sábado, 6 de abril de 2013

Ouso.

"Nessa cidade tem uma rua, que eu não posso mais passar."
Toda minha liberdade quadrada, de manter minha pouca castidade, espalhando bocas, pernas que abrem e fecham a cada segunda e quarta-feira é resultado de um medo de ver uma boca perder a necessidade de "matar a sede na saliva".
Toda essa liberdade gasta com bocas de plástico ficou cansada, perdeu sentido ao ver, numa esquina, seus cabelos e olhos; numa casa ao ver sua boca rígida ao cantar.
Toda essa liberdade tornou-se redonda ao ver o quão maleável ela pode ser, ao ouvir um cético, quase biológo, mas filósofo, que disse convencido numa música secreta, pra sentarmos, e com seus lábios grossos e roxos de cigarro e frio:
- A boca sempre está suja, sempre produz saliva. Aliás sempre precisa de saliva. Ele precisa de você, tem sede de você e você a quer matar. Mate-a. Mate-a dócil e docemente
Agora seu dedo de toque de cordas arranha minha meia- fina preta, intromete-se por debaixo da blusa que fiz de presente pra você (mas que uso), esquentando com arrepio frio.
Ele pega a "faca cega" com "fé afiada", abre a lata de cerveja: "- Cuidado!" - e faz um cinzeiro que inauguro batendo a unha azul no filtro branco.
Aqui agora não preciso de nada. Fiquei velha para a minha falsa pouca castidade assim que te vi de perto e andei contigo no meio fio dessa cidade, que posso e ouso passar entrelaçada com/em você

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Vamos.

Aqui te esperando, com uma hora de antecedência observo o amor, como o observador de "O amor bate na aorta", de Drummond. Que do alto de algum lugar tece considerações acerca do bicho instruído e encantador que chamamos, inutilmente, de amor.
De pé e com vontade contida (pela lei do transporte público) de sentar, fico, a princípio impaciente com a hora que demorará pra passar, pois nem ao menos um cigarro posso acender. Dois homens de amarelo despedem-se em minha frente, olho por olhar, eis que vejo que se trata de um casal, que como eu, com vontade de me esparramar no chão de pedra fina, se contiveram na despedida: um tapa nas costas, aperto de mao londo com corpos timidamente encostados. Quando eles querem, na verdade, esparramar o amor, o beijo e a saliva sem medo de olhares estranhos.
 Uma fome enorme, acordei de ressaca e mal consegui fazer descer o pão. Por algum motivo nesta manhã pensei ter um filho na barriga. Um filho teu, coisa que você não quer. "Bobagem", pensei no instante seguinte ao forte enjoo matinal, é ressaca e ponto.
Mas não é sobre mim que escrevo. Sou aqui um obseervador do amor, entretanto, precisarei novamente me colocar nessa história. Estava falando na fome, e ao sair da estação de metrô dou de cara com um amor desgarrado, pouco verdadeiro. Um amor que corrói, enquanto por natureza é corroído e que tem por amigo inseparável a aparência que esconde a vontade de pôr inseticida na comida um do outro.
Um casal sorridente e loiro, uns 40 anos, entra no shopping, na qual fui comprar uma coxinha e um café, sorrindo, sorrindo muito. Não um para ou do outro, mas os dois (separados) para os outros.: volto descontente com o amor reprimido do casal homossexual e com o amor plástico do casal de cera.
Olho em volta, nada de você, já se passaram uns 25 minutos. Uma menina de uns 16 anos espera impaciente alguém. Dez minutos: ela chega, era sua companheira, se beijam, se abraçam e não sentido Jabaquara de mãos dadas e sorrido aberto. Sorriso de criança, Coragem de adulto.
Observando esse amor nem vejo quanto tempo decorreu. Penso nas duas meninas: sempre quis transar com uma mulher, mas nunca houve essa mulher, mas há uns dias atrás que vi olhando a Betina com olhos diferentes.
O amor, o desamor e o amor plástico se misturam em minha cabeça me causando um mister de sentimentos, um turbilhão sensorial, que me entra pelos olhos e instalam-se em algum canto do cerébro. Uma nova onda de passageiros surge do subterrâneo e você vem entre eles: guarda- chuva em mãos, mochila nas costas, sorriso com dentes de criança na boca: me beija levemente e olha interrogativo para os papeis desse conto, respondo: cheguei cedo demais e vi coisas demais.
Você sorri e encosta em meu ombro e diz: - Vamos?

terça-feira, 2 de abril de 2013

Azul - Vermelha.

Uma mochila pesadíssima, uma bolsa a tira- colo colorida, e eu, com costas doloridas pelo peso, cruzo o caminho, as paralelas de uma senhora de cabelos curtos e boca cor-de-rosa. Ela, a senhora, sorri e eu o retribuo com outro sorriso até que a porta do metrô abra e, em meio a dança de pessoas em disputa de um banco marrom, sentamos frente-a-frente.
A partir desse momento, do "sinal de fechamento das portas" é como se para ela eu não existisse mais. Existo, é claro, ou talvez... Mas não como protagonista dessa cena. A senhora, nervosa a beça, começa a fazer careta de desgosto para as informações da tela do metrô e dos anúncios fixados nas paredes do vagão. Se pergunta: "Tudo bem?" e se responde: "Oh sim, sim! Vamos indo."
Um homem de gravata e mala entra. Mal senta no banco quente recém livre e já saca papéis com planilhas, traços e números. Ela: "Hum. Um advogado... Não, não! Um gerente. Isso!" Uma mulher entra e traz consigo, junto ao peito muito pequeno, uma sacola de feira, com panos dentro. A senhora, descaradamente a encara e ela, por sua vez, nem percebe o olhar analítico da velha senhora com boca cor-de-rosa: "É uma mãe... Três filhos." - com rosto triste: "... E um marido bebado."
A essa altura você pode se perguntar: e falava alto a senhora?
Não sei. Sei que era audível pra mim, e assim deveria ser. Faz mais caretas, gesticula muito e olha à todos, menos à mim. Em nenhum momento, após o inicial sorriso na plataforma, ela tenta me analisar. Todos a olham, mas o curioso é que os olhares dela não encontram de forma alguma o de ninguém. Ela, sentindo-se invisível/ imperceptível em sua analise acerca dos outros passageiros e eu, sentindo-me igualmente invisível/ impeceptível analisando e escrevendo sobre ela, descemos. Ela na Praça da Árvore, eu na Sé.