sexta-feira, 8 de abril de 2011

Ela ela ela.

- Que frio! - disse ele pra quebrar o silêncio.
- Pois é... - disse ela pra não ficar calada.
Por fora tudo era calmo, mas por dentro, os dois sentiam como se tudo ardesse num fogo. Era sufocante deixar o silêncio reinar, era preciso preencher o momento com falas, mesmo que tudo fosse vazio, mesmo que as palavras fossem uns adornos idiotas.
Os dois, mesmo sabendo que tudo dito era ruído, continuavam feito bestas colocando a mente pra funcionar, tentando quebrar o suposto gelo.
- Quando isso começou? - perguntou ele
- Isso o que?
- Isso... De um chamar o outro de amor, do "eu te amo" virar " bom dia", " boa tarde", " boa noite" e o pior de tudo: quando o "eu amo você" virou pedido de desculpa que não se pode negar?
- Quando você fechou os olhos. - disse ela, olhando pro asfalto gasto.
- E eu os fechei?
Para a pergunta veio o silêncio, que os incomodava tanto. Continuaram andando, e ele achou uma resposta que não respondia:
- Eu estou feio, sujo, barbudo...
- Eu não disse que você fechou os olhos para você.
- E por acaso foi pra você?
Novamente o silencio.
- Não quero ficar sem você Sandro. Não quero ir, e precisar me redimir pra poder voltar.
- E se você for e não voltar?
Se olharam, agora sem nenhuma vontade de que, um ou outro respondesse à pergunta.
- Hoje o céu tem estrela a beça. Lembra quando vimos o eclipse juntos?
- Lembro - ele riu - Mas não foi, propriamente dito, juntos. Foi pelo celular...
- É verdade ia ser de madrugada... Nós programamos o despertador e quando começou, era uma da manhã, você me ligou.
A nostalgia fez as palavras serem deliciosas, serem de verdade ditas, e não vomitadas. Mas a realidade... Ah a realidade:
- Preciso ficar longe de você. - ele sentenciou.
Ela não chorou e não gritou. Mas sangrou e como sangrou. E como era denso e incrivelmente vermelho o sangue da moça. Ela não tentou acordos e não ligou. Mas odiou. E mais: odiou a ponto de sair com caras babacas, fingindo ver neles um amor. Mesmo que um amor medíocre, mediano, sujo e eu diria vagabundo!
Mas ele chorou, gritou e pensava em voltar. Mas não tinha coragem de dizer à moça que estava errado (homens, sempre racionalmente ridículos). O moço finge não saber que, sentir saudade de alguém vivo é tão mortal quanto as drogas fabricadas, que ele usa agora. E tudo por orgulho. Ah o orgulho.

5 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. É complicado quando o silêncio começa a dizer mil palavras, ou quando o gesto mais eficaz de dizer que a pessoa é importante ou por um simples egocentrismo conformista dizer " eu te amo" torna rotineiro.
    É complicado quando o amor vira pó, mas o melhor de tudo depois de perceber que ele está indo embora. É saber doi porque ele existiu.
    Gostei do conto.
    ela, ela ela. Tipo: você, você do Chico Buarque?

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  3. É se dói é porque existiu. Não pensei nisso, mas é muito bom quando um texto remete a algo :] Que bom que gostou.

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  4. Este conto de Danielly Teles precede o Chora,Pierrot. A moça desta conto foi se vingar no conto seguinte. Antes a culpa dele era sufocá-la com cuidados, que valiam como gestos de amor e não como um disco arranhado a repetir :eu te amo, eu te amo,eu te amo”.Há mil formas de expressar amor. A linguagem não-verbal às vezes atinge não, às vezes não, a psiquê feminina.Um mistério que nem Freud conseguiu explicar. Como ele foi quem deu a sentença, ela segurou o choro e o grito,embora sangrasse.Pra se vingar depois. Ele chorou com saudade dela. Aqui, se droga. No próximo conto, ela chuta e ele chora. E ela,encontrou o Arlequim, Danielly ?

    “Um grande amor tem sempre um triste fim
    Com o pierrô aconteceu assim
    Levando esse grande chute
    Foi tomar vermute com amendoim”
    (Noel Rosa)

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  5. Comentário 2:
    São quase 6 da manhã e não dormi ainda. Talvez isso me tenha embaralhado no comentário deste conto. Quero só dizer que o nome Sandro me lembrou o personagem de A Aventura, de Antonioni,o eclipse também, mas é como se a personagem que falasse não fosse a Cláudia que foi compreensiva com ele no final (pra se vingar depois,quem sabe?) Mas me lembra mais as emoções da enigmática Ana, que desaparece misteriosamente na ilha e no filme. Você assistiu A Aventura,do Antonioni, Danielly ? Pode ser viagem minha , mas é uma leitura que me surgiu. E o bom de você e Clarice Lispector é que a gente faz a nossa viagem interior,com nossas referências emotivas e recriamos tudo dentro de nós. Aliás, não foi pra isso que nasceu a literatura ?

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