quarta-feira, 16 de março de 2011

Dois.

- Quando você ri seus olhos apertam-se e sobem suas bochechas. E fica adoravelmente bonita tua expressão. Desencontramos, não sei quando e nem onde, mas agora é a hora. É estranho, nunca imaginei sentir isso. E não digo sentir de novo, por que é uma sensação completamente nova. Deixamos histórias longas e doídas para trás. Mas agora minha estrada uniu-se a tua, numa mão unica, num momento único. E mesmo prometendo não ouvir mais meu coração, me peguei nesses dias envolvida por ele. E nosso ultimo beijo e as suas ultimas palavras antes da gente se despedir ficaram em minha cabeça. E penso em você muito, e sinto como se te conhecesse há anos.
- Pode dormir, vou manter os olhos em você. E vou decorar suas pintas, imaginar constelações e beijar suas costas descobertas.
- Pode dormir, vou beijar teus dedos... Tua mão, e vou contornar teus lábios a ponta dos dedos, e você vai sentir um arrepio manso. Me mostra o mundo com teus olhos... Vê o que tem do outro lado do muro pra mim?
- Já viu o pôr do Sol daqui? Um dia a gente vê juntos.
- Quero você. Quero fazer dar certo.
- Quer dormir? Depois comemos um pão assado.
E tudo se faz, tudo segue um caminho bom. Não importa o que nos aguarda, eu confio nisso, por que de uma maneira estranha esse amor... Posso chamar assim? É verdadeiro. Eu vou levar sua bagagem e o que mais estiver à mão.




Como dois estranhos,
Cada um na sua estrada,
Nos deparamos, numa esquina, num lugar comum.
E aí? quais são seus planos?
Eu até que tenho vários.
Se me acompanhar, no caminho eu possso te contar.
E mesmo assim, queria te perguntar,
Se você tem ai contigo alguma coisa pra me dar,
Se tem espaço de sobra no seu coração.
Quer levar minha bagagem ou não?
E pelo visto, vou te inserir na minha paisagem
E você vai me ensinar as suas verdades
E se pensar, a gente já queria tudo isso desde o inicio.
De dia, vou me mostrar de longe.
De noite, você verá de perto.
O certo e o incerto, a gente vai saber.
E mesmo assim,
Queria te contar que eu talvez tenha aqui comigo,
Eu tenho alguma coisa pra te dar.
Tem espaço de sobra no meu coração.
Eu vou levar sua bagagem e o que mais estiver à mão.

Um comentário:

  1. Daniii:
    É tão belo como você descreve tudo isso que acho que você chegou na essência da levitação. Flutuar é mecânica das coisas. Levitar é outra qualidade de sentir o êxtase do amor, tocando o outro como um ser cúmplice e ao mesmo tempo desconhecido. Amor,mesmo quando descamba depois, desafia a gravidade dos atos e dos fatos.A mulher, de sentimento mais sutil, bem diferente daquela visão do Ponto de Partida: “você gostava de como eu ficava te olhando, e de uns tempos pra cá você ficava sem jeito, dizia:dá vergonha alguém ficar olhando assim." Aqui,no conto “Dois”, não tem espaço pra vergonha, tédio ou a fúnebre certeza do desgaste. Tudo se mescla, e nessa mixagem de afetos e carinhos, ninguém sabe quem fala com quem . Atenções iguais, delicadeza na expressão dos sentimentos. Convite para ver o sol. De onde, doce
    amada ? : do lugar onde no cataclisma do Japão o empuxo misterioso da Terra fez um calombo no eixo, chamando pra mais perto da Terra a Lua e o Sol ? Da escotilha de uma nave solta no nada do infinito ? ou do alto da montanha mágica (pra usar a referência literária de Thomas Mann)?
    Pão assado , no fogo primitivo da oferta de um ser que ama outro.
    E quanta segurança no zelo do amor e do carinho ¨- Pode dormir, vou manter os olhos em você.” e “- Pode dormir, vou beijar teus dedos...” Quanta pureza nos gestos físicos de amantes, agora unidos numa estrada única, sem peso de lembranças, sem nada do passado. Porque amar é essa simplicidade. “Fazer tudo dar certo”, até o “arrepio manso” que tem que ser AQUELE toque exato mas sem previsão, paradoxo que só o momento vai indicar o caminho na fricção das epidermes em ritmo , aceleração calma, levitação. Sintonia mansa, esse não saber quem é que fala, ás vezes os DOIS dizendo as mesmas coisas. Pela primeira vez,a esperança num conto de Danii:
    “ - Quero você. Quero fazer dar certo.
    - Quer dormir? Depois comemos um pão assado.
    E tudo se faz, tudo segue um caminho bom. Não importa o que nos aguarda, eu confio nisso”.
    Aqueles DOIS, aquele UM, como o casal de um certo poema de Drummond.
    RobertoMenezes
    Daniii : esse, fiz questão de não encurtar. É belo, suscita em nós a poesia em vez da prosa, e tive que abrir espaços para trechos que mereciam destaque e podiam sumir num bloco corrido.

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