sábado, 15 de dezembro de 2012

Cinza

O Grande... Te coloca na boca, segura, meio entre os dentes, meio entre os lábios enquanto procura, procura, procura, procura o fogo. Te dá uma ajeitada com a ajuda dos dedos, contrai a sombrancelha e o queixo vai um pouco pra frente. Arranja um lugar onde não venta, pra que vento? Pra que o "soprar do vento"? Melhor que não haja... Depois, depois que o fogo começa a consumir, talvez um bom vento seja bom. Talvez.
E então eis que começa o ritual, entre os dedos, entre os lábios ele te suga, te puxa, te sorve e como n'O Elefante de Drummond "[...] todo seu conteúdo de perdão, de carícia, de pluma, de algodão, jorra sobre o tapete, qual mito desmontado." Ao lado, num recipiente cinza, meio espelhado, seus restos, suas cinzas vão sendo jogadas talvez ao vento, talvez ao acaso. Ele te expulsa em forma de fumaça com vigor, como que se dando conta do mal que você lhe causa. Como o corpo num impulso de defesa. Defesa tardia. Ou ainda é cedo? Talvez a consciência do mal só venha depois, após os anos, após não ter nenhuma carta escrita, nenhuma recebida, tavez uma escrita mas não enviada. Mas num impulso animal, ele expulsa num sopro forte toda a fumaça. 
Por fim, o ultimo trago. Sim, trago. Ele te tira da boca e te olha... um observador, um analista, um doutor, um arrependido. E entre os dois dedos, polegar e indicador, com unhas, assim como os dentes, amarelas: te apertando, te apaga. Talvez seu fim, não o dele, seja o vaso sanitário, a terra, o vaso de uma planta, a rua, ou entre as pedras, suas velhas amigas.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Minha boca anda oca

Em meio as escadarias de São Luís você me pega no colo, me beija, me verte, me sorve e me leva pra casa no colo. Agora não sei quantos quilometros de terra, água e ar nos afastam. Agora a água quente do meu banho contrasta com os banhos frios que ai tomei, do nosso banho frio, do nosso chão de banheiro, da nossa cama molhada, da nossa varanda, dos olhos que ardem pelo suor, ardem de desejo e resfriam de arrepio a pele. Sua pele moura, minha pele francesa. Sua alma mineira, minha alma de São Paulo, o lugar onde a "ganância vibra e a vaidade excita".
- Nos trombamos, como dizem lá em sampa, mineiro...
- Vem cá. Dorme aqui comigo, coça minhas costa... isso mais embaixo. Ê paulistinha, você vai embora. Quanta loucura.
Agora corto as unhas que cresceram na viagem e aos poucos lavo a roupa com ares dai, ares seus, com alguma coisa sua, com vestígios de suas mãos enormes que passaram pelas roupas, por minha pele, meu cabelo, minha boca, minha mordida, sua mordida, esses olhos profundos que não saem da minha memória. Eu na ponta do pé, você sorri e me agarra pela cintura... "Parece que tudo e todos que me fazem esse bem vão embora".
Nada vai embora, meu mineiro, tudo que vivemos ajudam a construir, aos poucos, o que somos e quem seremos. Eu só desejo que o sonho semeie o mundo real.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

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     "Uma aventura, só uma aventura, um único dia". Um completo meio estranho, o qual pela tela do computador vejo fotos e mais fotos, na era na qual nem Orwell poderia imaginar: queremos ser vistos, guardando sonhos, numa enorme vitrine. Uma pergunta que as vezes me toca: O que faz ele passar 20 minutos transitando por 196 fotos? Fotos de uma solidão, uma solidão doce.
     Coloco o enorme casaco jeans que peguei de meu pai. Compro bilhetes: "dois, por favor" - ele nem me olha. Desço as escadas, numa euforia mansa, com um sorriso discreto por trás do batom novo, o da promoção, e sem me preoculpar com o fato do enorme casaco, que mais parece vestido, estar mostrando a calcinha por baixo da meia fina preta. Uma grávida sobe as escadas enquanto continuo nos filhos da puta e intermináveis degrais da estação: sorrio. Mania velha, sempre sorrio pra grávidas, penso que é uma forma de dizer: nos encotramos, gravidez. Até breve, por quatro vezes. Quero ter quatro filhos, a despeito na nossa era.
     Você, pontualmente está na plataforma me esperando, rosto limpo sem sinal da velha barba, uma boina, um casaco grosso e as habituais olheiras, que me fazem lembrar da nossa estranha condição, do nosso estranho estado de coisas e seres. Um cara, com doutorado pra 2014 (como você bem me lembra: não, não tenho doutorado...), uma namorada e eu, com esse casaco de pai, sem nem ter terminado minha graduação, com vinte anos recentes e um desejo que nem Freud, assim como Orwell não previu nosso comportamento, não poderia prever. Quem analisará isso? Talvez daqui a uns anos, estaremos todos enterrados, e uma pessoa surgirá, pra nos analisar. O comportamento de uma era.
     Um "olá" e os olhos antes fundidos na tela do computador sorriem um pro outro, agora palpáveis, beijáveis. Caminhamos lado a lado, até sua casa, "bem é aqui, tire os sapatos, sinta-se em casa", e realmente um aconchego me faz sorrir, tirar os sapatos e largar a bolsa no seu sofá. "Quero lhe mostrar algo, eu tenho uma seleção das fotos tuas que mais gosto", passamos um bom tempo comentando as fotos. "Eu gosto do album de sua família de Salvador. É leve sabe?" Você pousa sua mão na minha, e repentinamente leventa e vai em direção à cozinha. Grita de lá, criando um tom que faz tudo parece tão nosso, tão normal: "vou preparar algo". "Posso colocar uma musica?"- pergunto de cá. "Claro!" vc responde por uma abertura, que aposto ter sido imprudente, na parede da cozinha, para que sala e cozinha, graduação e doutorado pudessem conversar.
     Acendo meu cigarro, e não consigo conter a dança ouvindo novos baianos. "Um dia," - conto "terei um chafariz num sítio, uma amiga prometeu construir, de presente. E haverá a festa de inauguração do chafariz e tocará a noite toda Novos baianos. Quero que vá." Você, com um pano de prato nos ombros, se aproxima, põe as mãos entre meu ombro e o colo e diz: "Você é linda, já disse isso? Não é só isso, é algo que me puxa, algo doce. Mas não um doce fácil, é uma espécie de boa uva, do tipo que é preciso mergulhar a língua, e quase perto das sementes, sentir o doce." Nossos corpos se encontram, fluídos, rijos, não podemos conceber nada, nada, nada além do contato.
 

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Vie

    Abro a janela pra fumar sem noção do frio que fazia lá fora, pois estou aqui há um tempo que só sei dizer ser longo. O calor da brasa do cigarro que se aproxima do meu nariz, que sempre julguei grande demais, me conforta a despeito do frio.
    Assim que abri a janela vi uma luz por de trás das nuvens, que aos poucos se movimentavam a fim de abrir espaço pra ela, a lua branca, redonda, imponente, autosuficiente... de longe. E de perto? Inóspita, crateras, gases mortais, não sei, é tudo especulação... E o que não é?
    Lembro do primeiro filme que vi, do qual não me lembro, mas lembro! Lembro bem é da lição. Achava que os passos dos atores sempre estavam certos, já que lá estava a câmera pra filmar, pois se eles errassem um passo estariam num lugar onde ela não estaria. Logo o filme era a vida. Acho que por isso sinto tanta vontade de ser observada por você, me sentiria dentro do roteiro, você seria a câmera sempre me esperando na cena seguinte, sempre atenta.
    Imagino as coisas mais estranhas desde de que me vi nessa garagem sozinha, seleciono em minha cabeça as partes do meu corpo que você deveria ver, com sua alma de câmera, durante meu banho, o almoço, a leitura... Sinto uma dor na batata da perna e penso que é bom mudar os ares, vou pirar um dia desses. Mas também, quem não piraria com uma obra vinte e quatro horas em sua rua? É trator, caminhão, britadeira. Tudo entrando pelos ouvidos e bagunçando o juízo, tanto que de um maço pulei pra três.
    Penso - e a lua, com esse esconde- expõe da sua beleza vista com olhos de longe, esta se fazendo atriz pro meu olhar de câmera?

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Entre nós.

    O filme começa, o cheiro de pipoca sobe, os cochichos cessam e as luzes amarelas das laterais se apagam. Na primeira cena cômica escuto uma risada e riu dela, é sem pudor, sem aquele receio de rir sozinho no cinema ou de rir de desgraça em público. Tento me virar pra olhar, vejo que entre nós há um homem um tanto calvo, de gesto e olhar compenetrado. Vou um pouco com a cabeça pra trás e não consigo vê-lo. Decido que vou esperar a próxima cena engraçada e olhá-lo, pois ao contrário da sua risada, meu olhar tende a ter receio do olhar dos outros para o olhar que busca olhar um estranho, um completo estranho numa sala de cinema.
    Fito o filme pensando no seu rosto, pensando nas possibilidades dessa noite se seu olhar retribuir o meu, se sua risada contagiar a minha, se nossos corpos se encotrarem na saída estreita ou mesmo no banheiro, no qual feminino e masculino ficam lado a lado. Imagino saindo lado lado com você desse cinema, uma cerveja ou um café com um desconhecido, penso numa frase de cinema pra fazer você rir: "Hello stranger!" ouvi aquela atriz... Natalie Portman, isso! Poderia usar, penso, desisto e vejo que já perdi toda a história do filme.
    Perdi a história do filme, "o que menos importa num filme é a história", disse um amigo uma vez, e lembro que assim que ele disse senti vontade de beijá-lo. E não beijei. No meio dos meus pensamentos, ouço as risadas e a dele sobressaindo, num impulso humano ou não-humano levei o corpo à frente voltei a cabeça pro lado e o vi. Olhos pequenos, que brilhavam enfeitiçados pela magia do cinema, penso que todos deveriam olhar-se no cinema, que aurea ele confere! A cena acaba e eu permaneço na posição de admiradora dos olhos de cinema, sinto a mão de uma amiga pousar na minha coxa: - Ta tudo bem? "Tudo sim!" Volto.
   Não sei quanto tempo levo pra decidir, mas levanto, ouço vozes que não formam nada inteligível, ouço minha amiga: "Mariana!", e ouço mais do que qualquer coisa meu coração, que tantas e tantas vezes desejou e nunca fora atendido. Páro em frente à ele, ele olha pra cima, encontra meus olhos com olhos que já não brilham com a tela do cinema, mas brilham de uma forma diferente. Ele também levanta, as vozes que não se fazem entender cessam, ele pisca os olhos lentamente e eu o beijo. Tudo permanece no mais completo silêncio.
    Uma risada, aquela risada, luzes acesas, a mão de Giovana em meu ombro, as vozes inteligíveis voltando com maior volume e um "Que achou do filme?", me trazem de volta. Percebo que estou sentada, olho ao redor, levanto, tento achar o homem da risada e ao longe o vejo de mãos dadas com o calvo entre nós.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Seu rumo- sem rumo.

    Do horizonte faziam parte as árvores secas, as cabeludas, parabólicas e bananeiras, que misturavam-se ao pôr do sol vezes laranja, vezes rosado e vezes num discreto azul gradual. Nada acontecia ali, mas lembro sempre dos pés descalços que trazia, que pela manhã ficavam úmidos e pela tarde, depois do sol secar todos os orvalhos, ficava seco e com uma crosta marrom que deixava Maria louca de raiva em meu banho.
    Maria, ah a Maria! Apareceu aqui por nada, eu tinha 1 ano, não lembro... só sei de ouvir falar. Chegou aqui com 15 anos e logo foi agregada no seio de nossa família, sempre fora linda, com pele morena feito o café da tarde que prepara, olhos esverdeados e cabelo marrom queimado de sol. E a danada com 40 anos continua uma beleza, mas deixemos nossas aventuras de lado.
    Num dia de por do sol rosado eu ouvi de longe, mas nem tanto, uma musica, parecia sanfona e dado uns dez minutos vi de longe que de fato era uma. Uma caravana de artistas, e eu que cresci ouvindo sobre a vagabundagem desse povo cigano, ao invés de arrepios de medo e nojo, me vi com olhos cheios d'agua e com o coração a pulsar como uma zabumba.
    Foi quando a vi dançando enquanto tentava equilibrar-se na carroça puxada por um burro de certo porte. Naquele momento pensei pela primeira vez, juro, no amor. Não sei se o sentia naquele instante, mas pensei no bicho, senti lágrimas escorrendo no meu rosto de moleque e corri, corri muito atrás da carroça dos artistas e a moça voltou os olhos pra mim e numa piscadela de olhos azuis deteu meu corpo, de forma que nem um passo sequer pude dar.
    Fui ter com Maria, e perguntar se sabia onde os artistas ficariam, se era só passagem ou se teriam apresentações na vila. Maria parou de mexer com a colher de pau o feijão: soltou um olhar de rabo de olho, daqueles que te fazem calar a boca com mais eficiência que um tapa de pai. Mas não calei. Heim? perguntava inquiridor, ela então, puxando uma cadeira e em tom de segredo disse que poderia me levar ao invés de irmos pra missa da tarde.
    Não acode nenhuma palavra que explique a alegria que senti. Sei que a moça cuspia fogo vestida de odalisca, de bailarina equilibrava-se com graça na corda bamba, fazia malabarismo de colan azul claro e por fim a vi espiando rindo de dois palhaços por de trás da cortina velha e improvisada. Maria estava igualmente encantada e vendo seu estado corri.
    Corri para junto da minha artista.
     - Menino! Você! - ela disse, como se fosse um velho conhecido - Sabia que vinha, estava lhe esperando...
     - Eu, dona?
     - Sim, você. Me diz do que mais gostou?
     Sem pensar muito, e nem ter certeza do que proferia, disse: - Da bailarina.
     Solta algo como um hum, ergue a sombrancelha e puxa um banco pra ela e outro pra mim.
     - Você conhece o amor?
     - Não. Mas quando vi a senhora me peguei pensando nele, mas não sei o que pensei.
     - O amor, menino, é como você viu hoje: uma bailarina equilibrista. Ele (o amor) - dizia ela num mesmo tom de segredo da Maria. - nunca estará pronto, ele não existe, ninguém sente sua plenitude pra sempre. Ele, assim como me viu hoje na corda bamba, depende do meu corpo, do vento, da sorte, da alma, ele é pura inconstância, entende?
    - Então o amor é a senhora? - disse eu olhando para os pés dela.
    - Poder ser, quer experimentar?
    Naquela noite, senti a dor e o prazer de conhecer o amor, o mordi e por ele fui mordido. Senti como no dia que meu pai me levou à praia e que depois de brincar o dia todo no mar senti, a noite toda, seu balanço, seu tragar, seu vai e vem sem fim e seu cheiro embriagador. Feito quando o corpo se entrega cansado àquela sensação de mar... Mergulhei como um louco, como um menino nos olhos daquela moça que, na manhã seguinte, tomou seu rumo- sem rumo cigano, pronta pra apresentar o amor e embriagar os meninos que olham o por do sol rosado de pés marrons, feito eu. Penso que aquela foi a única noite que toquei o amor e digo: era quente, macio e terrivelmente inconstante.

domingo, 24 de junho de 2012

Feito um mosquito.

    Sinto algo andar pelo meu braço direito: sobe, desce, faz a curva, desfaz. Penso que pode ser coisa da minha cabeça ou má circulação e prossigo na leitura. A coisa persiste nos seus trajetos misteriosos, coloco a mão num movimento rápido, o seguro! Um prazer estranho faz percorrer um frio em minha espinha, sinto meus mamilos enrijecidos enquanto aperto a coisa com os dedos. Seguro por um tempo longo, até certificar-me de sua morte. Em seguida meto a mão por dentro da manga, o seguro com cuidado e nojo: o tenho no dedo e jogo no chão, ao meu lado. Volto à leitura, satistefeita, estranhamente satisfeita, asco e prazer me inundam.
    As pernas não param de tremer, e a leitua não flui de forma nenhuma. Tento controlar meus gestos e manter o autocontrole em minha perna e ela para, entrentanto, os olhos não conseguem obedecer: leia leia leia, presta atenção caralho! Nada, não funciona. Olho, com timidez, pro chão: ele não está mais lá. Foi levado, numa espécie de ato litúrgico ou pagão, pelo vento de junho. Penso que assim é o amor, feito um mosquito por debaixo da roupa.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

"Bandeiras se desmanchando"

    Preciso sair respirar, sinto que algo me espera, sinto arder a face e pulsar o coração mais forte. Meus dentes não conseguem ser coordenados na quietude, tremem com o maxilar... só pode ser a falta dos cigarros, pronto, é isso, preciso comprar mais cigarros. Iria na padaria se o caminho até ela bastasse pra esfriar o corpo, acalmar o coração e fazer os dentes de baixo pararem de se chocar com os de cima, ou... sei lá qual é culpado, é todo o corpo que está sedento.
    A padaria, não basta. Ando até a estação, meto-me no trem, "ufa, que sorte" falo, um homem me olha atentamente, sinto desconforto e desço na próxima. Me dou conta de não estar indo a lugar nenhum, então decido que o banco laranja é meu lugar nenhum: "estação do cacete! Que vento."- lembro de minha vó falando: "Onde o vento faz a curva". "Deve ser aqui" (sinto o corpo calmo, apesar da tremedeira maluca). Meto a mão no bolso do casaco, na procura de cigarros. "Puta merda! To na estação, não posso, lei filha da puta!", me conformo ao lembrar que nem se pudesse fumaria, não os tenho, nem um sequer, mas tenho fogo e brinco com a chama.
    Senta ao meu lado uma garota, e repete o gesto de procurar cigarros e pela cara que faz lembrou da lei com o mesmo ódio.
    - Você com fogo ai, eu com cigarro... e nem num frio desses podemos fumar sossegados. - ela abre um sorriso, contrastando dentes amarelados e batom vermelho.
    Penso se é comigo, e penso como o pensar é rápido, pois ainda pensando me dei conta que já a havia respondido. Sei lá o que falei, sei que sorri cordialmente, convidativamente: - Vai pra onde cara? "Sei lá", ela ri muito, passa a língua na boca enquanto olha pro céu escuro, escuro, escuro: - Tenho uma peça agora, quer ver? "Não tenho dinheiro, aliás só o do cigarro. É... nossa, pode crer, por isso saí, pra comprar um maço. Ela ri (penso: porra, ri de tudo): - Na estação você não vai achar! É...- concordo.
    - Vem comigo, entrada gratuita pra você.
    - Mas o que, vai pagar a minha e a tua?
    - Não, eu não pago, sou atriz meu, terceira apresentação hoje. Você curte Shakespeare?
    Penso no quão prepotente e horrível deve ser a peça (não sei se a respondi)
    - Fechado!
    "Mas o quê? eu topei?" penso já entrando no vagão com ela.
    - Posso fumar lá dentro?
    - Ah sim, se tiver mais que seis amigos na platéia é muito.
    "ENCANTADORA", não façam mau juízo da minha paixão. A peça era ruim, ruim à beça, mas ela... atriz, nunca saberei quando ela é um personagem, quando é ela de fato, isso se algum dia ela foi ela, ou será ela. Não a elogio, penso que todos são como eu e detestam elogios e não sabem onde os enfiar: "Vamos comprar cigarros, passei a peça com vontade e vergonha de pedir um ao cara do lado." Você ri e me chama de bobo. "Não sabe meu nome, mas nem eu o seu", entretanto acho demasiado idiota a pergunta, e me contento em a acompanhar pela rua muito vazia, me sinto cheio... mesmo sem cigarros os dentes pararam com a porra da abstinência e a temperatura de meu corpo já não me faz tremer de calor.
    - Marlboro, por favor. - você pede.
    - Maço ou box?
    - Maço, mais barato. - sorri ao senhor.
    - Obrigado, moça.
    Ascende o cigarro e me passa um, "mas eu ia comprar": - Que isso, dividimos. Dividir algo com você me agrada. - ela diz. Paramos num bar e pedimos uma cerveja, a mais barata. Tiro um livro da mochila, tenho um trecho pra ela, normalmente fazer isso seria inimaginável. Enquanto leio, ela permanece em profundo silêncio, penso que nem a respiração é audível; encosta a boca na borda, marcada pelo batom, do copo vazio. Vocês devem se perguntar: e ela ouvia com atenção? Creio que sim, não encheu o copo enquanto eu lia o texto. Terminei. Seu primeiro impulso foi colocar o resto da cerveja em nossos copos, com o cuidado da igualdade do conteúdo: "Gosto de dividir com você." - diz com cara de satisfação. E penso que todas as faces dessa atriz são tremendamente encantadoras, se não fosse tão imbecil diria embriagantes.
    Ficamos em silêncio, ela mais que eu, pois podia ouvir todos meus pensamentos a mil, enquanto que ela olhava fundo em meus olhos. Fiquei feliz, ela era a primeira pessoa que conhecia que não se incomodava com o silêncio e, mesmo após a leitura, não se viu obrigada a dizer algo, mesmo que fosse um: "adorei!" Nada. Pra mim este nada era a prova de sua atenção e do toque do texto. Pedimos outras três depois dessa e já começava a me preocupar com o valor da conta.
    - Adoro poetas ruins, uma vez li que eles vivem a poesia que não conseguem escrever. - diz distraidamente. O fato dela não dar créditos ao livro onde leu me excita.
    - Sabe, posso conhecer uma única música de uma banda, um único filme de um diretor; e ainda assim amar desvairadamente a banda e o diretor, sem me preocupar com as outras obras. - uma pausa, ela respira fundo e passa o dedo ao redor da boca: "pensa que ainda tem batom aí. - penso".
    - É a parte pelo todo. Acho uma tremenda bobagem as trajetórias e a indevida importância que dão à ela. Ninguém é sempre brilhante, mas todo brilham alguma vez, sei lá onde ou porquê, mas quando vejo algo brilhante de alguém logo me apaixono, não procuro saber de outras coisas, pra mim só existe essa paixão, as outras são balelas. Tipo, amar alguém pra sempre, convivendo, dormindo juntos, que isso, cara!?
    Normalmente acharia a fala dela sem sentido e até pedante, metida a moderna, mas sabe aquela coisa: "Eu ouviria as piores notícias de seus lindos lábios" (ou algo do tipo)? Era isso que sentia, me sentia inundado por aquela atriz. Seu nome? Ah, sim ia-me esquecendo: Lady MacBeth, Julieta, Desdemona, Viola e Ofélia. E eu, devotamente, assistiria e não elogiaria todas, todas.
    Acordo, não sei como, na cama. E me pergunto envergonhado: "paguei a conta?"

domingo, 17 de junho de 2012

Tragicamente.

    Ali na sala de projeção ele esquecia da mulher, reclamando de seu salário; e da filha, que arrumara um namorado estranho, algo melancólico. Era um mundo mágico, mesmo após 20 anos de mesmo serviço.
Ele ficava ali, apoiava a cabeça na mão, que por sua vez apoiava-se no cotovelo, que apoaiva-se num pedaço de concreto, e este pairava sobre a cabeça dos espectadores.
    Todos os dias a admirar belezas, a rir de feiuras e a observar todos os movimentos: dos casais, do homem que metia a mão na calça pra coçar virilha, o bocejar da moça num filme ruim, o "chiu!" da mãe pro filho hiperativo, disléxico e neurastênico, tudo tudo tudo. Era seu espetáculo, era a vida despercebida e particular que assistia enquanto seus objetos assistiam ao filme por ele rodado. 
     "Le mépris" e escuta o diretor ler os créditos, acha curioso, mas o fato de ser Godard o desanima quatro vezes mais, "tipo de filme que terminamos com perguntas que machucam demais.". Observa mais atentamente uma garota, chegou sozinha, sentou distante e apoiava os joelhos na poltrona da frente, "deve ter ido pra esse canto isolado só pra poder encostar os joelhos", desanima nosso projetor. Volta a atenção pras outras figuras da sala: homens fazendo pose de entendedores de Godard e donos de todas as respostas para as perguntas vomitadas na sua cara, "primeiro encontro", o homem classifica; a moça bem sucedida com doutorado francês, mas sem nenhum romancezinho pra pirar. É quando volta os olhos pra menina do canto e a vê chorando logo de cara, primeira cena, sente curiosidade, coisa rara, e olha pra tela: uma mulher está nua na cama, lê a legenda: Te amo totalmente, ternamente, tragicamente.

sábado, 16 de junho de 2012

A falta que ficou.

    Depois que fumávamos um o olho dela ficava ainda mais pequeno do que normalmente era, e o sorriso semiaberto mostrando só parte dos dentes não lhe saía do rosto. Deitávamos na sombra da única árvore ali, ela encostava a boca em meu ouvido e começava: Hoje não dá... Hoje não dá... Está um dia tão bonito lá fora e eu quero brincar. Eu ria e não conhecia a música. Pergunto: É teu, pequena?
    - Não... - ela responde coçando a ponta do nariz, onde haviam três pintas, com o dorso da mão. Como posso a odiar tanto hoje? Vocês não entendem, era pura liberdade e poesia, tão leve, tão sorriso, tão olhares e tão toque... Agora terminamos .
    Outro dia bebemos umas cervejas no boteco da rua de baixo. As bochechas dela sempre ficavam muito vermelhas, os olhos brilhavam e voltamos cambaleando um pouco: ela sem se preocupar com o movimento do vestido, e este, por sua vez, sambava livre em seu corpo modesto e branco. Após dois ou três copos ela sempre tinha muito amor a oferecer. Como posso a odiar tanto hoje?
    Um dia daqueles de pouco sol e muito menos amor a senti distante. Entro na sala e a vejo sentada segurando lápis e caderno. Era uma palestra sobre índios (que morram todos!) e eu entro fazendo um imenso barulho e atraio muitos olhares, não me importo estava por demais embriagado. No entanto um olhar me importa: o dela. Era de mais pura reprovação... de pronto me envergonhei mas em seguida a odiei, e acredito as sensações eram recíprocas.
    Nos separamos sem dramas. Afinal éramos adultos e repetíamos, mais pro seu do que para o meu orgulho: Não tínhamos nada... Nada. Entretanto, a despeito do nada, eu sorria mais, deixei a barba crescer por seus caprichos, falei a meus amigos sobre a incrível mulher que era minha companheira, até li Foucault... Você também, tornou-se mais solar, mais leve, e obteve a maior prova de sua liberdade. 
    Acho que aí esta a resposta do meu atual ódio: a liberdade que emanava do seu gestual e do seu cheiros sem perfumes, ela tentava entrar pelo meu nariz e tomar tudo para si, insinuava-se feito você no samba um dia. Não sei lidar com a liberdade. Agora cantarolo: "Só nos sobrou do amor, a falta que ficou." E a falta é ódio. 

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Chore, minha criança.

   Encosto no teu peito magro e você segura minha cabeça com a palma da mão fazendo confudirem-se seus dedos e meu cabelo laranja.
   - Queria te levar na cidade onde nasci.
   - Adoraria, você sabe. Podemos ir nas férias de fim de ano e fazer um filho lá. -você responde sem perceber meus olhos muito úmidos.
   Sabe, me apaixonei por ele por conta de sua risada. Parece piada, mas não é, juro, ela foi a mais encantadora que já ouvi, era inocente e incontida. Começo.
   Estava no sítio dos meus avós, morávamos lá eu, pai e minha mãe. Mas a lembrança está na cozinha dele, era enorme, um tanto pobre e vazia, mas enorme. Estava sentada, com as pernas abertas só de fralda. Olhava com o rosto todo amerelo, das mangas que chupava sem parar, para minha avó, que retribuia o olhar com um sorriso que até hoje não sei o significado. Mas mesmo sem saber a real intenção eu abria um sorriso de farpas nos dentes pra ela, que sorria e balançava a cabeça negativamente, coisas de premonição de avós, não sei.
   Era um sorriso igual ao que ela soltava quando segurava a tampa da panela para que os caranguejos não fugissem. Poxa, os caranguejos, lembro. Sentia uma enorme alegria quando meu pai voltava a noite com caranguejos, minha mãe também, mas a felicidade dela era pelo simples fato dele voltar pra casa, ele tinha fama de mulherengo - riu. Mas enfim, adorava os bichinhos cozidos por minha vó. Lembro do exato barulho que emitia ao chupar as patas dele, era infinitamente delicioso!
   - Podíamos fazer um dia, que acha? -você interrompe.
   Não te respondo. Você não percebe nem as lágrimas, nem a vermelhidão de meu rosto, e acha que estou esperando mais palavras e solta um som, como se fosse começar nova frase, mas ficamos em silêncio.
   Lembro mais uma vez de sua risada e da paixão que ela me desperta quase todos os dias; de sua sensibilidade e tato com todas as minhas confusões. Lembro do dia que me conquistou:
   - É todo e puro encanto essa tua confusão.
   Sabe, procurei por isso desde o dia que decidi procurar por algo... alguém que sorrisse pra mim verdadeiramente e que não tentasse pôr ordem em meus pensamentos. E você é esse algo, pois muito pelo contrário, você os rega e os vela como um jardineiro.
   Continuo: As vezes acho que não tenho identidade. Saí de lá muito cedo, e logo fui engolida por esse lugar, essa cidade desvairada, que comeu minhas origens, usurpou e riu de meu sotaque quando criança. Me perguntei várias vezes porquê não resisti. Mas penso: era só uma criança.
   Estou fora do alcance de seus olhos, a única coisa que vê é a ponta do meu nariz, e, mesmo assim, você me aperta forte e leva os dedos aos meus olhos, como que sabendo do meu choro. Enxuga, como pode, as lágrimas, chupa seus dedos molhados e diz, com a vóz doce e pausada: Chore minha criança.

domingo, 20 de maio de 2012

Cadência.

O céu nunca ficou tão igual a aquele dia como hoje no entardecer. Não era só um misturar de rosa, laranja, nuvens perdidas e sol pela metade. Era mais, era como se fosse um desenho que nada tinha de pedante, era inocente, mas não idiota. Era beleza de mulher desinteressada, capturada no cotidiano, naquele momento banal de afastar fios inexistentes dos olhos, de apertar a nuca na escada rolante.
  Pronto, mirei o horizonte e fui tomada- banhada por nossas lembranças. O exato instante em que esse ceu que vi hoje aconteceu, foi quando você ia partir pra uma viagem um tanto longa, íamos ficar um bom tempo sem nos ver, coisa inconcebível prum amor rosado, cheirando a damasco como o nosso.
   Fechei o portão, ia te levar no ponto do ônibus, nos viramos e lá estava. Você logo se posicionou atrás de mim, envolveu minha cintura, abaixou-se muito a fim de encostar o queixo, com um curativo do seu ultimo porre, em meu ombro esquerdo. "Olha só." Você disse. Ficamos uns minutos assim, não sei precisar quanto, nesses assuntos quanto menos forma e aritmética melhor. O amor, ainda mais esse tipo de amor, dispensa métricas e metros. "Tô atrasado!"- você sentencia.
   Suspiro alto no portão e dona Lindalva, velhinha faladeira e muito chata vem se aproximando... "Tá sabendo que a Aparecida casa hoje?" "Não", respondo sem pensar muito na resposta. Mas completo: "Pro azar dela". A velha Lindalva é surdinha pra minha sorte. Todos os sonhos azuis que nós matutamos juntos agora inundam minha roupa, entram pelo portão, invadem a sala de estar, a despensa e o vaso sanitário.
   Tinhamos um amor infantil, sem problemas. Agora todo e qualquer amor soa bobo, precisamos nos preservar, calar sentimentos, chamam de maturidade emocional. Nada de declarações pela madrugada. Nada de chegadas emocionadas.
   Volto pra dentro de casa e decido passar uma vassoura pela casa, e assim, expulsar assim os sonhos que outrora eram o perfume ambiente e que agora eram partes integrantes da poeira nos cantos difíceis de limpar. Sento no sofá, ligo e desligo o aparelho de televisão algumas vezes, acendo o cigarro, encho o copo de coca-cola, passo margarina numa torrada. Passo a tarde assim, como o copo entre as pernas abertas, sem coragem de ver novela, nem programas de auditório pois sempre aparecem casais apaixonados, famílias formais com filhos lindos. Filhos. Já pensei em tê-los um milhão de vezes, mas sempre escuto: você é nova, e mais: quem seria pai? Mas penso na inutilidade do pai. Me olham estranho,para eles não seria saudável ter filhos sem pai.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Limo.

   A porta, de um suposto jacarandá, que se apresenta pesada e sombria, me causa uma repulsa imensa. Saio e sinto como se uma nuvem de espuma cobrisse meu rosto e, em seguida, fosse sendo retirada pelo vento rasgante de maio, ficando ainda algum tanto nos cabelos. Quanto mais rápido eu andava mais frio e desprotegido da espuma ficava meu rosto. Sentia-o arder e corar muito. Encontro uma padaria, seria ótimo me abrigar e tomar um café, mas não posso. Sigo em passos rápidos. Um farol me barra. Fecha. Fico cantarolando uma música do Jobim que vi no comercial de uma coletânea sua.
   Abre. Fito a fachada de uma sexy shop com rabinho de diabo, e me esqueço do sinal. Fecha. Fico puta. Aprendo a prever: quinze segundos é isso? Testo outra vez. Isso! O farol para pedestres fica verde por 15 segundos. Testo mais três vezes, atravesso e resolvo entrar na lojinha com rabo. Um homem, um menino não sei... Usava suéter colorido, não tinha nenhum sinal de barba e era muito branco entra comigo. Prendo o cabelo no alto da cabeça, passo os dedos na franja e fico andando pela loja. Ele, o rapaz sem barba, entra e fita a tv no alto durante todo o tempo em que dou a volta e decido sair.
    Sinal aberto, corro sobre o salto largo e baixo e do outro lado da rua vejo que ele ainda olha a tv no suporte de ferro, acima de umas calcinhas muito pequenas. Continuo em linha reta, passo uns três quarteirões e entro num sebo. Sinto que era ali que deveria chegar. Pergunto de um título qualquer, pra quebrar a estranheza. A mulher, que fuma um filtro vermelho aponta e resmunga, com o cigarro na boca, algo que não consigo entender. Sigo a direção que seus dedos amarelados indicaram e fico lá, passando os olhos sem nada procurar. Acho que demorei uns vinte minutos nisso, até que escuto um suspiro forte, enfadonho e vejo que a mulher levantou-se e vinha na minha direção, agora com os cigarros nos dedos. Senti que seria grossa. Não foi. Sorriu e apontou um título, disse ser bom. Sorri de volta.
   Me deixou lá. Podia roubar livros, estava com bolsa e até olhei pro alto a procura de alguma câmera. Nada. Senti enorme simpatia pela mulher do sebo, ela confiava em mim, uma confiança tão gratuita que seria como matar um filho roubar, que fosse uma revista de um real. Tenho o livro na mão, mas continuo a procura do que me fez sair. Encontro! Leio: Bach. Na hora lembro da Lourdes, quanto tempo! Tenho o endereço ainda? poderia enviá-la o livro com uma dedicatória saudosa. Penso que sim, num caderno antigo... É, ela é do tipo que morre na mesma casa que nasceu.
   Decido comprar, deixo o outro livro num banquinho e sigo em direção ao caixa, que agora além da mulher com o cigarro na boca tem uma máquina soltando vapor d'agua, que misturava-se à fumaça do cigarro formando uma fumaça-vapor que me embrulhava o estômago. Ela: - Bela escolha! Deixe-me ver o preço. Hum. - ela entra num sebo on line e vê a quanto ele é vendido lá.
- Bom! 20 reais. - realmente nada no sebo tinha preço. Acho engraçado.
- Ok, vou levar.
   Na calçada tento acender meu filtro branco, levo o isqueiro ao cigarro, mas sou interrompida pela buzina. Levo outra vez, e outra vez a buzina. Olho em direção ao carro, era um taxi, e o homem de bigodes faz um gesto como que para que eu desvirasse o cigarro. Sorrio e desviro o cigarro, o sinal pros carros abre. Acendo e não consigo passar da segunda tragada, um enjoo enorme. Bom, pelo menos tenho uma lembrança pra Lourdinha! Inclusive vou escrever nele o trecho daquela música do Jobim... a do comercial...  Me esqueci.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Um pouco de calor.

   Sento no banco contrário ao sentido do trem. Leio a mensagem que a mulher ao lado escreve ao marido: "Meu amor, estou chegando. To com saudade, 10 minutos to na estação." Um amor confortável ou o casamento dos pequenos burgueses: "Ele é o funcionário completo e ela aprende a fazer suspiros, vão viver sob o mesmo teto até trocarem tiros."? Não sei. Confiro no espelho do pó compacto se ficaram marcas dos seus dentes nas bochechas, pescoço e ombros. Ainda sinto seus dedos me apertando, querendo entrar na minha pele, fundir. Sinto também sua pele no meu dedo, meu cabelo enroscado na tua barba e tento, de olhos fechados afastar um fio de cabelo inexistente da minha boca. Sinto cheiro da tua saliva, posso até sentir o calor. 
  Seria muito mais fácil te deixar agora, encerrar tudo isso. Mas essa sensação de inacabado e tudo que te cerca e me cerca me tragam, me puxam e logo: tô no teu pescoço, no teu peito, no teu colo. E logo: sua barba toca na minha bochecha, minha mão pesa no teu ombro, teus braços envolvem minha cintura. A respiração fica rápida, os lábios secos um tanto rachados pedem por calor, por molhado. Então meus lábios pousam nos seus, sinto meu corpo mole, eu perco o equilíbrio e você me segura. Segura cabelos, coxas, braços, peitos. Rimos. 
 - Isso é maluco. 
 - Infinitamente maluco. Mas não consigo. Me dá uma coisa.
 - Que coisa! 
   Caimos no sofá, teu braço envolve toda minha cintura. Eu suspiro e você para. E eis que nos separaremos: pra depois voltar, pra depois pedir por liberdade. Pra depois sentir seus lábios secos pedindo, sem escrúpulos, um pouco de calor.

domingo, 22 de abril de 2012

Meteoros nessa madrugada.

Abro o navegador e leio que hoje, nessa madrugada de sabado pra domingo será visível a olho nú, no ceu, uma chuva de meteoro. Engraçado, nunca imaginei que essas coisas fossem possíveis de ver, e muito menos que eu poderia ver. Mas entre todos os pensamentos que a chuva de meteoro trouxe veio você: numa recordação recente, mas com gosto de velha. Em frente a tv, embaixo do cobertor, aproveitando o feriado fora de casa dos meus pais estavamos nós dois, juntos num corpo só. Quando anunciam: "O eclipse será visível a olho nú, nesta madrugada de sabado pra domingo". Câncer, o signo da Lua dizem. - Quero muito ver com você. - Não vai dar, vou viajar lembra? - Bom podemos ainda assim assisti-lo juntos. Você sorri e eu me sinto com uma prova com nota A na hora do almoço com a família. No outro dia os dois, nós dois programamos o despertador. E então posso imaginar: Acordo ao som de Bob Dylan, Just like a woman. Descabelada, pé no chão, 3 espirros seguidos pego um copo d'agua. Abro a janela: um puta vento e mais 2 espirros. Acorda ao som de Let it be, bochachas marcadas pelo travesseiro, põe o chinelo, limpa o canto dos olhos com os dedos. Se arrepende de ter marcado de ver o eclipse, precisava acordar ás 5h da manhã etc etc. Pega o celular, disca meu número. E agora a chuva de meteoro nessa madrugada vem. E desconfio: é só para que você não saia tão facilmente dos meus pensamentos. Chamam também de "estrelas cadentes" chuva de estrelas cadentes: fico a repetir deitada na cama.

domingo, 15 de abril de 2012

Sou, somos e é.

- Você é a pessoa que mais tenho vontade de desvendar, de conhecer.

"Você precisa saber de mim", "Me ver de perto" Pra mim isso não é em vão. Vejo uma conotação sexual. "Ouvir aquela canção do Roberto", Roberto Carlos tem as músicas mais safadas que já ouvi. Ri, riu, rimos.

Acendo o cigarro: Não estou aqui pra relacionamentos, não sei lidar com isso, com o fato de prender alguém, seja lá porque ele me ama, ou porque é convencional. Quero viver sabe, "correr o mundo, correr perigo".

- Esse seu jeito de levar a vida como quem desvia de buracos cheios de lama me excita.
Você diz isso agora, no fundo todos querem segurança. Inclusive eu. Mas cansa esperar segurança, quando ela nunca chega. Chegará um dia? Não sei. Sei que amor é "bicho instruído"

- Que bate na porta. Mas agora "fui abrir e me constipei".
Eu avisei, avisei. E agora? Você vai conhecer outras mulheres, meninas... Sabe, eu sei disso, e nao vou, não quero esperar segurança de você. Conheço a história. Mas não vou e nem quero tomar cuidado. Enquanto estivermos aqui, sob esse ceu, nessa varanda secreta com vista pra floresta, somos eu e você (seja lá o que isso signifique), e, enquanto esse encanto nos prender: sou, somos e é.

Alguém parecido, era o que sempre procurou. Deu pra sonhar, desliza pelos dedos, pelos unhas, aperta seu cabelo, sente o pescoço, sente, prova.

domingo, 1 de abril de 2012

Monte.

O dedo não parava de apertar o interruptor: e nada.
- Puta merda! É a terceira vez, em uma semana, que a lâmpada queima.
Deixou os planos de ler no quarto e foi pra sala. Sentiu vontade de ligar a televisão.
Sentiu o cheiro dele. Tanto procurou aquele perfume pelas ruas e agora, como que zombando, ele estava na sala. Mas como? se perguntava. Faz uns três meses que ele não passa por aqui. E o cheiro, de onde ele vem? Tinha procurado tanto. Tanto! Buscava ele em algum cliente pobretão e até em alguma mulher. Aquele cheiro que estava enterrado na distancia de muitos quilômetros, bento pelas aguas que rolaram.
Ela precisa de um motivo: pra sonhar, pra chorar.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Encomenda para Sebá.

Hoje passamos em frente à rodoviária que uma vez lhe busquei. Era nosso primeiro verão, que desembocou em mais três e um único inverno. E sinto que lhe deveria confiar uma história, minha história. Nunca gostei disso, me parece pedantismo. Ou mais: me parece difícil, dissecar a si próprio, mexer no passado, enquanto um futuro, não- futuro me espera a duas horas daqui. Mas, hoje, por um único motivo senti que os escritos que sucederão esse primeiro que lhe escrevo, devem ser entregues a você, unicamente a você.
Você deve se perguntar o porquê dessa decisão, o porquê você. Eu lhe digo. Hoje o amor rancoroso que veio quando nos separamos acabou. O amor, como diz Xico Sá, que acaba na Consolação, saiu do metrô e pegou uma rua qualquer, totalmente descompromissado. Já disse muitas vezes que o amor entre nós tinha acabado, virado amizade. Mentira, tudo balela! E você, provavelmente acreditou mais uma vez. Mulher superior no maior estilo “Olhos no Olhos” foi tudo que não fui nesses tempos. Sabe, a única coisa que fiz apaixonadamente por muito tempo foi mentir. Maliciosamente, claro, mas principalmente por zelo.
Como isso aconteceu? Hoje, pela primeira vez, uma pergunta sobre você, ou pior: sobre nós, que não mais existe, não me fez a garganta ficar pequena e a saliva parecer ser densa. “ E o Sebá?” Pronto, era motivo para o maior desconforto, de surpresas, lamentos e previsões póstumas das tias malucas. No entanto hoje, ao ouvir a mesma pergunta, um ano depois do fim, disse: “ Ah está bem, até tem outra.” E em coro: “Jura?!” Ainda brinquei: “O que me consola é a feiura da moça!” E todos rimos.
Se o amor acabou, porquê confiar os escritos a você? Porque eles, talvez mais que a mim, pertencem a você e a todas as mentiras sinceras que você caiu. As traições pequeno- burguesas, cheias de culpa, e mesmo não estando mais juntos, acho que você tem direito a saber da minha libertação sexual e do único homem, do qual não me lembro o nome, que me ofereceu-a, através da sua não piedade.
Talvez tudo aqui doa em você, mas me despir e me expor aqui, faz eu me sentir mulher. Mais do que quando tirei e me expus pra você fisicamente. Agora, meu Sebá, essas memórias são suas, só suas. Talvez você se descubra, como eu me descobri aqui. E chegue a mesma conclusão que eu: o amor entre nós foi tão jovem, e ao mesmo tempo tão pretensioso, que em muitos momentos aqui me pergunto se ele existiu.
Li uma vez que uma mulher nunca consegue encontrar um amor puro, despertamos desejo, loucura, que passada a tempestade, chamamos de amor. Você conhece nossa história, por enquanto parcialmente, mas sabe que ela não foge à ideia aqui exposta. Entretanto, não quero e tenho o direito, de não saber suas conclusões.
Meu Sebá, aqui está. Sou com esse gesto tua, como nunca fui antes. Não se engane. Ademais é o vento quente que passa pela calçada que virávamos a madrugada conversando sobre sei lá o que, com enormes pausas de silêncios nem um pouco desconfortável. De meninices e maturidades sem fim.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Até quando ela existirá?

"Mas Ana eu só posso me aposentar depois da cirurgia e até lá tenho que ficar renovando a "caixa"" Escuto assim que entro no vagão.
Tento não prestar muita atenção mas a senhora extremamente magra não fala baixo e nem deixa espaço na coversa pra a outra senhora falar.
Depois de alguns minutos ouvindo a conversa, ela me deixa a par da situação: tem cancer. Fico extremante desconfortável, tento não olhar na direção das duas, mas é como se ela tomasse conta de todo o vagão, não deixando espaço pra outros pensamentos, me sinto sulfocada pela vontade que ela tem de tornar pública sua dor, tudo bem, apenas eu, mais um moço e as duas mulheres.
Lembrei de quando eu acordei achando que tinha AIDS, nem sabia o que era isso, mas vi na tevê e fiquei encafifada que a tinha. Penso que sensação da senhora deve ser parecida, bobagem.
No meu esforço de tentar pensar em outra coisa eu piorava a situação. E o pior aconteceu: A senhora morena, a que ouvia a que falava de sua doença desceu. E ficamos eu, o moço estranho que lia um livro estranho e a senhora do cancer.
Pronto. Bastou pra situação ficar mais estranha. Ela mexe na bolsa e me olha, eu sei que me olha. Tira de dentro algumas 4 bulas de remédio e poe-se a lê-las, consigo perseguir o olhar dela, e fico imaginando os nomes complicados de compostos e sei lá mais o quê que ela lê nesse momento.
Por que esse babaca desse homem não tira os olhos do livro de auto ajuda e me deixa mais confortável dividindo o peso do ambiente comigo? Ela me olha mais uma vez, fingo não ter notado nem ela, nem a conversa, mas ela continua, eu sinto.
O maquinista anuncia a próxima estação, ela levanta se apoiando na barra de ferro e gemendo de dor. Tenho um arrepio. Olho pra ela. Ela me olha com o sorriso tímido, retribuo, ela o abre mais. A porta abre, entram muitas pessoas, oculpam os lugares e uma menina de franja, uns 8 anos senta no lugar dela. Juro que por alguns minutos penso ter entendido as artimanhas da vida. E penso "Até quando ela existirá?" Agora até que este escrito existir, pena ela não saber.