quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Vie

    Abro a janela pra fumar sem noção do frio que fazia lá fora, pois estou aqui há um tempo que só sei dizer ser longo. O calor da brasa do cigarro que se aproxima do meu nariz, que sempre julguei grande demais, me conforta a despeito do frio.
    Assim que abri a janela vi uma luz por de trás das nuvens, que aos poucos se movimentavam a fim de abrir espaço pra ela, a lua branca, redonda, imponente, autosuficiente... de longe. E de perto? Inóspita, crateras, gases mortais, não sei, é tudo especulação... E o que não é?
    Lembro do primeiro filme que vi, do qual não me lembro, mas lembro! Lembro bem é da lição. Achava que os passos dos atores sempre estavam certos, já que lá estava a câmera pra filmar, pois se eles errassem um passo estariam num lugar onde ela não estaria. Logo o filme era a vida. Acho que por isso sinto tanta vontade de ser observada por você, me sentiria dentro do roteiro, você seria a câmera sempre me esperando na cena seguinte, sempre atenta.
    Imagino as coisas mais estranhas desde de que me vi nessa garagem sozinha, seleciono em minha cabeça as partes do meu corpo que você deveria ver, com sua alma de câmera, durante meu banho, o almoço, a leitura... Sinto uma dor na batata da perna e penso que é bom mudar os ares, vou pirar um dia desses. Mas também, quem não piraria com uma obra vinte e quatro horas em sua rua? É trator, caminhão, britadeira. Tudo entrando pelos ouvidos e bagunçando o juízo, tanto que de um maço pulei pra três.
    Penso - e a lua, com esse esconde- expõe da sua beleza vista com olhos de longe, esta se fazendo atriz pro meu olhar de câmera?

2 comentários:

  1. E o cinema se mostra na visualidade plena das palavras dessa escritora. Tão jovem quanto única no seu estilo.Me lembro de outro conto que vi há meia hora,um conto seu que citava Godard e Pierrot Le Fou, e também Le Mépris. E terminava com uma moça chorando. Este ainda vou comentar pois o perdi na ansiosa busca de reencontrar os teus textos.Depois de uma longa viagem,o deslumbramento de ver a tela rasgar seus véus e se transformar, por "olhos velhos", no ritual da literatura.

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  2. E tem mais : depois que se escreve um roteiro, vem a decupagem, que será a leitura técnica de cada cena, onde a posição de câmera será escolhida pelo diretor.Neste conto, a autora faz roteiro e decupagem, dá o filme pronto, numa bela sacada de literatura.

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