segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Flores do campo.

As luzes da casa foram pagadas, mas do jardim ele via uma luz: a do quarto de Lise. Sentou-se no balanço, mas não se balançou, ficou ali, parado naquele espaço, estático no jardim, vidrado na janela larga do quarto. Pensava nela, agora com frequência maior, com desejo maior, com fanatismo intocável. O que estaria fazendo ela agora? Tomando banho, talvez. Não deveria tomar - pensava o jardineiro- seu cheiro natural é o de flor do campo. Inconfundível e inebriante cheiro.
Estava tão hipnotizado que não viu que Lise havia saído da casa, e estava olhando o jardineiro, que olhava para a janela.
- Algum problema seu Bartô? - perguntou a moça.
Bartolomeu assustou-se tanto que pensou que fosse sua imaginação que trouxera ela até o quintal. Deu uma sacudida com a cabeça para verificar e percebeu que era a própria ali em sua frente. Esbugalhou os olhos e disse:
- Desculpa Dona é que eu fiquei aqui e esqueci das horas.
- Percebi. Já deu teu horário há muito! Vai pra casa, está tudo certo por aqui. E outra sua mulher deve estar a sua espera.
Apesar da mesma idade os dois se tratavam formalmente. Bartolomeu, sentia sua boca secar toda vez que ela tocava no nome de uma esposa que não existia. Não havia ninguém esperando ele. Nem uma mãe preocupada, nem um vizinho amigo, nem um cachorro vira-lata. Nada.
- Dona Lise, queria dizer uma coisa.
- Pois bem, diga.
- Não tenho esposa, nem nada não. Só tenho, mesmo esse emprego e uma casa de dois cômodos.
- Nossa seu Bartô, você trabalha aqui há anos e eu sempre mandei lembranças a tua esposa, e ela nem existe. - Disse ela rindo.
Ele ficou sem graça com a mentira convencional que fora desmanchada.
- Já vou indo, vai passar um filme hoje, quero ver se chego e o pego ainda.
- Tudo bem até amanhã, Bartô!
Ela o havia chamado de Bartô, sem o formal "seu". E tudo depois que havia dito que não tinha mulher. Lise ia andando devagar em direção à casa. Quando o jardineiro num gesto de coragem disse, até que audível:
- Lise, você tem cheiro de flor do campo.
Ela continuou andando e após uns três passos virou-se:
- Disse alguma coisa Seu Bartô?
- Não... Quer dizer, sim.
- E o que foi?
Ele teve uma nova ponta de coragem que se desfez de maneira estupidamente rápida.
- Eu disse dorme bem.
- Ah sim! Obrigada, o senhor também. Notei umas flores novas nesse canteiro... Qual o nome delas?
- São flores do campo.- respondeu o jardineiro de costas para a moça, limpando as lágrimas com as mãos sujas de terra preta, limpando as mãos sujas de lágrimas e terra na calça.

Um comentário:

  1. Um amor buñueliano? A casa às escuras mas um ponto de luz acende o desejo de um homem.Um homem que começava a ficar fanático pelo corpo de uma mulher, pelos seus movimentos, e , sobretudo, pelo seu cheiro.Ele, jardineiro, já sabia que ela não precisava tomar banho : o cheiro da sua pele, talvez dos seus pelos, era o cheiro natural de flor do campo. Um homem que lida com flores sente o cheiro de flor selvagem de uma mulher. Ou da imagem que ele tem dela, quem sabe? O conto é singelo, é bonito com esse erotismo sutil que se encontra nos filmes do grande Buñuel. A autora devia ter deixado para postar este conto de janeiro na semana dos filmes buñuelianos no seu blog. O cheiro da moça hipnotizou o humilde jardineiro . O cheiro dela, ah, o cheiro dela, que poder para drogar um homem a ponto de ele não perceber que a sua patroa olhava pela janela. A moça viu a sombra dele no jardim, sentado no balanço. E o que seria imaginação estava ali diante dele : dois jovens (seriam jovens ou mais maduros?prefiro imaginá-los jovens). O jardineiro e a dona da casa (ou filha dos donos da casa), frente a frente num jardim escuro. E o cheiro dela deveria estar mais forte ali junto dele: absinto, haxixe de Amsterdã, éter de carnaval pernambucano, cheiro de flor que não nasce na terra-terra, mas das ervas no meio das coxas DAQUELA mulher. Tudo que ele nunca provou nem provaria. E a sedução consciente ou inconsciente de uma vez, uma vez só chamar pelo nome dele sem nenhuma formalidade. Malícia, maldade, mensagem ? E o segredo do homem : nunca foi casado. E a timidez do homem : dorme bem, ao invés de falar do cheiro que sentia no corpo DAQUELA mulher. Só entendo as lágrimas pelo que não foi dito, por se sentir um tímido estúpido e incapaz. Ele devia era regar as flores com o seu próprio esperma pensando na mulher que foi ver um filme (“Esse Obscuro Objeto do Desejo”, de Luís Buñuel ?)
    Daniii: você já deve a seus leitores e leitoras um conto erótico. Um olhar feminino sobre a sedução, a sensualidade, o uso do cheiro, da maquiagem, das roupas. Nada explícito. Tudo implícito como no corpo e nos movimentos da mulher. A aranha hipnotizando o inseto, armando a teia em volta dele.
    Pra nós,seus leitores, fica devendo este conto erótico.Que acho que as leitoras também vão amar.
    Gostei muito das "Flores do Campo". Talvez eu tenha visto outro filme e não o que você escreveu no blog. Mas aí é a manipulação escritora com a fantasia dos leitores.
    O conto escrito antes redimiu o que foi escrito depois e que já comentei : o açucarado.Não fique amarrada na moral convencional, tradicional, que dá previsibilidade a tudo. Você é um mar que dança. E mesmo com a sua pouca idade já decifra os segredos mais ocultos de um ritmo sensual. Você sabe. Toda mulher sabe. Já nasce sabendo. Parabéns pelas “Flores do Campo”.

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