sábado, 14 de maio de 2011

Tom, aflito e só.

Estava linda em uma saia azul florida. Haviam quase dez anos que não nos víamos, mas certas coisas não mudam, ou melhor não se esquece, ela disse depois de uns dois minutos:
- Você roubou todos os sonhos.
- Não precisamos falar as mesmas coisas... Já dissemos tudo isso. - eu disse mais uma vez.
Não queria falar sobre o tempo já passado, queria mesmo era sentir aquela energia que vinha dos olhos dela, a pele bonita que brilhava no nariz. Os cabelos sempre mal presos... Eu sempre pedia depois que fazíamos amor, pra que ela prendesse o cabelo... E ela continuava com o frescor jovem. Haviam passado dez anos desde que eu a havia deixado. Errei muito, mas agora não é tempo, e nem há tempo pra concertar tudo isso.
Agora ela está com o cabelo mais claro, a pele está mais branca ainda e continua usando óculos de aro grosso.
Se houvesse tempo... Minha vontade é cantar como num dia de karaokê de bar: "Ainda é cedo, cedo, cedo, cedo, cedo..." Mas não quero pensar. Só quero poder olha-lá.
Nem foi preciso perguntar da sua vida: tem uma aliança na mão esquerda. Eu a faria muito mais feliz, mas me deixei levar pela razão naqueles tempos. Hoje poderíamos ter a famíia mais linda da cidade. E filhos? Será que ela tem?
- E você como vai? Aquela sua namorada... continua com ela?
- Não. Não deu certo... Ela me traiu.
- Juro que não foi mal olhado.
Nós rimos.
E o que dizer do sorriso? Os olhos ficam mais pequenos, as bochechas sobem. Ela sorria pra mim antigamente, hoje ela ri de mim, comigo, mas não pra mim. Como pude deixar isso escapar?
- Bem, eu preciso ir, apesar de doer muito ainda. Eu nunca te desejei mal...
- Sei disso Catarina. Mas por que a pressa? Nós poderíamos sei lá, tomar um café.
- É que estou esperando...
Antes que ela terminasse a frase, voltou os olhos na direção de um homem segurando a mão de um menino de uns dois anos.
- Esse é o Heitor, meu marido... E esse é o nosso pequeno grande Sebastião!
E antes que eu pudesse fechar os olhos e abrir, querendo estar sonhando, o cara estendeu as mãos. E eu apertei. Apertei as maõs que apertavam ela agora.
- Prazer! E você quem é?
E ela respondeu por mim:
- É um amigo da escola, estudamos juntos no ensino médio... É o Roberto.
Ela mentiu sobre meu nome. Ainda não tinha perdido o costume das mentiras... Mas se não quis dizer meu nome é porque ela ja falou de um Tom pra ele. Já sei! Ela enquanto ele faziam amor, alguma vez deixou escapar meu nome, tenho certeza.
Me deram um "tchau Roberto" em coro, e foram andando os três de mãos dadas. Não posso ser infantil e dizer que não era aquela uma bela família. Catarina nem olhou pra trás, num gesto de saudade, o único que olhou foi o Sebastião. Que com certeza sentiu que eu é quem era pra ser seu pai.

Um comentário:

  1. Quem rouba os sonhos ? A mulher que mente ou o homem ansioso e aflito porque sabe que vai ficar só. Novamente.E ela mente de novo sobre o nome dele. Mas o final é ótimo.O olhar do menino para o pai que seria. O tom certo do olhar para um Tom desafinado.Gostei muito.

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