quinta-feira, 5 de julho de 2012

Seu rumo- sem rumo.

    Do horizonte faziam parte as árvores secas, as cabeludas, parabólicas e bananeiras, que misturavam-se ao pôr do sol vezes laranja, vezes rosado e vezes num discreto azul gradual. Nada acontecia ali, mas lembro sempre dos pés descalços que trazia, que pela manhã ficavam úmidos e pela tarde, depois do sol secar todos os orvalhos, ficava seco e com uma crosta marrom que deixava Maria louca de raiva em meu banho.
    Maria, ah a Maria! Apareceu aqui por nada, eu tinha 1 ano, não lembro... só sei de ouvir falar. Chegou aqui com 15 anos e logo foi agregada no seio de nossa família, sempre fora linda, com pele morena feito o café da tarde que prepara, olhos esverdeados e cabelo marrom queimado de sol. E a danada com 40 anos continua uma beleza, mas deixemos nossas aventuras de lado.
    Num dia de por do sol rosado eu ouvi de longe, mas nem tanto, uma musica, parecia sanfona e dado uns dez minutos vi de longe que de fato era uma. Uma caravana de artistas, e eu que cresci ouvindo sobre a vagabundagem desse povo cigano, ao invés de arrepios de medo e nojo, me vi com olhos cheios d'agua e com o coração a pulsar como uma zabumba.
    Foi quando a vi dançando enquanto tentava equilibrar-se na carroça puxada por um burro de certo porte. Naquele momento pensei pela primeira vez, juro, no amor. Não sei se o sentia naquele instante, mas pensei no bicho, senti lágrimas escorrendo no meu rosto de moleque e corri, corri muito atrás da carroça dos artistas e a moça voltou os olhos pra mim e numa piscadela de olhos azuis deteu meu corpo, de forma que nem um passo sequer pude dar.
    Fui ter com Maria, e perguntar se sabia onde os artistas ficariam, se era só passagem ou se teriam apresentações na vila. Maria parou de mexer com a colher de pau o feijão: soltou um olhar de rabo de olho, daqueles que te fazem calar a boca com mais eficiência que um tapa de pai. Mas não calei. Heim? perguntava inquiridor, ela então, puxando uma cadeira e em tom de segredo disse que poderia me levar ao invés de irmos pra missa da tarde.
    Não acode nenhuma palavra que explique a alegria que senti. Sei que a moça cuspia fogo vestida de odalisca, de bailarina equilibrava-se com graça na corda bamba, fazia malabarismo de colan azul claro e por fim a vi espiando rindo de dois palhaços por de trás da cortina velha e improvisada. Maria estava igualmente encantada e vendo seu estado corri.
    Corri para junto da minha artista.
     - Menino! Você! - ela disse, como se fosse um velho conhecido - Sabia que vinha, estava lhe esperando...
     - Eu, dona?
     - Sim, você. Me diz do que mais gostou?
     Sem pensar muito, e nem ter certeza do que proferia, disse: - Da bailarina.
     Solta algo como um hum, ergue a sombrancelha e puxa um banco pra ela e outro pra mim.
     - Você conhece o amor?
     - Não. Mas quando vi a senhora me peguei pensando nele, mas não sei o que pensei.
     - O amor, menino, é como você viu hoje: uma bailarina equilibrista. Ele (o amor) - dizia ela num mesmo tom de segredo da Maria. - nunca estará pronto, ele não existe, ninguém sente sua plenitude pra sempre. Ele, assim como me viu hoje na corda bamba, depende do meu corpo, do vento, da sorte, da alma, ele é pura inconstância, entende?
    - Então o amor é a senhora? - disse eu olhando para os pés dela.
    - Poder ser, quer experimentar?
    Naquela noite, senti a dor e o prazer de conhecer o amor, o mordi e por ele fui mordido. Senti como no dia que meu pai me levou à praia e que depois de brincar o dia todo no mar senti, a noite toda, seu balanço, seu tragar, seu vai e vem sem fim e seu cheiro embriagador. Feito quando o corpo se entrega cansado àquela sensação de mar... Mergulhei como um louco, como um menino nos olhos daquela moça que, na manhã seguinte, tomou seu rumo- sem rumo cigano, pronta pra apresentar o amor e embriagar os meninos que olham o por do sol rosado de pés marrons, feito eu. Penso que aquela foi a única noite que toquei o amor e digo: era quente, macio e terrivelmente inconstante.

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