domingo, 20 de maio de 2012

Cadência.

O céu nunca ficou tão igual a aquele dia como hoje no entardecer. Não era só um misturar de rosa, laranja, nuvens perdidas e sol pela metade. Era mais, era como se fosse um desenho que nada tinha de pedante, era inocente, mas não idiota. Era beleza de mulher desinteressada, capturada no cotidiano, naquele momento banal de afastar fios inexistentes dos olhos, de apertar a nuca na escada rolante.
  Pronto, mirei o horizonte e fui tomada- banhada por nossas lembranças. O exato instante em que esse ceu que vi hoje aconteceu, foi quando você ia partir pra uma viagem um tanto longa, íamos ficar um bom tempo sem nos ver, coisa inconcebível prum amor rosado, cheirando a damasco como o nosso.
   Fechei o portão, ia te levar no ponto do ônibus, nos viramos e lá estava. Você logo se posicionou atrás de mim, envolveu minha cintura, abaixou-se muito a fim de encostar o queixo, com um curativo do seu ultimo porre, em meu ombro esquerdo. "Olha só." Você disse. Ficamos uns minutos assim, não sei precisar quanto, nesses assuntos quanto menos forma e aritmética melhor. O amor, ainda mais esse tipo de amor, dispensa métricas e metros. "Tô atrasado!"- você sentencia.
   Suspiro alto no portão e dona Lindalva, velhinha faladeira e muito chata vem se aproximando... "Tá sabendo que a Aparecida casa hoje?" "Não", respondo sem pensar muito na resposta. Mas completo: "Pro azar dela". A velha Lindalva é surdinha pra minha sorte. Todos os sonhos azuis que nós matutamos juntos agora inundam minha roupa, entram pelo portão, invadem a sala de estar, a despensa e o vaso sanitário.
   Tinhamos um amor infantil, sem problemas. Agora todo e qualquer amor soa bobo, precisamos nos preservar, calar sentimentos, chamam de maturidade emocional. Nada de declarações pela madrugada. Nada de chegadas emocionadas.
   Volto pra dentro de casa e decido passar uma vassoura pela casa, e assim, expulsar assim os sonhos que outrora eram o perfume ambiente e que agora eram partes integrantes da poeira nos cantos difíceis de limpar. Sento no sofá, ligo e desligo o aparelho de televisão algumas vezes, acendo o cigarro, encho o copo de coca-cola, passo margarina numa torrada. Passo a tarde assim, como o copo entre as pernas abertas, sem coragem de ver novela, nem programas de auditório pois sempre aparecem casais apaixonados, famílias formais com filhos lindos. Filhos. Já pensei em tê-los um milhão de vezes, mas sempre escuto: você é nova, e mais: quem seria pai? Mas penso na inutilidade do pai. Me olham estranho,para eles não seria saudável ter filhos sem pai.

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