quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Os olhos das mulheres da família.

     Atravessando a pé a cidade depois das onze, vejo em cada esquina o olhar das mulheres da família. Cada uma me encara com as mãos cruzadas sobre a barriga, e elas têm uns olhos... Olhos de cores que não sei, são olhos de reprovação pela minha nudez e desbocamento, são olhos morais, sofridos, trinta, sessenta, vinte anos e olhos blues, doloridos, são todos bolas de amor sem paralelos.
     São olhos que, de tão querentes destes escassos paralelos, fazem brotar ódio. Mas vejo: são olhos pedintes, mendigos, complacentes, não- correspondidos até essa noite. São olhos que fitam suas marcas de corpo, de surra, de desprezo. São os olhos que imaginam as marcas da alma, talvez sem consciência de que o fazem. São olhos que choram e são enxugados hora pelo chuveiro, hora pelo pano de prato.
     Caminho eu pela cidade, depois das onze, com olhos de medo, assim como elas, as mulheres da família. Herança maldita e deliciosa esse olhar das mulheres da família. Mas por que me olham com desprezo? No espelho vejo em meus olhos, o sofrido olhar delas, de todas elas. As invoco! Acabemos com isso! Vejam meus olhos. Vejam seus olhos. No mesmo espelho vejo surgir todas, as de rosto conhecido e as irreconhecíveis, a não ser pelos olhos. Os olhos das mulheres da família.