sábado, 15 de dezembro de 2012

Cinza

O Grande... Te coloca na boca, segura, meio entre os dentes, meio entre os lábios enquanto procura, procura, procura, procura o fogo. Te dá uma ajeitada com a ajuda dos dedos, contrai a sombrancelha e o queixo vai um pouco pra frente. Arranja um lugar onde não venta, pra que vento? Pra que o "soprar do vento"? Melhor que não haja... Depois, depois que o fogo começa a consumir, talvez um bom vento seja bom. Talvez.
E então eis que começa o ritual, entre os dedos, entre os lábios ele te suga, te puxa, te sorve e como n'O Elefante de Drummond "[...] todo seu conteúdo de perdão, de carícia, de pluma, de algodão, jorra sobre o tapete, qual mito desmontado." Ao lado, num recipiente cinza, meio espelhado, seus restos, suas cinzas vão sendo jogadas talvez ao vento, talvez ao acaso. Ele te expulsa em forma de fumaça com vigor, como que se dando conta do mal que você lhe causa. Como o corpo num impulso de defesa. Defesa tardia. Ou ainda é cedo? Talvez a consciência do mal só venha depois, após os anos, após não ter nenhuma carta escrita, nenhuma recebida, tavez uma escrita mas não enviada. Mas num impulso animal, ele expulsa num sopro forte toda a fumaça. 
Por fim, o ultimo trago. Sim, trago. Ele te tira da boca e te olha... um observador, um analista, um doutor, um arrependido. E entre os dois dedos, polegar e indicador, com unhas, assim como os dentes, amarelas: te apertando, te apaga. Talvez seu fim, não o dele, seja o vaso sanitário, a terra, o vaso de uma planta, a rua, ou entre as pedras, suas velhas amigas.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Minha boca anda oca

Em meio as escadarias de São Luís você me pega no colo, me beija, me verte, me sorve e me leva pra casa no colo. Agora não sei quantos quilometros de terra, água e ar nos afastam. Agora a água quente do meu banho contrasta com os banhos frios que ai tomei, do nosso banho frio, do nosso chão de banheiro, da nossa cama molhada, da nossa varanda, dos olhos que ardem pelo suor, ardem de desejo e resfriam de arrepio a pele. Sua pele moura, minha pele francesa. Sua alma mineira, minha alma de São Paulo, o lugar onde a "ganância vibra e a vaidade excita".
- Nos trombamos, como dizem lá em sampa, mineiro...
- Vem cá. Dorme aqui comigo, coça minhas costa... isso mais embaixo. Ê paulistinha, você vai embora. Quanta loucura.
Agora corto as unhas que cresceram na viagem e aos poucos lavo a roupa com ares dai, ares seus, com alguma coisa sua, com vestígios de suas mãos enormes que passaram pelas roupas, por minha pele, meu cabelo, minha boca, minha mordida, sua mordida, esses olhos profundos que não saem da minha memória. Eu na ponta do pé, você sorri e me agarra pela cintura... "Parece que tudo e todos que me fazem esse bem vão embora".
Nada vai embora, meu mineiro, tudo que vivemos ajudam a construir, aos poucos, o que somos e quem seremos. Eu só desejo que o sonho semeie o mundo real.