sábado, 28 de maio de 2011

Já é de manhã.

- Passo ai ás 19:00 - Disse a seco.
- ok, vou por aquele vestido que você gosta, e a jóia que a sua mãe escolheu.
Ela estava tentanto concertar a situação havia algum tempo, mas como lutar pra algo não cair/quebrar, quando ele está destinado a cair de nossas mãos e espatifar no chão?
As 19:00 em ponto ele buzinou, ela deu um beijo nos pais, pegou um casaco e desceu as escadas. E ele olhava com cara de nenhuma novidade, antes ele a via descer as escadas com cara de bobo apaixonado.
- Vamos? - ela entrou no carro.
Sairam pra comemorar o que os afastaria pra sempre.
- Você pensou no que conversamos ontem? - ele perguntou enquanto tentava juntar o espaguete com o garfo.
- Sim, e conclui que eu quero você, e estou disposta a abrir mão das possíveis experiências que eu viveria lá se você não existisse.
- Você não tem certeza disso. - ele disse.
Eles sempre quiseram comer juntos naquele restaurante, e nessa noite em que foram passaram a noite tensos, prevendo catastrofes. E ela realmente não tinha certeza do que dizia, pois passou a vida inteira tentando agradar, tentando não sair fora do caminho supostamente seguro, quando no fundo ela queria se jogar sem saber o que a esperaria.
- Nós éramos duas crianças, e agora crescemos em sentidos opostos. Você não suporta meus livros, e eu não suporto seu cigarro, sua bebida exagerada, suas atitudes politicamente corretas, sua cara de tédio quando vem aqui.
- Eu te amo, e nada vai mudar isso. - ele beijou os dedos dela, beijou a aliança, que em alguns dias não estaria mais ali, e sim num compartimento secreto dentro de um livro, embrulhada num papel branco.
- Estamos bebendo e comemorando nossa separação. - ela afirmou com choro nos olhos.
- Acho que sim. - respondeu ele ,como sempre, sem choro nos olhos.

terça-feira, 24 de maio de 2011

To com vontade,

Hoje não conseguiria dormir sem te dizer isso, pois me sinto preenchida, e preciso externar: to com vontade de você aqui, de te abraçar e sentir sua mão percorrendo minha cintura, depois minhas costas, de beijar seus olhos, morder seu nariz, e fazer meu pseudocafuné (um dia eu aprendo o jeito certo). Queria você aqui, mordendo meu pescoço e minha bochecha, to com vontade de falar mal dos trabalhos, e dizer o quanto estou cansada, to com vontade de ir pro nosso canto deitar e acender mais uma vez um insenço, to com vontade de Lua Cheia, to com vontade de sexta-feira, to com vontade de sentir o desenho do teu rosto com os dedos, to com vontade de dar o beijo da Amelie (agora do jeito certo), to com vontade de ler Arnaldo Antunes e de você me contar de algum sociólogo maluco que acredita em darwinismo social, to com vontade de te ligar pra dar risada e de ouvir você dizer do nada: sua linda! To com vontade de você, da sua pele, do seu cheiro, do teu cabelo, do seu jeito de olhar, e do gaguejo charmoso,rs. To com vontade de sentir a energia boa que você emana! To com vontade de você continuar me fazendo feliz, e nutrir um companheirismo bonito.
To com vontade de você roubar mais um beijo, to com vontade de ouvir seus projetos e ser parte dele, to com vontade de sentir sua sede de transformação, de fazer as coisas acontecerem, de mostrar força de ir em frente, to com vontade de começar a dar aulas de teatro no futuro centro cultural. To com vontade de seguir esse caminho lado a lado com você. E ter Maria, Vitor, Cecília, Benício, Bernardo, Zoé
e Sebastião.

sábado, 21 de maio de 2011

Ainda há.




- Querido pega o jornal lá fora pra mim. To com tanto frio... Não queria nem levantar da cama hoje.
Rafael tinha a testa toda cortada pelo tempo, que cravou rugas que não são contáveis. E era engraçado como o tempo poupou Lúcia, era uma senhora linda, como dizem por aí, ela estava inteirona.
Moravam os dois na casa azul, virando a esquina, depois do bar do Benê. Acendiam incensos todos os dias, regavam as plantas e ela fazia bolo de amora pra receber os dois netos aos domingos.
- Falta tanto tempo pro domingo chegar né Lucia? Fico aqui aginiado com o silêncio da casa. Mas também não gosto de destruir o silêncio de qualquer forma. A quebra, a ruptura do silêncio só é digna quando é feita por crianças... Ando com os ouvidos cansados Lú.
Ela levantou-se da cama, encostou o corpo ao dele, pousou a cabeça no peito dele e disse:
- Quanto tempo não? E estamos aqui, esperando a morte um do outro, esperando pra ver quem perde a lucidez primeiro...
Ele olhou com os olhinhos apertados, cheios de lágrimas.
E ela disse baixinho: - Chora homem, não precisa mais ter vergonha de nada. Estamos em tempos de não haver vergonhas. Está tudo tão corrompido em nós, não é mesmo? E o que devemos fazer é corromper a vergonha também. - e disse isso, feito a mãe que consola o filho quando perde a primeira namoradinha.
E ele deixou-se levar pelas palavras, chorou feito bebe. Um bebe de cabelos brancos... Ela sempre foi mais forte que ele, sempre o protegeu, sempre disse nos momentos difíceis: temos um ao outro! Parece poesia fácil, e seria se fosse qualquer outro casal. Não consigo passar o que existe entre eles com fidedilidade, pois nunca experimentei esse companheirismo verdadeiro.
- Sabe Lú, até ontem com 79 anos nunca havia sentido cansaço, e hoje, pela primeira vez, eu sei dizer o que é estar cansado.
E uniram as bocas cortadas inteiramente por riscos verticais.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Sente.





Sonhei com você debruçada num balcão feito aquele em que o Lorca fazia suas poesias. Lembra? A gente viu num filme, que eu odiei. Mas assisti porque enfim, gosto de te agradar, ou melhor gostava. No bacão tinham flores coloridas, você chamaria de flores do campo, mas não sei se são. Eu só te dei rosas não é? Quanta bobagem! Mas você gostava mesmo eram de damas da noite, ervas daninhas e plantas carnívoras... Deveria ter te dado uma planta carnívora genéticamente modificada... Pra ela te devorar, antes que desse tempo de te odiar.
Lembra, quanto te dei um colar de perolas?
" - Luisa, tenho um presente, é uma coisa que transpassa gerações...Pertenceu à minha bisa, e agora sinto uma vontade imensa de entregar à você."
Desamarrei o laço dourado, e tirei o presente do saquinho de veludo vermelho.
" - Pérolas? Não não posso Pedro."
" - Que isso, não... É de coração, você é a mulher que merece receber essa jóia."
" - Mereço?"
Ela ficou reticente, olhando pros meus sapatos. E sem levantar o olhar disse:
" Você sabe de onde vem as pérolas?" antes que eu pudesse pensar em responder, ela disse com os olhos ainda nos sapatos.
" - Ela surge da dor. A ostra sente dor ao produzir a pérola... Você gostaria de carregar a dor de alguém? Porque eu não, mal posso suportar a minha."
Levantou os olhos, mas não me olhou. Olhava pra algo no fundo, e tive muita vontade de me virar pra ver o que ela olhava enquanto falava aquelas baboseiras de sempre.
Que dor ela teria? Eu dava tudo, tratava ela como uma princesa. Afinal que dor era essa que ela não podia suportar?
Ela fugiu, saiu, sumiu e agora aqui dentro do metro sonhei com você. Não quero saber que sinto sua falta! Mas sinto tanto, e sem nenhum resultado, que agora a falta e a saudade são lúcidas.
Lembra quando te encontrei pela ultima vez? Você mentiu, sei que sim.
" - Eu te desculpo por todas as besteiras que você disse e por me deixar sozinho, mas volta comigo pra casa. Ta todo mundo lá achando que eu tô louco... Vem Luisa, vem provar que loucos são eles!"
" - Não posso Pedro. Estou morta."
Eu sei que você mentiu. Por que fica todo mundo querendo me enganar? Se você não quer assar o pão pra mim de manhã, se não quer colher manjericão no quintal pra temperar o molho do macarrão, se não quer fumar umzinho comigo tudo bem Luisa, eu tento te entender. Mas não vem com essas mentiras! Isso dói.


ps: a aquarela linda é da Karise :]

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Várias coisas num corpo só.

Ele é tão foda, que consegue cantar coisas tristes de uma maneira engraçada e leve. Daí você pensa, como a tristeza é engraçada/boba :]
Curtam Jorge Ben ben ben




Agora outra coisa. O plano de fundo do blog agora, por enquanto, são cravos, pra homenagear a Revolução Portuguesa, que fez do cravo símbolo de luta e resistência, assim com fizeram os abolicionistas com a camélia, que virou símbolo da luta pela liberdade.
E separei essa foto linda:


E a música linda linda linda do Chico, que cresci ouvindo :]

terça-feira, 17 de maio de 2011

Que seja doce.

E a dor tem que ficar pra trás.
- Queria falar com você...
- A gente pode ir lá em cima.
E o pôr do Sol havia terminado, a noite ja se fazia, mas eles criarão um novo pôr do sol, na verdade um novo amanhecer. Um nascer de luz, um porvir de energia boa.
Olhavam na mesma direção, compartilhavam talvez o mesmo sonho, mas quem saberá?
E lábios pousam em lábios...


O balanço do ônibus embalou a primeira vez que te vi. Enquanto eu lia um poema minha borboleta caiu, você a pegou com todo cuidado e sorriu.
A segunda vez que te vi foi em sonho, nós caçava-mos borboletas, num lugar verde e muito vasto. Vasto mundo, como disse Drummond, mais vasto é meu coração. Mas nem eu sabia se seu coração era vasto, nem você sabia nada sobre o meu. E sempre que te via pensava: preciso falar do sonho.
O sol nos esquentava e eu tinha comprado um presente de aniversário pra você. Parece bobo, mas eu estava ansiosa pra entregar. E quando eu mostrei você disse: Amarra em mim, agora você anda sempre comigo. E senti a alma sendo pintada, e ela tornou-se uma aquarela de criança.
Você tinha terminado com ela, e tinha os olhos inchados. Essa foi a terceira vez que te vi.
Na quarta vez que te vi, você tinha um presente pra mim, um livro lindo, com a cor de velho e o cheiro de coisa antiga, e disse: eu escrevo nele depois. E alma agora era coloridade e sentia vontade de dançar.
A quinta vez que te vi, meus olhos registravam sua imagem deitada ao meu lado, fazia frio, e a Lua estava sobre nós, como que em uma cermônia não humana. Você esquentava as mãos na minha barriga.
A ultima vez que te vi... Não sei quando será. Pois essa visão não é física, ela vai além, ela é como esse algo misterioso que existe entre nós, que faz querer bem, querer juntar os corpos, fazer com que eles se entendam. Não sei se a felicidade será uma constante, mas o que importa agora é o estar... E eu estou feliz.
Estive perdida, e agora sei que estive cega. Mas agora... Agora eu te vejo, e percebi que é um egoísmo acreditar em todos os pesadelos.
Estamos aqui por um instante. E eu quero você do meu lado, todos os dias e todas as noites. De novo, de novo, de novo. Que seja doce.


Cólica, cólera.

E sol entra, ela levanta a blusa e deita-se na cama, em uma posição que ele bata no ventre. E fecha os olhos pra sentir o calor no útero seco. É branca... Está mais magra, também depois de tanta desilusão é compreensível que esteja. A moça seca atrai os olhares mais devotos, mas o olhar que ela deseja atrair está longe longe... Fitando uma piscina ou uma menina de pele morena, bem morena. Sente um pricípio de cólica e o calor é um ótimo conforto, pois os remédios não tem mais efeito.

sábado, 14 de maio de 2011

Tom, aflito e só.

Estava linda em uma saia azul florida. Haviam quase dez anos que não nos víamos, mas certas coisas não mudam, ou melhor não se esquece, ela disse depois de uns dois minutos:
- Você roubou todos os sonhos.
- Não precisamos falar as mesmas coisas... Já dissemos tudo isso. - eu disse mais uma vez.
Não queria falar sobre o tempo já passado, queria mesmo era sentir aquela energia que vinha dos olhos dela, a pele bonita que brilhava no nariz. Os cabelos sempre mal presos... Eu sempre pedia depois que fazíamos amor, pra que ela prendesse o cabelo... E ela continuava com o frescor jovem. Haviam passado dez anos desde que eu a havia deixado. Errei muito, mas agora não é tempo, e nem há tempo pra concertar tudo isso.
Agora ela está com o cabelo mais claro, a pele está mais branca ainda e continua usando óculos de aro grosso.
Se houvesse tempo... Minha vontade é cantar como num dia de karaokê de bar: "Ainda é cedo, cedo, cedo, cedo, cedo..." Mas não quero pensar. Só quero poder olha-lá.
Nem foi preciso perguntar da sua vida: tem uma aliança na mão esquerda. Eu a faria muito mais feliz, mas me deixei levar pela razão naqueles tempos. Hoje poderíamos ter a famíia mais linda da cidade. E filhos? Será que ela tem?
- E você como vai? Aquela sua namorada... continua com ela?
- Não. Não deu certo... Ela me traiu.
- Juro que não foi mal olhado.
Nós rimos.
E o que dizer do sorriso? Os olhos ficam mais pequenos, as bochechas sobem. Ela sorria pra mim antigamente, hoje ela ri de mim, comigo, mas não pra mim. Como pude deixar isso escapar?
- Bem, eu preciso ir, apesar de doer muito ainda. Eu nunca te desejei mal...
- Sei disso Catarina. Mas por que a pressa? Nós poderíamos sei lá, tomar um café.
- É que estou esperando...
Antes que ela terminasse a frase, voltou os olhos na direção de um homem segurando a mão de um menino de uns dois anos.
- Esse é o Heitor, meu marido... E esse é o nosso pequeno grande Sebastião!
E antes que eu pudesse fechar os olhos e abrir, querendo estar sonhando, o cara estendeu as mãos. E eu apertei. Apertei as maõs que apertavam ela agora.
- Prazer! E você quem é?
E ela respondeu por mim:
- É um amigo da escola, estudamos juntos no ensino médio... É o Roberto.
Ela mentiu sobre meu nome. Ainda não tinha perdido o costume das mentiras... Mas se não quis dizer meu nome é porque ela ja falou de um Tom pra ele. Já sei! Ela enquanto ele faziam amor, alguma vez deixou escapar meu nome, tenho certeza.
Me deram um "tchau Roberto" em coro, e foram andando os três de mãos dadas. Não posso ser infantil e dizer que não era aquela uma bela família. Catarina nem olhou pra trás, num gesto de saudade, o único que olhou foi o Sebastião. Que com certeza sentiu que eu é quem era pra ser seu pai.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

E meus olhos teimam em ver você.

E meus dedos enroscam nos teus cabelos. E a carne poe-se a frente dos órgãos e todas as coisas burocráticas. Tão pouco tempo, preciso reduzir, reduzir.





Ele acordou sem dia
então abriu o céu com você
Teve tempo de molhar os punhos
e coragem pra secar os olhos

Ela sempre vê bobagem
lê dentro de mim no escuro
só ela sabe o que

Vamos deixar isso entre ele e você
vamos sonhar isso entre ele e você
vamos sangrar isso entre eu e você

Se é pouco que eu vejo, é muito
o que meus olhos teimam ver, em você
o que ainda está aqui
ainda que

Vamos deixar isso entre ele e você
vamos cantar isso entre ele e você
vamos sonhar isso entre você e eu

Por que deu errado?
Por que fez saudade?
e choveu o rio
e secou o dia
Por que deu saudade?
Por que fez errado?
Por que secou o rio e choveu no dia?

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Secreto.

"E mais um avião colide na Lua! E ninguém faz nada pra conter os pilotos piratas! Onde está o partido? Onde?" O apresentador do telejornal diz gritando e provavelmente cuspindo na camera. Desligo o aparelho estranho e deito no chão. Hoje vou dormir no chão, preciso melhorar minha coluna, quem sabe funcione... Quero pensar num quarto branco, sem cheiro e sem som, onde eu poderia não pensar em nada. Mas já estou pensando no quarto branco, já estou pensando em não pensar. Já tentei todos os mantras, ervas e remédios, nada me fez chegar ao quarto branco. E você se pergunta: "pra que?" Porque quero esquecer dos rostos que vi hoje.
Estava vindo pra casa e pensei em coisas dolorosas, faz tanto tempo que estou aqui, e ainda não me acostumei com essas situações e comportamentos enraizados estranhamente. Vi uma menina, de uns 15 anos chorando no ponto do ônibus, e me perguntei quando ela entraria no estado em que chorar em público é algo inimaginável. As crianças choram sem nenhum pudor, choram por todas as coisas possíveis. E quando atingimos uma certa idade secreta, queremos ser fortes...Somos tão babacas! Seguramos o choro e achamos poético dizer que lugar de chorar é debaixo do chuveiro. Quem disse isso sociedade de merda? Lugar de choro é onde ele quiser rebentar, segurar choro faz mal, segurar choro é hipocrisia, deixem que ele venha, moças maquiadas. Depois atingimos uma outra idade secreta, em que qualquer lembrança, pode ser um cheiro, um lugar... Qualquer coisa é motivo de choro saudoso.
Escrevi no meu caderno: " Queria muito saber por que chora, menina." O fechei, e quando voltei a olhar pela janela do ônibus vi uma senhora, uns cinquenta anos, mexendo numas sacolas de lixo, separando latas de cerveja... E me perguntei: que estágio é esse? Esse não requer uma idade secreta. É um estado que não admite vergonha, nem nojo e nem pudores. É o caos, é a fome, é o ser humano despido de todas as maquiagens.
Entendem por que quero alcançar o quarto branco? Espero de verdade que essa dor nas costas passe.

domingo, 8 de maio de 2011

É de lágrima.

- Alô?
- Fala Marcinha!
- Então Hugo, queria te pedir pra fazer a feira do restaurante hoje. Meu filho acordou com febre e quero levá-lo ao médico. Sou mãe solteira, você sabe como são essas coisas... Pode ser?
Ele não sabia como eram essas coisas - não tinha filhos. Mas como recusar? Respirou fundo e então:
- Tudo bem, eu faço a feira. Tem muitas reservas pra hoje?
- Ah, tem algumas. E tem gente importante hoje...
"Que saco, nem conheço o famoso filho da puta e tenho que me referir a ele como importante. Importante por que? Importante pra quem?" Pensava toda vez que ouvia isso.
- Ah sim... Você vai demorar pra chegar?
- Antes do jantar já estou lá. Muito obrigada mesmo Hugo.
- Ok, beijo.
Que chatice! Trocou de roupa, pegou a chave do carro e saiu. Eram 09:00.
Levou todas as sacolas pro restaurante, guardou tudo e foi pra casa esperar a hora de voltar. Em casa ele treinava, pra não perder o costume, o falso sotaque francês. As vezes sentia-se entediado por conta do constante teatro, mas tudo bem, por seu sonho, dizia tudo bem.
17:00 e ele sai de casa outra vez, agora já com espírito afrancesado. Chega ao restaurante e Márcia já estava lá. Pelo menos isso - pensou aliviado.
- Acho que vou pedir pra que você faça a feira todos os dias... Fez tudo certinho.
- Ah bela piada! Não basta a correria da cozinha?
Os dois riram e seguiram pros seus postos. Ela na recepção, ele na cozinha.
Por uma janelinha aberta na cozinha ele conseguia ver a maioria das mesas do salão. Os pedidos não paravam e ele tinha que coordenar o pessoal e visitar as mesas dos clientes... Mas um casal que acabará de chegar o fez parar. "Era ela? Mas não, estava muito diferente... Mas são os mesmos olhos."
- Marcinha! Marcinha!
- Que foi Hugo?
- Quem são eles?
- Ah um empresário famoso... lembra, o cara importante que te disse pela manhã no telefone.
- Hum... E ela?
- Deve ser a namorada oras. Pelo amor de Deus, não é hora de flertes!
- Não, não. É que ela me lembra uma mulher... na verdade uma menina. Mas é besteira, devo estar me confundindo.
- Olha só o pedido deles. Tenta dar uma adiantada e visitar logo a mesa deles, está bem?
"Mas será? São os mesmos olhos, as mesmas bochechas rosadas... Preciso saber se é ela, e como veio parar aqui." Sentia um queimor por todo corpo. A mulher que por anos tentou esquecer sem sucesso estava ali bem a sua frente e com um cara "importante". Sim. Era ela, não havia mais dúvida. Era ela, a mesma que o havia feito chorar todas as noites, todos os dia 09 desde que se fora. " Eu é que vou preparar esse prato!" Anunciou à cozinha. Foi ao canto mais escondido e chorou. Chorou muito preparando o prato do casal. "Eu mesmo levo!" E foi, com passos inseguros, os olhos vermelhos servir-lhes.
Olhou bem fundo nos olhos dela, e ela o reconhceu. Mas não deixou nenhuma palavra escapar. Percebeu depois, de longe, que ele passava a mão no rosto dela, como quem pergunta se há algum problema, e ela balançando a cabeça negativamente.
Começaram a comer, e ele fez um gesto chamando Márcia.
- Querida o prato está muito salgado.
- Só um minuto senhor, vou chamar nosso cozinheiro.
Márcia veio apressada e Hugo sabia muito bem o motivo.
- Hugo, teve algum problema com o prato... Tenta enrolar eles. Sei lá, diga que é uma técnica francesa... ou coisas do tipo.
Ele foi andando, agora seguramente do que fazia.
- Pois não senhores?
- Notamos o prato muito salgado.
Ela mantinha a cabeça baixa.
- São lágrimas.
- Ah sim... Que? Como disse? - o homem perguntou achando ter ouvido errado.
- Lágrimas!
E percebeu nos lábios dela um tremor no canto da boca.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Cai logo, tempestade!

E sinto uma tempestade se formar dentro de mim, os olhos veem escuro, a garoa fina começa. Mas quem disse que ela veio pra ser garoa? Ela quer derramar sobre tudo sua densidade, sua força. Quer cair sem roupa ou maquiagem. Ela será tão forte, que ficará na primeira página dos jornais por dias. Será tão forte que os amantes deixarão de se amar, pois nem conseguirão sair de casa. Todos ficarão com a pele verde de tanta umidade, e entre os dedos irá surgir mofo, bolor.
E então quando todas as relações humanas forem destruídas pela tempestade, ela passará, e as pessoas tentarão edificar os sentimentos. Aos poucos limparão o mofo... Os amantes, antes verdes, ficarão aos poucos amarelos e depois ,enfim, voltarão à sua cor natural. Quero te pedir: Cai logo tempestade! Todos nós precisamos ver o edifício desabar, para depois, edificarmos tudo.

domingo, 1 de maio de 2011

Trust in me, baby.

Mais um dia, outro dia, novo dia. Mas, o que ele tem de novo? Nada. Ela acorda pontualmente ás 7:07, toma café, não penteia os cabelos e vai trabalhar. Pega dois transportes públicos, que pra variar são cheios de tarados desinteressantes, e quando lá chega tem que aturar o chefe, que pensa que por status ou dinheiro ela renderá as pernas, a pele e as carícias. E o pior de tudo, ele geralmente escosta nos cotovelos dela e olha enquanto ela boceja, duas coisas que, para ela, são extremamente irritantes.
Trabalha o dia inteiro sob os olhares dos machos de plantão. Que são estranhamente atraídos pelo não-sorriso da moça. Que teria ela na cabeça? E os mais safados diziam: "Quieta desse jeito... deve ser quente na cama." E o chefe pensava: "E se eu aumentar o salário?"
Só existia um momento que ela sorria. Que contarei mais tarde.
Todos contavam os segundos para que o expediente terminasse, mas ela contava muito mais ansiosa, que todos os trabalhadores do mundo juntos; pois queria abrir seu único sorriso do dia. Mas não podia ser ali.
20:00, e ela sorria por dentro: acabou!
Sentia-se melhor nos ultimos dias, pois agora conseguia falar com seu único ex-namorado e não dizer: "Não posso mais viver sem você". Isso era bom, depois de tanto tempo chorando sem sorrir no final, tinha ela alcançado uma meta. Tudo bem que era uma pseudoindependência... Mas não dizem que uma mentira em que se acredita vale muito mais que uma verdade desagradável?
A verdade? Ela quer tanto esquecer... Mas como a moça não sabe que eu existo vou contar: ela ainda não sabe viver sem ele. Talvez sobrevive, mas engana todos muito bem.
Tira os sapatos, o vestido, a calcinha bege e entra no banho. Sai com os cabelos molhados e percebe que precisa corta-los. Não que estejam grande, mas quando ela sente ele nas costas é sinal de que já passou da hora passar a tesoura. Poe o roupão e dispensa as pantufas que havia ganho dele. E coloca pra tocar "Trust me", chora no todo decorrer da musica, e quando acaba o som e seu rosto está encharcado ela vai até o espelho e sorri.
Coloca o mesmo filme de sempre, pois assim consegue dormir. As cenas repetidas todas as noites dão sono. E ela se sente tão sozinha.