sábado, 12 de março de 2011

Amanhã é 23

Amanhã é dia 23 de junho e é meu aniversário. É também véspera de São João. Sempre ouvi isso na infância... " Essa vai pular fogueira todo ano, nasceu bem na véspera!" Mas as coisas mudaram.
Minha mãe conta que antigamente em todas as casas havia fogueira, e isso quando não eram nas ruas! E todos os vizinhos participavam, levavam comidas, dançavam, e brincavam até de amigo secreto. Como ela diz:" era de dar gosto tanta animação! Foi numa dessas festas juninas que teu pai me deu aquela caixinha de música..." Ela lembra com os olhos brilhando com o mesmo brilho dos olhos de minha avó.
Mas logo ela conta uma história que não sei se chamo triste ou engraçada: uma mulher que pulando fogueira se queimou e ficou com marcas por todo o corpo, mas principalmente no rosto... Ela cresceu e casou-se com o único bêbado que a quis com o rosto deformado. E tiveram um filho, na verdade tiveram quatro, mas é o primeiro que importa. Ela, a moça queimada, nunca mais participou de nenhuma festa junina, coisa difícil de fazer no nordeste, e nem deixava seus filhos participarem... Mas um dia o moleque foi. E adivinha? Queimou-se feito a mãe! E a parte mais afetada fora o rosto. Minha mãe tentava dar uma explicação delirante a isso. Imagina! Até disse que era coisa de vidas passadas. E se eu ria da história, duvidando um pouco da veracidade, ela ralhava braba a beça! E quando terminava de contar ficava assim-assim reticente.
E agora? Se meus antepassados me vissem agora diriam: Que menina sem sal é essa Maitê! Amanhã é véspera de São João, e eu longe das minhas raízes, assisto uma série americana e que provavelmente estarei assistindo amanhã.




Outro Dia

Todos os dias ela toma banho pela manhã,molha seu cabelo
Enrola-se em uma toalha,e se dirige para a cadeira no quarto
É só mais um dia

Veste suas meias,calça seus sapatos
Põe a mão no bolso de sua capa de chuva
É só mais um dia

No escritório, onde papéis se amontoam,ela dá um tempo
Bebe outro café,e tem dificuldade de se manter acordada
É só mais um dia
Du du du du du du,é só mais um dia
Du du du du du du,é só mais um dia

Tão triste,tão triste,às vezes ela se sente tão triste
Sozinha em seu apartamento ela moraria
Até que o homem dos seus sonhos viesse quebrar o encanto
Oh, Fique,não saia por aí
E ele vem,e ele fica,mas vai embora no dia seguinte
Tão triste,às vezes ela se sente tão triste

Enquanto envia mais uma carta ao som das cinco
As pessoas se recolhemem a sua volta,e ela sente dificuldade em manter-se viva
É só mais um dia
Du du du du du du,é só mais um dia
Du du du du du,é só mais um dia

Tão triste,tão triste,às vezes ela se sente tão triste
Sozinha em seu apartamento ela moraria
Até que o homem dos seus sonhos viesse quebrar o encanto
Oh, Fique,não saia por aí
E ele vem,e ele fica,mas vai embora no dia seguinte
Tão triste,às vezes ela se sente tão triste

Todos os dias ela toma banho pela manhã,molha seu cabelo
Enrola-se em uma toalha,e se dirige para a cadeira no quarto
É só mais um dia

Veste suas meias,calça seus sapatos
Põe a mão no bolso de sua capa de chuva
É só mais um dia
Du du du du du du,é só mais um dia
Du du du du du du,é só mais um dia

2 comentários:

  1. Então, um feliz aniversário, mesmo que os aniversários nunca sejam, por assim dizer, verdadeiramente felizes.

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  2. “Olha pro céu ,meu amor/vê como ele está lindo/olha praquele balão multicor/que pelo céu vai subindo” (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)
    Escrevo pra você, Maitê. E escrevo emocionado por aquilo que está pedindo , dentro de você, pra se expressar no seu corpo, nos seus olhos, no seu sorriso. As séries americanas são tristes, são um dos venenos usados pelos que querem um dia colonizar de vez Nuestra América. E teu coração sabe, Maitê, que a fogueira, as advinhações, até os namoros infantis da festa de São João representam uma resistência cultural popular. A repetição do teu olhar viciado na TV anseia pela inovação do que a tradição sempre trouxe : o imprevisto nas brincadeiras, as descobertas em segredo, as comidas gostosas. Tá certo que tem acidentes porque quem mexe com fogo... e logo mãe e filho, e a resignação da mulher queimada em casar com o bêbado, o único a aceitar a sua deformação. Tantas histórias,Maitê. Aqui em Marighelãndia, a gente começa a pensar nas festa do milho agora no dia 19 de março. É Dia de São José. Se chove, vai ter boa colheita e milho vai ter de sobra pra canjica,pamonha e bolo. E a gente dá viva aos santos católicos,mas também aos orixás afro-brasileiros Xangô Menino, Xangô Velho e ao vodum Badé (o nome dele quer dizer “milho”). A sua história,Maitê, dá um filme curta metragem. Pede pra escritora que lhe criou e lhe deu voz pra ela deixar que eu tente reproduzir em imagens o que ela passou tão bem em palavras. São José, Santo Antônio, São João e São Pedro, Xangô e Badé na certa vão querer ajudar a gente a contar em imagens de cinema as alegrias e tristezas dessa estória. E só pra terminar : fiquei em dúvida no final. Se a escritora que te deu vida sente nostalgia das raízes ou se está se assumindo como moça da metrópole, esquecendo de olhar as bandeirolas, de comer tanta coisa gostosa, de ver a festa nos arraiais improvisados, de olhar o balão subindo (não esses balões que todo fim de semana sobem aí em São Paulo, “transgressão” de classe média). Digo isso porque essa jovem escritora dança todos os dias uma música que fala de uma moça que tá diferente, que só se emociona vendo heróis da televisão, que samba escondido pra ninguém reparar. Será que ela tem vergonha de ser brasileira ? Mas dá um jeitinho, Maitê,de chegar até aqui, ver o São João em Marighelândia. E traz a escritora junto, mesmo que ela só queira saber das novidades dos riquinhos daí, que copiam o que vem de fora com 20 anos de atraso. O aniversário dela é no mesmo dia do seu. Vê se lembra de trazer a caixinha de música que eu queria ver. E,com certeza, você e a escritora , vão conquistar corações. Moças fogosas, pulando fogueiras e mostrando encantos escondidos pelas saias coloridas. Ah, até os santos vão disfarçar e olhar as coxas avermelhadas pelo reflexo da fogueira. E de comer tanta comida gostosa, vão voltar com uns quilinhos a mais pra cidade grande onde moram. Rezem aí,mesmo sem crença, para que chova no dia 19, sábado, dia de São José.
    Roberto Menezes

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