terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Branco e sem forma.

Ali naquela cadeira de vime velho e mofado estava ele remoendo as memórias. Memórias podres, incorruptíveis, plásticas, reais, falsas e assustadoras. Agora, ele refletia: ela não estava em nenhum lugar físico, e o pior: nem ele sabia e nem nós saberemos se ela estaria em algum lugar acessível da memória. Veremos.
O rosto desse homem é traçado e cortado em mil direções por linhas, uma para o sul outras para o norte, todas com uma direção. Sinais da autodestruição ou da experiência? Rosa dos Ventos? Veremos.
Sua vida fora um silencio. Daqueles que constroem a explicação. Sentia apenas a necessidade de ser o mesmo sempre, sem susto sem surpresas. E queria também que todas as pessoas, inclusive ela, ficassem sempre estáticas. Não gostava de nenhum movimento brusco, mas seu interior era agitado e seu ser era tosco. Ela matou-se e ele ficou ali sentado, naquela cadeira do começo, esperando que a morte tivesse piedade e o arrastasse.
Lembrou-se de sua mulher pela primeira vez com carinho. Fora triste, tinha uns olhos caídos, suas mãos eram ásperas de tanto lavar suas roupas com agua sanitária. Sempre esfregando o chão, sempre lustrando os móveis pobres, sempre e cada vez mais triste. Morreu de tristeza - pensou ele. Eu a matei? - tentava não pensar em vão.
Sempre com os cabelos desgrenhados presos por grampos pretos. Sim eu a matei, pensou no instante em que o vento tomou forma de mulher e deu-lhe um beijo na testa riscada.

Um comentário:

  1. A imobilidade domina o texto. O único sinal de movimento são as linhas que cortam o rosto do homem. Vão pro norte,pro sul, parecem ter vida própria. As linhas recusam a atender o desejo de paralisia da existência, que ele alimenta desde que começou (talvez) a se auto-destruir.Mas descubro que outras coisas se movem nesse texto,além das linhas do rosto do homem que sempre re cusou o movimento.A mulher que lavava as roupas dele, suas mãos limpando móveis, esfregando o chão. É verdade que são movimentos virtuais : ela já morreu,e a imagem é uma recordação. Se ele nunca quis mudar ,o remorso está entranhado nos desvãos daquele ser solitário. Sempre sentiu remorso em tudo e por tudo que fez. Daí, ganhou o gosto de parar tudo.Virou uma estátua. Não uma escultura de museu. ED sim uma estátua kitsch, quebrada pela vida e abandonada no lixo. Mas percebo agora que as linhas do rosto deste homem não são movimento. É o traçado tosco de uma Rosa dos Ventos,um instrumento que não se move . Apenas aponta,indica caminhos percorridos . O horizonte daquela vida girou enquanto ele permanecia estático. Mas o homem que queria tudo parado não conseguiu parar o tempo. Velhice, mulher morta, móveis destruídos.E o remorso com o única companhia. Até que a janela se abre, e um vento põe um beijo na sua testa. Seria o beijo do único ser que o amou e a ele se dedicou como uma escrava ? Seria um carinho da Rosa que se matou ? Ou é o vento da morte que veio buscá-lo no exato momento do remorso pela morte da mulher? A Rosa dos Ventos não apontava mais pra lugar nenhum . Naquela vida parada, nenhuma indicação de horizonte. A viagem acabou.O conto também. A Rosa dos Ventos , de instrumento de navegação, se transforma em signo da morte no conto de Daniii. Escreve uma coisa comum, Daniii pra gente poder te criticar.huasuahasuaha...

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