quarta-feira, 13 de abril de 2011

Havia mil motivos.

Preciso pegar esse bonde. Puta merda odeio correr, vou chegar ofegante dentro dele, e se o homem da minha vida estiver lá dentro? Não quero que ele me veja logo de cara suada. Mas sabe o pior, penso tudo isso enquanto corro. Entro, ufa. Olho em volta e nada me chama atenção.
Próxima parada: entra uma senhora com um colar de pérolas. É ele, é o colar da minha avó. E um arrepio me percorre. A minha avó era uma mulher linda. De fato muito bonita, mas profundamente triste, talvez o meu lado dramático venha daí. Ah não vou fazer essa comparação idiota, minha avó tinha motivos reais pra ser triste.
Tenho duas lembranças, ela sempre usava esse colar que ninguém sabe onde foi parar, e lembro que ela passava pó de arroz no meu rosto e me chamava de boneca de porcelana. Meu avô era um cara do tipo bruto, e não cuidou dela como ela merecia. A enchia de jóias... Mas pra que elas servem, quando falta dizer te amo? Ela nunca ouviu um eu te amo, tenho certeza. Eu nunca disse eu te amo pra ela. Nem pro meu pai, nem minha mãe. Que dissecante pensar nisso! Meus pais nunca disseram "eu te amo", está subentendido. Está? Eles morrerão, eu morrerei e ela morreu e nunca quebramos esse gelo. Talvez se faltasse dinheiro o amor sobraria.
Será que ela me escuta? Olho fixamente pro colar, a senhora que o usa deve estar pensando que vou roubar, sei lá. Desvio o olhar com dificuldade. Duda Duda, deixa isso pra lá, olha pra pista.
Olho pra pista, como manda minha razão. Mas não consigo parar de pensar nela. Queria conseguir dizer o quanto ela era bonita. Ela morreu... e nenhum filho, nenhum neto disse: "Eu te amo Isabeli!" Ninguém.
Fecho os olhos pra prender o choro que quer rebentar. E digo em voz baixa: Vó, eu te amo muito. E tenho certeza que essa herança bruta é pura fachada, pois no fundo todos nós aqui te amamos e admiramos muito, pela mulher forte e linda que foi.

Um comentário:

  1. Danielly escolhe um passado da metrópole, ainda com os bondes e lembranças de pó de arroz, para afirmar que passam os séculos e os anos, mas o bicho humano, macho ou fêmea, continua corroído pelo remorso porque tem memória. E memória afetiva: basta um objeto,como um colar no pescoço de uma anciã,para engendrar a busca e a dor de um tempo perdido.Como em Proust. A cidade já exige que as pessoas vivam apressadas, senão a moça não ia correr pra pegar o bonde. Para sorte da vaidade feminina,o homem “dos sonhos dela” não estava lá. Não encontrou o homem mas viveu uma dolorosa experiência proustiana.Havia mil motivos, como havia mil oportunidades para fazer um ser feliz com uma simples frase: “eu te amo”. A avó morre sem ouvir esse mantra que recusamos doar aos velhos,aos que já estão caducos, aos que não compreendem mais o que os jovens netos e até os filhos fazem. Nem entendem porque a mocidade não dialoga com a velhice.Os velhos viram trastes, jogados nos desvãos da família. O choro quer rebentar, moça. Mas é tarde demais. Isabel, forte e linda, já não está. Já não é.Não vai escutar os teus pensamentos. Tarde demais.

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