domingo, 18 de agosto de 2013

Voy.

     Esse líquido é azul e irá se tornar amarelo.
     Freud, Victor Hugo, todos vocês, não ousem teorizar meu sentimento, minha melancolia. Tire as mãos,   tire os olhos de mim!
     Estou na aula de química: O líquido azul, o líquido amarelo, o professor gordo com cheiro de merda na boca. A menina de cabelo loiro longo, o menino de óculos, que tem cheiro ruim de boca por nunca abri-la nessa selva, ao contrário da do professor. Os seios grandes, as pernas grossas, a bunda boa.
     Eu. Nariz grande, fala nordestina, poucos peitos, muitos pelos. Roupa pobre, cabelo bagunçado e muitas vezes sujo. Unhas curtas, nunca pintadas.
     1984, Pagu, Beauvoir. Vocês não me pegam mais. Não mais. Pequenos e meus, peluda e minha, suja fedida e completamente minha. Eu transo, eu como, eu meto. Eu amo, desamo, quero e não mais. E um pouco menos. Na curva, na loucura, na nudez, no nervosismo, sinto que posso voltar. Sair, no entanto não totalmente, do alerta que criei, contei e paguei. Da defesa que veio de cima pra baixo, do duro pro buraco quente (incerto, feio e medroso).
     Dos grandes lábios, do sangue de menstruação que você chupa, do vômito que você limpa, do cocô que faz na minha frente jorra gozo de vida, de realidade, de companheiros, lágrimas e banhos não tomados. Não falo de vulgaridade. Aliás falo, e o que vocês querem com isso?
     Estou, nas quatro paredes daqui. No cigarro que apago no copo cheio até as tampas de cinzas, estive feito o copo. Poucas cinzas, de repente tantas. Está, no cheiro de suor do travesseiro, nos livros que empilhamos, nas cuecas que uso, na mesa que trabalhamos muito pouco, na cama que transamos, choramos, brigamos, discutimos, rimos. Nossa cama? Não sendo vulgar em falar de gozo e cocô, sou burguesa falando em cama que dividimos?
     Companheiro, de cabo a rabo, meu companheiro, basta que nós saibamos que não. Basta que sua unha grande me sinta, que sua alma me chegue, que nos desentendamos para depois beijar, amar, afagar e consolar.
     Comecei numa coisa, terminei noutra. Nunca se sabe o sentido de Saturno, mesmo sendo filhos da melancolia. Não me falem em coesão, em razão, em sentido, pois sou azul, que poderia ser amarelo, mas é vermelho. E quem, quem poderia prever qualquer uma dessas coisas? Se até as palavras, criaturas duras e vezes opressoras no seu sentido natural, são incertas.


Um comentário:

  1. A química na aula, a química dos peitos e dos pelos (pelos pelos se encontra o paraíso), dos corpos sujos, dos fluidos corporais. A química se fez poesia.

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