lábios muito vermelhos bastam. A primeira vez que a vi, foi na fila do ônibus, ela passou com textos nas mãos, lendo tudo com ar atarefado e eu, logo acendi meu cigarro. Uns amigos chegam, e ela com um jeito sempre muito carinhoso, abraça à todos.
Agora, tudo isso é surreal, aqui está ela, deitada nua. Aqui eu estou, entre suas coxas brancas pintadas."

"Nos cruzamos sempre, temos amigos em comum, mas só trocamos sorrisos. O jeito, muito sem- jeito dele, me encanta toda vez que por acaso nos encontramos nas ruas dessa cidade. Os olhos de um azul não- banal, profundo pra caralho, melancólico, vivo e com pressa de viver me arrebata o peito frio. Os cabelos sempre muito bagunçados de Kurt: sempre quis tocá- los. Aqui eu estou, entre seus cabelos loiros e grandes."

Numa esquina num lugar comum, o coração selvagem encosta nas costas dela de uma maneira forte e quente: "Não vá embora, vou cantar Baby pra você ficar." Ela não fica, entretanto, seus olhos enchem de lágrimas, queimando e virando sal no rosto quente de tanto beber, ao ouvir a canção que tanto gosta.
Numa outra esquina, incrivelmente próxima, os lábios dele pedem o batom vermelho da boca dela, os corpos se comunicam como nunca, os dedos dele calejados pelo violão, passam fazendo algo como música quando ela está com roupa, e algo como um carinho nato e bruto, quando nua. A cabeça no peito selvagem dele, escuta o bater muito rápido do coração. "De fato, um coração selvagem" - ela brinca.
A história é tão inocente e quente, tão latino americana, tão Rock N Roll, tão samba calmo que cabe num abraço desajeitado e no olhar marejado de expectativas boas, sem enormes cobranças. Um sentimento que divide pra se multiplicar: "Olha, tenho duas blusas muito especiais, uma do meu pai e outra que meu avô achou na rua... As duas tem um buraco pra por o polegar, uma porque descosturou, outra queimei com cigarro."
Depois do sexo simples e que a emocionou de um jeito muito diferente, ela pede: "Ei, me dá sua blusa queimada com cigarro?" Ele com admiração sorri com seus dentes de 5 anos de cigarro, de peito selvagem: "Claro!". Os dois dormem, de pernas entrelaçadas, com cabelos suados, com dedos que cheiram aos muitos cigarros fumados no quintal de ceu aberto, ceu testemunha da dança, dos desejos, das angustias daqueles dois corações.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Alívio imediato.

Da sala de aula vejo uma festa ser preparada. A provável mãe, de lenço verde- escuro nos cabelos, creio que grisalhos, varre sorrindo o terreno. Três meninos de uns 16 anos carregam mesas e cadeiras de plástico branco. Dois meninos, primos ou irmãos, empinam pipas sob o sol, com olhos apertados buscando ver no alto- céu a pipa colorida, ou não, pois daqui, o corte do concreto da janela não me permite vê- las.
Um muro de tijolo vermelho não me deixa ver o que tem sobre a mesa, minutos antes levada, mas sinto a boca aguar em pensar na maionese e no arroz de forno. Fios cortam a paisagem. Fios que repelem e aproximam. São eles fios de telefone e de internet, encurtando distâncias através do imaginário. Mas são também fio de eletricidade que alimentam a TV, que faz o pai não ter muitos olhos pro filho. Energia que faz pais e filhos seguirem cada qual para seu isolamento.
Aprendemos nessa aula a vida que fora vivida. E para isso, deixamos, penso eu, de viver a vida. Vejo um casal, numa janela aberta naquele muro vermelho, que se beijam e se amassam sem pensar na vida teórica que se ensina e acontece dentro do prédio feio- cinza. Enquando eu aqui, de dentro dele, imagino a vida vivida sem teoria desses dois e dos muitos da festa.
Nos preparativos da festa um homem sem camisa e portando um colar grosso, o suficiente pra ser visto daqui, abre uma lata de cerveja. Não posso ouvir dessa distância o barulho do lacre rompido, nem o gelado refrescando sua língua- garganta. Mas teorizo sobre o som, a sensação e a necessidade do lacre ser rompido, causando alívio imediato.