quinta-feira, 7 de junho de 2012

Chore, minha criança.

   Encosto no teu peito magro e você segura minha cabeça com a palma da mão fazendo confudirem-se seus dedos e meu cabelo laranja.
   - Queria te levar na cidade onde nasci.
   - Adoraria, você sabe. Podemos ir nas férias de fim de ano e fazer um filho lá. -você responde sem perceber meus olhos muito úmidos.
   Sabe, me apaixonei por ele por conta de sua risada. Parece piada, mas não é, juro, ela foi a mais encantadora que já ouvi, era inocente e incontida. Começo.
   Estava no sítio dos meus avós, morávamos lá eu, pai e minha mãe. Mas a lembrança está na cozinha dele, era enorme, um tanto pobre e vazia, mas enorme. Estava sentada, com as pernas abertas só de fralda. Olhava com o rosto todo amerelo, das mangas que chupava sem parar, para minha avó, que retribuia o olhar com um sorriso que até hoje não sei o significado. Mas mesmo sem saber a real intenção eu abria um sorriso de farpas nos dentes pra ela, que sorria e balançava a cabeça negativamente, coisas de premonição de avós, não sei.
   Era um sorriso igual ao que ela soltava quando segurava a tampa da panela para que os caranguejos não fugissem. Poxa, os caranguejos, lembro. Sentia uma enorme alegria quando meu pai voltava a noite com caranguejos, minha mãe também, mas a felicidade dela era pelo simples fato dele voltar pra casa, ele tinha fama de mulherengo - riu. Mas enfim, adorava os bichinhos cozidos por minha vó. Lembro do exato barulho que emitia ao chupar as patas dele, era infinitamente delicioso!
   - Podíamos fazer um dia, que acha? -você interrompe.
   Não te respondo. Você não percebe nem as lágrimas, nem a vermelhidão de meu rosto, e acha que estou esperando mais palavras e solta um som, como se fosse começar nova frase, mas ficamos em silêncio.
   Lembro mais uma vez de sua risada e da paixão que ela me desperta quase todos os dias; de sua sensibilidade e tato com todas as minhas confusões. Lembro do dia que me conquistou:
   - É todo e puro encanto essa tua confusão.
   Sabe, procurei por isso desde o dia que decidi procurar por algo... alguém que sorrisse pra mim verdadeiramente e que não tentasse pôr ordem em meus pensamentos. E você é esse algo, pois muito pelo contrário, você os rega e os vela como um jardineiro.
   Continuo: As vezes acho que não tenho identidade. Saí de lá muito cedo, e logo fui engolida por esse lugar, essa cidade desvairada, que comeu minhas origens, usurpou e riu de meu sotaque quando criança. Me perguntei várias vezes porquê não resisti. Mas penso: era só uma criança.
   Estou fora do alcance de seus olhos, a única coisa que vê é a ponta do meu nariz, e, mesmo assim, você me aperta forte e leva os dedos aos meus olhos, como que sabendo do meu choro. Enxuga, como pode, as lágrimas, chupa seus dedos molhados e diz, com a vóz doce e pausada: Chore minha criança.

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