quinta-feira, 17 de maio de 2012

Limo.

   A porta, de um suposto jacarandá, que se apresenta pesada e sombria, me causa uma repulsa imensa. Saio e sinto como se uma nuvem de espuma cobrisse meu rosto e, em seguida, fosse sendo retirada pelo vento rasgante de maio, ficando ainda algum tanto nos cabelos. Quanto mais rápido eu andava mais frio e desprotegido da espuma ficava meu rosto. Sentia-o arder e corar muito. Encontro uma padaria, seria ótimo me abrigar e tomar um café, mas não posso. Sigo em passos rápidos. Um farol me barra. Fecha. Fico cantarolando uma música do Jobim que vi no comercial de uma coletânea sua.
   Abre. Fito a fachada de uma sexy shop com rabinho de diabo, e me esqueço do sinal. Fecha. Fico puta. Aprendo a prever: quinze segundos é isso? Testo outra vez. Isso! O farol para pedestres fica verde por 15 segundos. Testo mais três vezes, atravesso e resolvo entrar na lojinha com rabo. Um homem, um menino não sei... Usava suéter colorido, não tinha nenhum sinal de barba e era muito branco entra comigo. Prendo o cabelo no alto da cabeça, passo os dedos na franja e fico andando pela loja. Ele, o rapaz sem barba, entra e fita a tv no alto durante todo o tempo em que dou a volta e decido sair.
    Sinal aberto, corro sobre o salto largo e baixo e do outro lado da rua vejo que ele ainda olha a tv no suporte de ferro, acima de umas calcinhas muito pequenas. Continuo em linha reta, passo uns três quarteirões e entro num sebo. Sinto que era ali que deveria chegar. Pergunto de um título qualquer, pra quebrar a estranheza. A mulher, que fuma um filtro vermelho aponta e resmunga, com o cigarro na boca, algo que não consigo entender. Sigo a direção que seus dedos amarelados indicaram e fico lá, passando os olhos sem nada procurar. Acho que demorei uns vinte minutos nisso, até que escuto um suspiro forte, enfadonho e vejo que a mulher levantou-se e vinha na minha direção, agora com os cigarros nos dedos. Senti que seria grossa. Não foi. Sorriu e apontou um título, disse ser bom. Sorri de volta.
   Me deixou lá. Podia roubar livros, estava com bolsa e até olhei pro alto a procura de alguma câmera. Nada. Senti enorme simpatia pela mulher do sebo, ela confiava em mim, uma confiança tão gratuita que seria como matar um filho roubar, que fosse uma revista de um real. Tenho o livro na mão, mas continuo a procura do que me fez sair. Encontro! Leio: Bach. Na hora lembro da Lourdes, quanto tempo! Tenho o endereço ainda? poderia enviá-la o livro com uma dedicatória saudosa. Penso que sim, num caderno antigo... É, ela é do tipo que morre na mesma casa que nasceu.
   Decido comprar, deixo o outro livro num banquinho e sigo em direção ao caixa, que agora além da mulher com o cigarro na boca tem uma máquina soltando vapor d'agua, que misturava-se à fumaça do cigarro formando uma fumaça-vapor que me embrulhava o estômago. Ela: - Bela escolha! Deixe-me ver o preço. Hum. - ela entra num sebo on line e vê a quanto ele é vendido lá.
- Bom! 20 reais. - realmente nada no sebo tinha preço. Acho engraçado.
- Ok, vou levar.
   Na calçada tento acender meu filtro branco, levo o isqueiro ao cigarro, mas sou interrompida pela buzina. Levo outra vez, e outra vez a buzina. Olho em direção ao carro, era um taxi, e o homem de bigodes faz um gesto como que para que eu desvirasse o cigarro. Sorrio e desviro o cigarro, o sinal pros carros abre. Acendo e não consigo passar da segunda tragada, um enjoo enorme. Bom, pelo menos tenho uma lembrança pra Lourdinha! Inclusive vou escrever nele o trecho daquela música do Jobim... a do comercial...  Me esqueci.

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