segunda-feira, 6 de agosto de 2012

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     "Uma aventura, só uma aventura, um único dia". Um completo meio estranho, o qual pela tela do computador vejo fotos e mais fotos, na era na qual nem Orwell poderia imaginar: queremos ser vistos, guardando sonhos, numa enorme vitrine. Uma pergunta que as vezes me toca: O que faz ele passar 20 minutos transitando por 196 fotos? Fotos de uma solidão, uma solidão doce.
     Coloco o enorme casaco jeans que peguei de meu pai. Compro bilhetes: "dois, por favor" - ele nem me olha. Desço as escadas, numa euforia mansa, com um sorriso discreto por trás do batom novo, o da promoção, e sem me preoculpar com o fato do enorme casaco, que mais parece vestido, estar mostrando a calcinha por baixo da meia fina preta. Uma grávida sobe as escadas enquanto continuo nos filhos da puta e intermináveis degrais da estação: sorrio. Mania velha, sempre sorrio pra grávidas, penso que é uma forma de dizer: nos encotramos, gravidez. Até breve, por quatro vezes. Quero ter quatro filhos, a despeito na nossa era.
     Você, pontualmente está na plataforma me esperando, rosto limpo sem sinal da velha barba, uma boina, um casaco grosso e as habituais olheiras, que me fazem lembrar da nossa estranha condição, do nosso estranho estado de coisas e seres. Um cara, com doutorado pra 2014 (como você bem me lembra: não, não tenho doutorado...), uma namorada e eu, com esse casaco de pai, sem nem ter terminado minha graduação, com vinte anos recentes e um desejo que nem Freud, assim como Orwell não previu nosso comportamento, não poderia prever. Quem analisará isso? Talvez daqui a uns anos, estaremos todos enterrados, e uma pessoa surgirá, pra nos analisar. O comportamento de uma era.
     Um "olá" e os olhos antes fundidos na tela do computador sorriem um pro outro, agora palpáveis, beijáveis. Caminhamos lado a lado, até sua casa, "bem é aqui, tire os sapatos, sinta-se em casa", e realmente um aconchego me faz sorrir, tirar os sapatos e largar a bolsa no seu sofá. "Quero lhe mostrar algo, eu tenho uma seleção das fotos tuas que mais gosto", passamos um bom tempo comentando as fotos. "Eu gosto do album de sua família de Salvador. É leve sabe?" Você pousa sua mão na minha, e repentinamente leventa e vai em direção à cozinha. Grita de lá, criando um tom que faz tudo parece tão nosso, tão normal: "vou preparar algo". "Posso colocar uma musica?"- pergunto de cá. "Claro!" vc responde por uma abertura, que aposto ter sido imprudente, na parede da cozinha, para que sala e cozinha, graduação e doutorado pudessem conversar.
     Acendo meu cigarro, e não consigo conter a dança ouvindo novos baianos. "Um dia," - conto "terei um chafariz num sítio, uma amiga prometeu construir, de presente. E haverá a festa de inauguração do chafariz e tocará a noite toda Novos baianos. Quero que vá." Você, com um pano de prato nos ombros, se aproxima, põe as mãos entre meu ombro e o colo e diz: "Você é linda, já disse isso? Não é só isso, é algo que me puxa, algo doce. Mas não um doce fácil, é uma espécie de boa uva, do tipo que é preciso mergulhar a língua, e quase perto das sementes, sentir o doce." Nossos corpos se encontram, fluídos, rijos, não podemos conceber nada, nada, nada além do contato.
 

Um comentário:

  1. Um encontro, on sonho conservado de quastro frutos a brotar,apesar da época não muito favorável às árvores que querem se dar em frutos.Um homem fala da doçura das uvas e acreditamos que saberá encontrá-la por baixo do casaco-vestido, que mal esconde a calcinha sob as meias. Bdeleza, refinamento, sutileza. A língua encontrará as sementes. O contato físico do final ainda não traz os frutos mas faz nascer a seiva. Como você continua escrevendo de forma tão especial. Um abraço, Danielly Teles.

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