quarta-feira, 11 de julho de 2012

Entre nós.

    O filme começa, o cheiro de pipoca sobe, os cochichos cessam e as luzes amarelas das laterais se apagam. Na primeira cena cômica escuto uma risada e riu dela, é sem pudor, sem aquele receio de rir sozinho no cinema ou de rir de desgraça em público. Tento me virar pra olhar, vejo que entre nós há um homem um tanto calvo, de gesto e olhar compenetrado. Vou um pouco com a cabeça pra trás e não consigo vê-lo. Decido que vou esperar a próxima cena engraçada e olhá-lo, pois ao contrário da sua risada, meu olhar tende a ter receio do olhar dos outros para o olhar que busca olhar um estranho, um completo estranho numa sala de cinema.
    Fito o filme pensando no seu rosto, pensando nas possibilidades dessa noite se seu olhar retribuir o meu, se sua risada contagiar a minha, se nossos corpos se encotrarem na saída estreita ou mesmo no banheiro, no qual feminino e masculino ficam lado a lado. Imagino saindo lado lado com você desse cinema, uma cerveja ou um café com um desconhecido, penso numa frase de cinema pra fazer você rir: "Hello stranger!" ouvi aquela atriz... Natalie Portman, isso! Poderia usar, penso, desisto e vejo que já perdi toda a história do filme.
    Perdi a história do filme, "o que menos importa num filme é a história", disse um amigo uma vez, e lembro que assim que ele disse senti vontade de beijá-lo. E não beijei. No meio dos meus pensamentos, ouço as risadas e a dele sobressaindo, num impulso humano ou não-humano levei o corpo à frente voltei a cabeça pro lado e o vi. Olhos pequenos, que brilhavam enfeitiçados pela magia do cinema, penso que todos deveriam olhar-se no cinema, que aurea ele confere! A cena acaba e eu permaneço na posição de admiradora dos olhos de cinema, sinto a mão de uma amiga pousar na minha coxa: - Ta tudo bem? "Tudo sim!" Volto.
   Não sei quanto tempo levo pra decidir, mas levanto, ouço vozes que não formam nada inteligível, ouço minha amiga: "Mariana!", e ouço mais do que qualquer coisa meu coração, que tantas e tantas vezes desejou e nunca fora atendido. Páro em frente à ele, ele olha pra cima, encontra meus olhos com olhos que já não brilham com a tela do cinema, mas brilham de uma forma diferente. Ele também levanta, as vozes que não se fazem entender cessam, ele pisca os olhos lentamente e eu o beijo. Tudo permanece no mais completo silêncio.
    Uma risada, aquela risada, luzes acesas, a mão de Giovana em meu ombro, as vozes inteligíveis voltando com maior volume e um "Que achou do filme?", me trazem de volta. Percebo que estou sentada, olho ao redor, levanto, tento achar o homem da risada e ao longe o vejo de mãos dadas com o calvo entre nós.

2 comentários:

  1. Um conto para se deleitar ouvindo O amor é filme.
    Um novo estranho na vida da mesma personagem. Um relacionamento que nasce na essência e morre na existência.

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  2. Novamente o cinema. E pra mim é belo e instigante ver cinema desfilando seus fotogramas mágicos em teus textos tão mágicos quanto. Gostaria de te escrever um email, moleskine virtual, pra te falar de algumas reflexões,sem nada de pessoal. Mas volto ao comentário : excelentes citações de filmes,o impçulso de um encontro e o desencontro final. QAuantos belos filmes existem assim ? E "a vida é arte do encontro, embora haja tanto desencontro na vida", tô citando de memória Vinicius, onde um dia pousou a borboleta morta que você encontrou no caminho do banheiro na faculdade. Tento encontrar o conto da moça chorando com a frase final do filme de Godard. Mas não lembro o mês, e vi ontem mas não lembro onde está. Ao contrário do comentarista aí acima, acho que este teu conto é um estímulo mais cinematográfico que acústico. Tem ruídos do escurinho do cinema. Não encontrei contos escritos por você em setembro. Viagem ? Problemas?Um tempo para criar coisas novas ?Outra coisa : gostei de ver você citar os velhos Novos Baianos . Também marcaram a minha vida. E marcar é pior do que fazer gol,como eles mesmos diziam. Um abraço, Dani. Com a admiração literária de sempre.

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