sábado, 5 de março de 2011

Betina.

Tinha ido comprar meias e cigarro, estava um frio e era março, até o tempo bodeou esse ano. Esperava o ônibus quando passou por mim um casal. A mulher era linda, mas de uma beleza escondida por cabelos presos, óculos velhos, e uma tristeza notável. O homem era feio, desculpem a frieza mas era realmente feio. Não era um frankenstein, mas era perceptível sua escuridão. Ele segurava uma menina, meio sem sal, pela mão. Devia ser a filha do casal.
Não pude deixar de ouvir,nem de imaginar como se deu aquela familia.
- Você vai no açougue Fernando? - ela perguntou ajeitando o óculos pobre.
Como o marido não respondeu, ela repetiu:
- Você vai no açougue querido?
- Você é surda? Já disse que sim.
- Desculpa, não tinha ouvido. - ela se redimiu, sem nenhum motivo, pois ele não havia respondido.
Fiquei vendo eles atravessarem a rua. Pensando, fantasiando o que ela fazia ao lado dele. Como aquela história começou? Não sei, mas sei como poderia acabar.
Entrei no ônibus, 2,80, e o percurso nem leva dez minutos! Um dia ela acordaria, e pintaria os lábios de vermelho, um bem vivo; e tiraria aqueles óculos, poria um vestido alegre. A filha? Ah, prefiri imaginar que ela não existia. Ela sairia pela manhã, e pelo café da tarde voltaria, com a boca num batom não tão vivo quanto o que saíra. E ele? A olharia bestificado, hipnotizado pela beleza da mulher. Mas era tarde. Pois ela saíra para comprar passagens para o mar. O açougueiro, seu acompanhante, sujeito misterioso e bonito a dissera ser linda.
Está chegando meu ponto, dou o sinal. Salto do ônibus, entro em casa, acendo meu cigarro e fico pensando, agora sem fantasiar, na vida infeliz daquela mulher linda.

Um comentário:

  1. Um conto menor em relação à maioria que traz a marca inconfundível de Daniii. Parece um filme neo-realista italiano mas não dos grandes diretores e sim dos que procuravam seguir o modismo da época.Nenhuma informação nova, a não ser, talvez, uma certa preguiça da autora ou a urgência de colocar de qualquer jeito mais um conto. Imaginar a autora com preguiça , estirada na cama “sabe lá se está vestida ou se dorme transparente”(Chico Buarque, A Noiva da Cidade), com o laptop na cama ou então se arrastar vagarosamente até o computador... bem , só imaginar isso é que dá molho ao conto. Bem que ela podia ter começado se espreguiçando e se vestindo pra ir até o açougue. Depois de S.A., Daniii,você passou a fazer parte de uma maneira diferente do imaginário dos seus leitores masculinos. Então, esqueça essas mulheres que só brilham na imaginação de uma terceira pessoa, e faça cada vez mais aflorar os instintos e a pulsão sensual do S.A. , e até mesmo daquele da mulher que cheirava a flores do campo. Não que você esteja obrigada a só descrever,de agora em diante, o ritmo das epidermes que desejam se tocar seja onde e como for, estejam onde estiverem. Não é nada disso. Mas Betina ,o marido e a monstrinha da família bem que se merecem.Bom é que a lua muda sempre. E de repente, uma orquídea surge, como no poema de Drummond(“Áporo”). No seu caso,Daniii, uma orquídea cheia de tesão.

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