sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A porta se abriu.


- Era um sufocante outubro. Estava frio. Nunca gostei de frio, por isso mudei-me para cá. Mas vamos a história!
As meninas estavam algumas sentadas outras deitadas no tapete bege, mas mesmo as deitadas estavam com os olhos bem abertos e bastante ansiosas, esperando para que aquela conhecida e ilustre senhora contasse um pouco que fosse sua história.
- Conta-se uma história nos bordeis de Buenos Aires: de uma prostituta e de um homem que se apaixona por ela.
E noite adentro as novatas meninas ouviram aquela senhora contar-lhes sua vida. Que um dia, prometo, contarei a vocês.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Olhares, ervas, inferno.














- Eu era pequeno, tinha 4 anos meus pais viviam um casamento feito de olhares frios, com pinceladas de palavras secas, quase sempre dentro de frases rudes. Não me lembro como isso começou, em minha memória só existe a imagem das brigas, no princípio discretas -dentro do quarto. Depois as discussões escorreram pela casa, como erva daninha em terreno abandonado. E de fato o terreno estava abandonado. - Bento relembrava enquanto acendia o cigarro.
- Não precisa me falar de coisas difíceis.
_ Diga a verdade! Você nem liga! Não quer me poupar das lembranças e sim poupar a você.
Ficaram os dois olhando a rua pela janela, e por alguns minutos só a respiração dos dois era audível.
-O inferno são os outros. -disparou ele sem nenhum propósito.
- Você me irrita com essa sua intelectualidade. Sartre e você vão a merda!
Ela acende o cigarro. Ele pega as chaves e sai pela porta.
- Tudo isso, como sempre, não levará a nada. - Falava sozinha enquanto colocava agua na chaleira

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Marina, você é o mar.

Seus olhos ficaram tristes de tanto olhar a chuva. Matutava a horas ouvindo e vendo a chuva forte que caia lá fora. Pensou em tantas coisas, imaginou que era Colombina, sentiu o peito apertar, como um desejo de gritar. Lembrou das contas pra pagar, que tinha que comprar um álbum novo e percebeu que as rosas que havia ganho do Eduardo já estavam murchas no vaso amarelo.
Marina fora alegre, mar de sorriso fácil, rosto limpo sem pintura, era bonita de tão simples, era mortal de tão bela. E agora? Estava verde esperando ser sacudida. Mas o que? O que faria aquela mulher sorrir? Trocar os móveis, pintar o quarto, comprar rosas? Já fizera tudo isso, e continuava esverdeada.
Então lembrou-se de um 3 de outubro em que o circo passou. Se viu correndo pela casa, com o vestido que sua avó lhe dera para usar aos domingos. Chegou ao portão e o viu, lindo e encantador. Essa lembrança a fez lembrar do quão fácil é ser feliz. Esboçou um sorriso com a boca pintada de vermelho e sentiu-se incomodada com o batom, foi ao banheiro e lavou bem o rosto. Fitou sua imagem no espelho e enxergava uma criança de rosto limpo.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Salve Noel Rosa

Aniversário do centenário de Noel Rosa, não poderia deixar passar sem nenhuma homenagem ao poeta da Vila e da vida.
Então decidi por uma das músicas que mais gosto: a sempre atual e verdadeira Filosofia. 


                          Filosofia
O mundo me condena, e ninguém tem pena
Falando sempre mal do meu nome
Deixando de saber se eu vou morrer de sede
Ou se vou morrer de fome
Mas a filosofia hoje me auxilia
A viver indiferente assim
Nesta prontidão sem fim
Vou fingindo que sou rico
Pra ninguém zombar de mim
Não me incomodo que você me diga
Que a sociedade é minha inimiga
Pois cantando neste mundo
Vivo escravo do meu samba, muito embora vagabundo
Quanto a você da aristocracia
Que tem dinheiro, mas não compra alegria
Há de viver eternamente sendo escrava dessa gente
Que cultiva hipocrisia

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Me mostre pecados secretos.




Tenho dançado muito ela por esses dias, sozinha ou com o Sinuhe. Me lembra a gnt, e me lembra felicidade. Procurem get a grip, também da nouvelle vague, é muito muito boa. Dancem aí também!

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A ópera.

   Esse é meu conto preferido entre todos que já li. Na verdade é um capítulo de Dom Casmurro, mas até quem nunca leu essa que pra mim a maior obra machadiana, irá entender, pois é um conto dentro do livro. Espero que gostem, faz todo o sentido.






É Tempo
.
(...)
“A vida é uma ópera”, dizia-me um velho tenor italiano que aqui viveu e morreu... E explicou-me um dia a definição, em tal maneira que me fez crer nela. Talvez valha a pena dá-la; é só um capítulo.

A Ópera

Já não tinha voz, mas teimava em dizer que a tinha. “O desuso é que me faz mal”, acrescentava. Sempre que uma companhia nova chegava da Europa, ia ao empresário e expunha-lhe toda as injustiças da terra e do céu; o empresário cometia mais uma, e ele saía a bradar contra a iniqüidade. Trazia ainda os bigodes dos seus papéis. Quando andava, apesar de velho, parecia cortejar uma princesa de Babilônia. Às vezes, cantarolava, sem abrir a boca, algum trecho ainda mais idoso que ele ou tanto; vozes assim abafadas são sempre possíveis. Vinha aqui jantar comigo algumas vezes. Uma noite, depois de muito Chianti, repetiu-me a definição do costume, e como eu lhe dissesse que a vida tanto podia ser uma ópera como uma viagem de mar ou uma batalha, abanou a cabeça e replicou:
— A vida é uma ópera e uma grande ópera. O tenor e o barítono lutam pelo soprano, em presença do baixo e dos comprimários, quando não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimários. Há coros numerosos, muitos bailados, e a orquestração é excelente...
— Mas, meu caro Marcolini...
— Quê?...
E, depois de beber um gole de licor, pousou o cálix, e expôs-me a história da criação, com palavras que vou resumir.
Deus é o poeta. A música é de Satanás, jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no conservatório do céu. Rival de Miguel, Rafael e Gabriel, não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prêmios. Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu gênio essencialmente trágico. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo, e ele expulso do conservatório. Tudo se teria passado sem mais nada, se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera, do qual abrira mão, por entender que tal gênero de recreio era impróprio da sua eternidade. Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. Com o fim de mostrar que valia mais que os outros — e acaso para reconciliar-se com o céu —, compôs a partitura, e logo que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno.
— Senhor, não desaprendi as lições recebidas, disse-lhe. Aqui tendes a partitura, escutai-a, emendai-a, fazei-a executar, e se a achardes digna das alturas, admiti-me com ela a vossos pés...
— Não, retorquiu o Senhor, não quero ouvir nada.
— Mas, senhor...
— Nada! nada!
Satanás suplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cansado e cheio de misericórdia, consentiu em que a ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias e comprimárias, coros e bailarinos.
— Ouvi agora alguns ensaios!
— Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libreto; estou pronto a dividir contigo os direitos de autor.
Foi talvez um mal esta recusa; dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado. Com efeito, há lugares em que o verso vai para a direita e a música para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a beleza da composição,­ fugindo à monotonia, e assim explicam o terceto do Éden, a ária de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam, sem razão suficiente. Certos motivos cansam à força de repeti­ção. Também há obscuridades; o maestro abusa das massas corais, encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso. As partes orquestrais são aliás tratadas com grande perícia. Tal é a opinião dos imparciais.
Os amigos do maestro querem que dificilmente se possa achar obra tão bem acabada. Um ou outro admite certas rudezas e tais ou quais lacunas, mas com o andar da ópera é provável que estas sejam preenchidas ou ex­plicadas, e aquelas desapareçam inteiramente, não se negando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todo ao pensamento sublime do poeta. Já não dizem o mesmo os amigos deste. Juram que o libreto foi sacrificado, que a partitura corrompeu o sentido da letra, e, posto seja bonita em alguns lugares, e trabalhada com arte em outros, é absolutamente diversa e até contrária ao drama. O grotesco, por exemplo, não está no texto do poe­ta; é uma excrescência para imitar as Mulheres patuscas de Windsor. Este ponto é contestado pelos satanistas com alguma aparência de razão. Dizem eles que, ao tempo em que o jovem Satanás compôs a grande ópera, nem essa farsa nem Shakespeare eram nascidos. Chegam a afirmar que o poeta inglês não teve outro gênio senão transcrever a letra da ópera, com tal arte e fidelidade, que parece ele próprio o autor da composição; mas, evidentemente, é um plagiário.­
— Esta peça, concluiu o velho tenor, durará enquanto durar o teatro, não se podendo calcular em que tempo será ele demolido por utilidade astronômica. O êxito é crescente. Poeta e músico recebem pontualmente os seus direitos autorais, que não são os mesmos, porque a regra da divisão­ é aquilo da Escritura: “Muitos são os chamados, poucos os escolhidos”. Deus recebe em ouro, Satanás em papel.
— Tem graça...
— Graça? bradou ele com fúria; mas aquietou-se logo, e replicou: — Caro Santiago, eu não tenho graça, eu tenho horror à graça. Isto que digo é a verdade pura e última. Um dia, quando todos os livros forem queimados por inúteis, há de haver alguém, pode ser que tenor, e talvez italiano, que ensine esta verdade aos homens. Tudo é música, meu amigo. No princípio era o dó, e o dó fez-se ré etc. Este cálix (e enchia-o novamente), este cálix é um breve estribilho. Não se ouve? Também não se ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na mesma ópera...












domingo, 5 de dezembro de 2010

Não há o que lamentar quando chega o fim do dia.

   - Ponha aquele vestido florido.- pediu ele, com a voz branda e os olhos brilhantes.
   - Faz tanto tempo que não o uso! Nem sei se ainda cabe.
   - É, faz tempo mesmo. Você fica tão clara com ele, tão cheia de vida.
   Clara foi, sem entender muito bem o pedido do marido. Era o ultimo grito de sanidade dele, era a despedida da vida real. Esse foi o ultimo diálogo verdadeiro e racional entre dois. Ela volta, e ele a olha devotamente, como se ela fosse uma santa em meio a agonia dos ardentes de fé.
   - Você está linda.
   - Mas por que queria que eu pusesse ele?
   - Queria ver você com ele, só isso.
   Há muito tempo ele fazia um enorme esforço pra não transparecer que estava podre e corroído por dentro. Clara era o único elo entre Fábio e a realidade. E aos poucos o elo ia desmantelando-se, e a cada vez era mais difícil manter-se firme. Os dois foram para a cama, e ele esperou que ela dormisse para por fim a tudo que pudesse, na manhã seguinte, lembrar Clara que um dia Fábio existiu.
   Levantou com cuidado, foi até a sala e começou pelas fotos: queimou todas e em sua cabeça repetia, coisas antigas queimam bem! Coisas antigas queimam bem! Quando não restou uma unica foto, foi ao armário e pegou um saco preto. Seguiu para o banheiro, foi colocando tudo dentro do saco : o shampoo anti caspa, o barbeador amarelo, o pós barba... Enfim foi jogando naquele saco tudo que pudesse ser um vetigio de que ele existira um dia.
   Foi indo por todos os comodos eliminando tudo, e não tinha no rosto nenhuma expressão de tristeza, nenhuma nota de saudade e em seu suor não havia cheiro de arrependimento.
   Já começava a amanhecer. Pegou a chave da casa, o saco preto e saiu.
   Clara acordou, foi ao banheiro lavou o rosto e imaginando que Fábio estava na sala, seguiu pra lá. Não o viu, achou estranho. Os porta retratos da sala não estavam mais lá.No banheiro nem a lamina de barbear nem nada. Não sentia nem medo, nem dor nem nada! Só queria alguma coisa que pudesse sentir. Sentiu loucura. Era isso, pensou, aquilo tudo era fruto de sua imaginação, na verdade estava era louca! "Isso, era depressão, hoje a tarde vou ao analista. Não há nada demais, tantas amigas já foram, ele passará alguns remédios e eu pararei de delirar." Colocou o vestido florido, e pediu um táxi.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Janela da casa azul.

 Depois de mais um dia de medíocre trabalho, ele volta pra casa. Só que hoje é diferente; entra no ônibus barulhento, sempre tem vontade de gritar pra que os outros passageiros calem a boca, mas nessa noite era como se estivesse somente ele e a solidão no ônibus. Sempre a velha solidão, essa velhinha de cabelos brancos e óculos enorme; pela manhã sem perceber, antes de sair de casa havia feito um pacto austero com ela.
   Sentia-se inerte, e especialmente hoje havia percebido que estava assim há muito tempo. Percebeu que os anos passaram, sua mulher estava velha, nem reparava mais nela. José não tinha culpa, a culpada era a vida, ela sim o endureceu, o deixou bruto e tosco, e o fazia sempre escorregar e recuar pelo caminho.
   José desce do ônibus e continua seu caminho a pé. Notou que chovera, o asfalto ainda estava molhado. No céu não havia uma unica estrela e o vento, que soprava manso, tocava sua pele rústica, seu cabelo sujo e tentava entrar pelo seu nariz quase fechado pelo pó da fábrica. A brisa tentava por vida dentro do pobre diabo, mas nem isso era possível. Chegou a sua casa, parou para observa-lá da calçada, era simples, lembrou que tinha economizado por muitos meses pra pagar pintura azul da casa.
   Entrou e encontrou sua mulher fazendo bordado enquanto assistia televisão. Ele reparou nos calos, nas rugas, nas cicatrizes, e notou o quanto não conhecia sua própria mulher. Não sabia de onde vinham aquelas marcas.
   - Que ta fazendo ai parado homem?! Vai tomar um banho, que eu já ponho tua janta.
   Ele, envergonhado por ter sido apanhado observando-a , obedeceu às ordens sem pensar muito, na verdade nem estava com fome. Tudo que ele queria era entender o havia acontecido com ele, e saber quem era aquela mulher que se dispunha a por sua janta.
  Entrou no chuveiro, e tomou uma decisão. Ao sair do banho lá estava a mulher encostada na pia olhando fixamente o piso. José respirou fundo e perguntou:
   - Rosa, você me ama?
   - Mas que pergunta meu deus! Pra que isso a essas horas? - ela rebateu envergonhada com a pergunta.
   Ele, então também sentiu-se envergonhado.
   - Não sei, é melhor mesmo parar de pensar nessas besteiras...
   - Amo.
   - Que?
   - Você não me perguntou se eu te amava?
   - É.
   - Pois então, respondi que amo. - Disse, olhando de novo para o piso.
   - Rosa, você ia achar besta se eu pedisse pra dançar com você?
   A mulher, sem responder foi até o aparelho de som e colocou um disco antigo. Começou uma balada que os dois gostavam muito: " Eu não me acostumo sem seus beijos. E não sei viver sem seus abraços. Aprendi que pouco tempo é muito se estou longe dos seus braços [...]"
   Toda a vizinhança notou a música que vinha da casa de seu José. Naquela noite todos perceberam  a felicidade que transbordava, pela janela carcomida pelo tempo, do quarto da casa azul.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Volta elefante, volta vacilante.

   Esse poema, marcou muitas fases da minha vida, e já atribui a ele muitas interpretações. Diria que é um poema que se encaixa onde eu quiser, já o li feliz, triste, com raiva e com luz. Enfim, agora o coloco aqui, pra marcar uma nova fase da minha vida, hoje pela manhã eu li ele com a alma leve e feliz, de peito e sorriso aberto. Adoro elefantes, é uma coisa desde criança, acho que começou com o rei Babar, e depois agreguei outros motivos pra gostar tanto deles.






Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos móveis
talvez lhe dê apoio.

E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
é a parte mais feliz
de sua arquitetura.
Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.

Eis meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê nos bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa
as formas naturais.

Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo sozinho.
É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há na cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.

Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos,
esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.

E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
e todo seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.
Amanhã recomeço.