O céu nunca ficou tão igual a aquele dia como hoje no entardecer. Não era só um misturar de rosa, laranja, nuvens perdidas e sol pela metade. Era mais, era como se fosse um desenho que nada tinha de pedante, era inocente, mas não idiota. Era beleza de mulher desinteressada, capturada no cotidiano, naquele momento banal de afastar fios inexistentes dos olhos, de apertar a nuca na escada rolante.
Pronto, mirei o horizonte e fui tomada- banhada por nossas lembranças. O exato instante em que esse ceu que vi hoje aconteceu, foi quando você ia partir pra uma viagem um tanto longa, íamos ficar um bom tempo sem nos ver, coisa inconcebível prum amor rosado, cheirando a damasco como o nosso.
Fechei o portão, ia te levar no ponto do ônibus, nos viramos e lá estava. Você logo se posicionou atrás de mim, envolveu minha cintura, abaixou-se muito a fim de encostar o queixo, com um curativo do seu ultimo porre, em meu ombro esquerdo. "Olha só." Você disse. Ficamos uns minutos assim, não sei precisar quanto, nesses assuntos quanto menos forma e aritmética melhor. O amor, ainda mais esse tipo de amor, dispensa métricas e metros. "Tô atrasado!"- você sentencia.
Suspiro alto no portão e dona Lindalva, velhinha faladeira e muito chata vem se aproximando... "Tá sabendo que a Aparecida casa hoje?" "Não", respondo sem pensar muito na resposta. Mas completo: "Pro azar dela". A velha Lindalva é surdinha pra minha sorte. Todos os sonhos azuis que nós matutamos juntos agora inundam minha roupa, entram pelo portão, invadem a sala de estar, a despensa e o vaso sanitário.
Tinhamos um amor infantil, sem problemas. Agora todo e qualquer amor soa bobo, precisamos nos preservar, calar sentimentos, chamam de maturidade emocional. Nada de declarações pela madrugada. Nada de chegadas emocionadas.
Volto pra dentro de casa e decido passar uma vassoura pela casa, e assim, expulsar assim os sonhos que outrora eram o perfume ambiente e que agora eram partes integrantes da poeira nos cantos difíceis de limpar. Sento no sofá, ligo e desligo o aparelho de televisão algumas vezes, acendo o cigarro, encho o copo de coca-cola, passo margarina numa torrada. Passo a tarde assim, como o copo entre as pernas abertas, sem coragem de ver novela, nem programas de auditório pois sempre aparecem casais apaixonados, famílias formais com filhos lindos. Filhos. Já pensei em tê-los um milhão de vezes, mas sempre escuto: você é nova, e mais: quem seria pai? Mas penso na inutilidade do pai. Me olham estranho,para eles não seria saudável ter filhos sem pai.
domingo, 20 de maio de 2012
quinta-feira, 17 de maio de 2012
Limo.
A porta, de um suposto jacarandá, que se apresenta pesada e sombria, me causa uma repulsa imensa. Saio e sinto como se uma nuvem de espuma cobrisse meu rosto e, em seguida, fosse sendo retirada pelo vento rasgante de maio, ficando ainda algum tanto nos cabelos. Quanto mais rápido eu andava mais frio e desprotegido da espuma ficava meu rosto. Sentia-o arder e corar muito. Encontro uma padaria, seria ótimo me abrigar e tomar um café, mas não posso. Sigo em passos rápidos. Um farol me barra. Fecha. Fico cantarolando uma música do Jobim que vi no comercial de uma coletânea sua.
Abre. Fito a fachada de uma sexy shop com rabinho de diabo, e me esqueço do sinal. Fecha. Fico puta. Aprendo a prever: quinze segundos é isso? Testo outra vez. Isso! O farol para pedestres fica verde por 15 segundos. Testo mais três vezes, atravesso e resolvo entrar na lojinha com rabo. Um homem, um menino não sei... Usava suéter colorido, não tinha nenhum sinal de barba e era muito branco entra comigo. Prendo o cabelo no alto da cabeça, passo os dedos na franja e fico andando pela loja. Ele, o rapaz sem barba, entra e fita a tv no alto durante todo o tempo em que dou a volta e decido sair.
Sinal aberto, corro sobre o salto largo e baixo e do outro lado da rua vejo que ele ainda olha a tv no suporte de ferro, acima de umas calcinhas muito pequenas. Continuo em linha reta, passo uns três quarteirões e entro num sebo. Sinto que era ali que deveria chegar. Pergunto de um título qualquer, pra quebrar a estranheza. A mulher, que fuma um filtro vermelho aponta e resmunga, com o cigarro na boca, algo que não consigo entender. Sigo a direção que seus dedos amarelados indicaram e fico lá, passando os olhos sem nada procurar. Acho que demorei uns vinte minutos nisso, até que escuto um suspiro forte, enfadonho e vejo que a mulher levantou-se e vinha na minha direção, agora com os cigarros nos dedos. Senti que seria grossa. Não foi. Sorriu e apontou um título, disse ser bom. Sorri de volta.
Me deixou lá. Podia roubar livros, estava com bolsa e até olhei pro alto a procura de alguma câmera. Nada. Senti enorme simpatia pela mulher do sebo, ela confiava em mim, uma confiança tão gratuita que seria como matar um filho roubar, que fosse uma revista de um real. Tenho o livro na mão, mas continuo a procura do que me fez sair. Encontro! Leio: Bach. Na hora lembro da Lourdes, quanto tempo! Tenho o endereço ainda? poderia enviá-la o livro com uma dedicatória saudosa. Penso que sim, num caderno antigo... É, ela é do tipo que morre na mesma casa que nasceu.
Decido comprar, deixo o outro livro num banquinho e sigo em direção ao caixa, que agora além da mulher com o cigarro na boca tem uma máquina soltando vapor d'agua, que misturava-se à fumaça do cigarro formando uma fumaça-vapor que me embrulhava o estômago. Ela: - Bela escolha! Deixe-me ver o preço. Hum. - ela entra num sebo on line e vê a quanto ele é vendido lá.
- Bom! 20 reais. - realmente nada no sebo tinha preço. Acho engraçado.
- Ok, vou levar.
Na calçada tento acender meu filtro branco, levo o isqueiro ao cigarro, mas sou interrompida pela buzina. Levo outra vez, e outra vez a buzina. Olho em direção ao carro, era um taxi, e o homem de bigodes faz um gesto como que para que eu desvirasse o cigarro. Sorrio e desviro o cigarro, o sinal pros carros abre. Acendo e não consigo passar da segunda tragada, um enjoo enorme. Bom, pelo menos tenho uma lembrança pra Lourdinha! Inclusive vou escrever nele o trecho daquela música do Jobim... a do comercial... Me esqueci.
Abre. Fito a fachada de uma sexy shop com rabinho de diabo, e me esqueço do sinal. Fecha. Fico puta. Aprendo a prever: quinze segundos é isso? Testo outra vez. Isso! O farol para pedestres fica verde por 15 segundos. Testo mais três vezes, atravesso e resolvo entrar na lojinha com rabo. Um homem, um menino não sei... Usava suéter colorido, não tinha nenhum sinal de barba e era muito branco entra comigo. Prendo o cabelo no alto da cabeça, passo os dedos na franja e fico andando pela loja. Ele, o rapaz sem barba, entra e fita a tv no alto durante todo o tempo em que dou a volta e decido sair.
Sinal aberto, corro sobre o salto largo e baixo e do outro lado da rua vejo que ele ainda olha a tv no suporte de ferro, acima de umas calcinhas muito pequenas. Continuo em linha reta, passo uns três quarteirões e entro num sebo. Sinto que era ali que deveria chegar. Pergunto de um título qualquer, pra quebrar a estranheza. A mulher, que fuma um filtro vermelho aponta e resmunga, com o cigarro na boca, algo que não consigo entender. Sigo a direção que seus dedos amarelados indicaram e fico lá, passando os olhos sem nada procurar. Acho que demorei uns vinte minutos nisso, até que escuto um suspiro forte, enfadonho e vejo que a mulher levantou-se e vinha na minha direção, agora com os cigarros nos dedos. Senti que seria grossa. Não foi. Sorriu e apontou um título, disse ser bom. Sorri de volta.
Me deixou lá. Podia roubar livros, estava com bolsa e até olhei pro alto a procura de alguma câmera. Nada. Senti enorme simpatia pela mulher do sebo, ela confiava em mim, uma confiança tão gratuita que seria como matar um filho roubar, que fosse uma revista de um real. Tenho o livro na mão, mas continuo a procura do que me fez sair. Encontro! Leio: Bach. Na hora lembro da Lourdes, quanto tempo! Tenho o endereço ainda? poderia enviá-la o livro com uma dedicatória saudosa. Penso que sim, num caderno antigo... É, ela é do tipo que morre na mesma casa que nasceu.
Decido comprar, deixo o outro livro num banquinho e sigo em direção ao caixa, que agora além da mulher com o cigarro na boca tem uma máquina soltando vapor d'agua, que misturava-se à fumaça do cigarro formando uma fumaça-vapor que me embrulhava o estômago. Ela: - Bela escolha! Deixe-me ver o preço. Hum. - ela entra num sebo on line e vê a quanto ele é vendido lá.
- Bom! 20 reais. - realmente nada no sebo tinha preço. Acho engraçado.
- Ok, vou levar.
Na calçada tento acender meu filtro branco, levo o isqueiro ao cigarro, mas sou interrompida pela buzina. Levo outra vez, e outra vez a buzina. Olho em direção ao carro, era um taxi, e o homem de bigodes faz um gesto como que para que eu desvirasse o cigarro. Sorrio e desviro o cigarro, o sinal pros carros abre. Acendo e não consigo passar da segunda tragada, um enjoo enorme. Bom, pelo menos tenho uma lembrança pra Lourdinha! Inclusive vou escrever nele o trecho daquela música do Jobim... a do comercial... Me esqueci.
terça-feira, 24 de abril de 2012
Um pouco de calor.
Sento no banco contrário ao sentido do trem. Leio a mensagem que a mulher ao lado escreve ao marido: "Meu amor, estou chegando. To com saudade, 10 minutos to na estação." Um amor confortável ou o casamento dos pequenos burgueses: "Ele é o funcionário completo e ela aprende a fazer suspiros, vão viver sob o mesmo teto até trocarem tiros."? Não sei. Confiro no espelho do pó compacto se ficaram marcas dos seus dentes nas bochechas, pescoço e ombros. Ainda sinto seus dedos me apertando, querendo entrar na minha pele, fundir. Sinto também sua pele no meu dedo, meu cabelo enroscado na tua barba e tento, de olhos fechados afastar um fio de cabelo inexistente da minha boca. Sinto cheiro da tua saliva, posso até sentir o calor.
Seria muito mais fácil te deixar agora, encerrar tudo isso. Mas essa sensação de inacabado e tudo que te cerca e me cerca me tragam, me puxam e logo: tô no teu pescoço, no teu peito, no teu colo. E logo: sua barba toca na minha bochecha, minha mão pesa no teu ombro, teus braços envolvem minha cintura. A respiração fica rápida, os lábios secos um tanto rachados pedem por calor, por molhado.
Então meus lábios pousam nos seus, sinto meu corpo mole, eu perco o equilíbrio e você me segura. Segura cabelos, coxas, braços, peitos. Rimos.
- Isso é maluco.
- Infinitamente maluco. Mas não consigo. Me dá uma coisa.
- Que coisa!
Caimos no sofá, teu braço envolve toda minha cintura. Eu suspiro e você para. E eis que nos separaremos: pra depois voltar, pra depois pedir por liberdade. Pra depois sentir seus lábios secos pedindo, sem escrúpulos, um pouco de calor.
domingo, 22 de abril de 2012
Meteoros nessa madrugada.
Abro o navegador e leio que hoje, nessa madrugada de sabado pra domingo será visível a olho nú, no ceu, uma chuva de meteoro. Engraçado, nunca imaginei que essas coisas fossem possíveis de ver, e muito menos que eu poderia ver. Mas entre todos os pensamentos que a chuva de meteoro trouxe veio você: numa recordação recente, mas com gosto de velha.
Em frente a tv, embaixo do cobertor, aproveitando o feriado fora de casa dos meus pais estavamos nós dois, juntos num corpo só. Quando anunciam: "O eclipse será visível a olho nú, nesta madrugada de sabado pra domingo". Câncer, o signo da Lua dizem.
- Quero muito ver com você.
- Não vai dar, vou viajar lembra?
- Bom podemos ainda assim assisti-lo juntos.
Você sorri e eu me sinto com uma prova com nota A na hora do almoço com a família.
No outro dia os dois, nós dois programamos o despertador. E então posso imaginar:
Acordo ao som de Bob Dylan, Just like a woman. Descabelada, pé no chão, 3 espirros seguidos pego um copo d'agua. Abro a janela: um puta vento e mais 2 espirros.
Acorda ao som de Let it be, bochachas marcadas pelo travesseiro, põe o chinelo, limpa o canto dos olhos com os dedos. Se arrepende de ter marcado de ver o eclipse, precisava acordar ás 5h da manhã etc etc.
Pega o celular, disca meu número.
E agora a chuva de meteoro nessa madrugada vem. E desconfio: é só para que você não saia tão facilmente dos meus pensamentos. Chamam também de "estrelas cadentes" chuva de estrelas cadentes: fico a repetir deitada na cama.
domingo, 15 de abril de 2012
Sou, somos e é.
- Você é a pessoa que mais tenho vontade de desvendar, de conhecer.
"Você precisa saber de mim", "Me ver de perto" Pra mim isso não é em vão. Vejo uma conotação sexual. "Ouvir aquela canção do Roberto", Roberto Carlos tem as músicas mais safadas que já ouvi. Ri, riu, rimos.
Acendo o cigarro: Não estou aqui pra relacionamentos, não sei lidar com isso, com o fato de prender alguém, seja lá porque ele me ama, ou porque é convencional. Quero viver sabe, "correr o mundo, correr perigo".
- Esse seu jeito de levar a vida como quem desvia de buracos cheios de lama me excita.
Você diz isso agora, no fundo todos querem segurança. Inclusive eu. Mas cansa esperar segurança, quando ela nunca chega. Chegará um dia? Não sei. Sei que amor é "bicho instruído"
- Que bate na porta. Mas agora "fui abrir e me constipei".
Eu avisei, avisei. E agora? Você vai conhecer outras mulheres, meninas... Sabe, eu sei disso, e nao vou, não quero esperar segurança de você. Conheço a história. Mas não vou e nem quero tomar cuidado. Enquanto estivermos aqui, sob esse ceu, nessa varanda secreta com vista pra floresta, somos eu e você (seja lá o que isso signifique), e, enquanto esse encanto nos prender: sou, somos e é.
Alguém parecido, era o que sempre procurou. Deu pra sonhar, desliza pelos dedos, pelos unhas, aperta seu cabelo, sente o pescoço, sente, prova.
"Você precisa saber de mim", "Me ver de perto" Pra mim isso não é em vão. Vejo uma conotação sexual. "Ouvir aquela canção do Roberto", Roberto Carlos tem as músicas mais safadas que já ouvi. Ri, riu, rimos.
Acendo o cigarro: Não estou aqui pra relacionamentos, não sei lidar com isso, com o fato de prender alguém, seja lá porque ele me ama, ou porque é convencional. Quero viver sabe, "correr o mundo, correr perigo".
- Esse seu jeito de levar a vida como quem desvia de buracos cheios de lama me excita.
Você diz isso agora, no fundo todos querem segurança. Inclusive eu. Mas cansa esperar segurança, quando ela nunca chega. Chegará um dia? Não sei. Sei que amor é "bicho instruído"
- Que bate na porta. Mas agora "fui abrir e me constipei".
Eu avisei, avisei. E agora? Você vai conhecer outras mulheres, meninas... Sabe, eu sei disso, e nao vou, não quero esperar segurança de você. Conheço a história. Mas não vou e nem quero tomar cuidado. Enquanto estivermos aqui, sob esse ceu, nessa varanda secreta com vista pra floresta, somos eu e você (seja lá o que isso signifique), e, enquanto esse encanto nos prender: sou, somos e é.
Alguém parecido, era o que sempre procurou. Deu pra sonhar, desliza pelos dedos, pelos unhas, aperta seu cabelo, sente o pescoço, sente, prova.
domingo, 1 de abril de 2012
Monte.
O dedo não parava de apertar o interruptor: e nada.
- Puta merda! É a terceira vez, em uma semana, que a lâmpada queima.
Deixou os planos de ler no quarto e foi pra sala. Sentiu vontade de ligar a televisão.
Sentiu o cheiro dele. Tanto procurou aquele perfume pelas ruas e agora, como que zombando, ele estava na sala. Mas como? se perguntava. Faz uns três meses que ele não passa por aqui. E o cheiro, de onde ele vem? Tinha procurado tanto. Tanto! Buscava ele em algum cliente pobretão e até em alguma mulher. Aquele cheiro que estava enterrado na distancia de muitos quilômetros, bento pelas aguas que rolaram.
Ela precisa de um motivo: pra sonhar, pra chorar.
- Puta merda! É a terceira vez, em uma semana, que a lâmpada queima.
Deixou os planos de ler no quarto e foi pra sala. Sentiu vontade de ligar a televisão.
Sentiu o cheiro dele. Tanto procurou aquele perfume pelas ruas e agora, como que zombando, ele estava na sala. Mas como? se perguntava. Faz uns três meses que ele não passa por aqui. E o cheiro, de onde ele vem? Tinha procurado tanto. Tanto! Buscava ele em algum cliente pobretão e até em alguma mulher. Aquele cheiro que estava enterrado na distancia de muitos quilômetros, bento pelas aguas que rolaram.
Ela precisa de um motivo: pra sonhar, pra chorar.
segunda-feira, 12 de março de 2012
Encomenda para Sebá.
Hoje passamos em frente à rodoviária que uma vez lhe busquei. Era nosso primeiro verão, que desembocou em mais três e um único inverno. E sinto que lhe deveria confiar uma história, minha história. Nunca gostei disso, me parece pedantismo. Ou mais: me parece difícil, dissecar a si próprio, mexer no passado, enquanto um futuro, não- futuro me espera a duas horas daqui. Mas, hoje, por um único motivo senti que os escritos que sucederão esse primeiro que lhe escrevo, devem ser entregues a você, unicamente a você.
Você deve se perguntar o porquê dessa decisão, o porquê você. Eu lhe digo. Hoje o amor rancoroso que veio quando nos separamos acabou. O amor, como diz Xico Sá, que acaba na Consolação, saiu do metrô e pegou uma rua qualquer, totalmente descompromissado. Já disse muitas vezes que o amor entre nós tinha acabado, virado amizade. Mentira, tudo balela! E você, provavelmente acreditou mais uma vez. Mulher superior no maior estilo “Olhos no Olhos” foi tudo que não fui nesses tempos. Sabe, a única coisa que fiz apaixonadamente por muito tempo foi mentir. Maliciosamente, claro, mas principalmente por zelo.
Como isso aconteceu? Hoje, pela primeira vez, uma pergunta sobre você, ou pior: sobre nós, que não mais existe, não me fez a garganta ficar pequena e a saliva parecer ser densa. “ E o Sebá?” Pronto, era motivo para o maior desconforto, de surpresas, lamentos e previsões póstumas das tias malucas. No entanto hoje, ao ouvir a mesma pergunta, um ano depois do fim, disse: “ Ah está bem, até tem outra.” E em coro: “Jura?!” Ainda brinquei: “O que me consola é a feiura da moça!” E todos rimos.
Se o amor acabou, porquê confiar os escritos a você? Porque eles, talvez mais que a mim, pertencem a você e a todas as mentiras sinceras que você caiu. As traições pequeno- burguesas, cheias de culpa, e mesmo não estando mais juntos, acho que você tem direito a saber da minha libertação sexual e do único homem, do qual não me lembro o nome, que me ofereceu-a, através da sua não piedade.
Talvez tudo aqui doa em você, mas me despir e me expor aqui, faz eu me sentir mulher. Mais do que quando tirei e me expus pra você fisicamente. Agora, meu Sebá, essas memórias são suas, só suas. Talvez você se descubra, como eu me descobri aqui. E chegue a mesma conclusão que eu: o amor entre nós foi tão jovem, e ao mesmo tempo tão pretensioso, que em muitos momentos aqui me pergunto se ele existiu.
Li uma vez que uma mulher nunca consegue encontrar um amor puro, despertamos desejo, loucura, que passada a tempestade, chamamos de amor. Você conhece nossa história, por enquanto parcialmente, mas sabe que ela não foge à ideia aqui exposta. Entretanto, não quero e tenho o direito, de não saber suas conclusões.
Meu Sebá, aqui está. Sou com esse gesto tua, como nunca fui antes. Não se engane. Ademais é o vento quente que passa pela calçada que virávamos a madrugada conversando sobre sei lá o que, com enormes pausas de silêncios nem um pouco desconfortável. De meninices e maturidades sem fim.
Você deve se perguntar o porquê dessa decisão, o porquê você. Eu lhe digo. Hoje o amor rancoroso que veio quando nos separamos acabou. O amor, como diz Xico Sá, que acaba na Consolação, saiu do metrô e pegou uma rua qualquer, totalmente descompromissado. Já disse muitas vezes que o amor entre nós tinha acabado, virado amizade. Mentira, tudo balela! E você, provavelmente acreditou mais uma vez. Mulher superior no maior estilo “Olhos no Olhos” foi tudo que não fui nesses tempos. Sabe, a única coisa que fiz apaixonadamente por muito tempo foi mentir. Maliciosamente, claro, mas principalmente por zelo.
Como isso aconteceu? Hoje, pela primeira vez, uma pergunta sobre você, ou pior: sobre nós, que não mais existe, não me fez a garganta ficar pequena e a saliva parecer ser densa. “ E o Sebá?” Pronto, era motivo para o maior desconforto, de surpresas, lamentos e previsões póstumas das tias malucas. No entanto hoje, ao ouvir a mesma pergunta, um ano depois do fim, disse: “ Ah está bem, até tem outra.” E em coro: “Jura?!” Ainda brinquei: “O que me consola é a feiura da moça!” E todos rimos.
Se o amor acabou, porquê confiar os escritos a você? Porque eles, talvez mais que a mim, pertencem a você e a todas as mentiras sinceras que você caiu. As traições pequeno- burguesas, cheias de culpa, e mesmo não estando mais juntos, acho que você tem direito a saber da minha libertação sexual e do único homem, do qual não me lembro o nome, que me ofereceu-a, através da sua não piedade.
Talvez tudo aqui doa em você, mas me despir e me expor aqui, faz eu me sentir mulher. Mais do que quando tirei e me expus pra você fisicamente. Agora, meu Sebá, essas memórias são suas, só suas. Talvez você se descubra, como eu me descobri aqui. E chegue a mesma conclusão que eu: o amor entre nós foi tão jovem, e ao mesmo tempo tão pretensioso, que em muitos momentos aqui me pergunto se ele existiu.
Li uma vez que uma mulher nunca consegue encontrar um amor puro, despertamos desejo, loucura, que passada a tempestade, chamamos de amor. Você conhece nossa história, por enquanto parcialmente, mas sabe que ela não foge à ideia aqui exposta. Entretanto, não quero e tenho o direito, de não saber suas conclusões.
Meu Sebá, aqui está. Sou com esse gesto tua, como nunca fui antes. Não se engane. Ademais é o vento quente que passa pela calçada que virávamos a madrugada conversando sobre sei lá o que, com enormes pausas de silêncios nem um pouco desconfortável. De meninices e maturidades sem fim.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Até quando ela existirá?
"Mas Ana eu só posso me aposentar depois da cirurgia e até lá tenho que ficar renovando a "caixa"" Escuto assim que entro no vagão.
Tento não prestar muita atenção mas a senhora extremamente magra não fala baixo e nem deixa espaço na coversa pra a outra senhora falar.
Depois de alguns minutos ouvindo a conversa, ela me deixa a par da situação: tem cancer. Fico extremante desconfortável, tento não olhar na direção das duas, mas é como se ela tomasse conta de todo o vagão, não deixando espaço pra outros pensamentos, me sinto sulfocada pela vontade que ela tem de tornar pública sua dor, tudo bem, apenas eu, mais um moço e as duas mulheres.
Lembrei de quando eu acordei achando que tinha AIDS, nem sabia o que era isso, mas vi na tevê e fiquei encafifada que a tinha. Penso que sensação da senhora deve ser parecida, bobagem.
No meu esforço de tentar pensar em outra coisa eu piorava a situação. E o pior aconteceu: A senhora morena, a que ouvia a que falava de sua doença desceu. E ficamos eu, o moço estranho que lia um livro estranho e a senhora do cancer.
Pronto. Bastou pra situação ficar mais estranha. Ela mexe na bolsa e me olha, eu sei que me olha. Tira de dentro algumas 4 bulas de remédio e poe-se a lê-las, consigo perseguir o olhar dela, e fico imaginando os nomes complicados de compostos e sei lá mais o quê que ela lê nesse momento.
Por que esse babaca desse homem não tira os olhos do livro de auto ajuda e me deixa mais confortável dividindo o peso do ambiente comigo? Ela me olha mais uma vez, fingo não ter notado nem ela, nem a conversa, mas ela continua, eu sinto.
O maquinista anuncia a próxima estação, ela levanta se apoiando na barra de ferro e gemendo de dor. Tenho um arrepio. Olho pra ela. Ela me olha com o sorriso tímido, retribuo, ela o abre mais. A porta abre, entram muitas pessoas, oculpam os lugares e uma menina de franja, uns 8 anos senta no lugar dela. Juro que por alguns minutos penso ter entendido as artimanhas da vida. E penso "Até quando ela existirá?" Agora até que este escrito existir, pena ela não saber.
Tento não prestar muita atenção mas a senhora extremamente magra não fala baixo e nem deixa espaço na coversa pra a outra senhora falar.
Depois de alguns minutos ouvindo a conversa, ela me deixa a par da situação: tem cancer. Fico extremante desconfortável, tento não olhar na direção das duas, mas é como se ela tomasse conta de todo o vagão, não deixando espaço pra outros pensamentos, me sinto sulfocada pela vontade que ela tem de tornar pública sua dor, tudo bem, apenas eu, mais um moço e as duas mulheres.
Lembrei de quando eu acordei achando que tinha AIDS, nem sabia o que era isso, mas vi na tevê e fiquei encafifada que a tinha. Penso que sensação da senhora deve ser parecida, bobagem.
No meu esforço de tentar pensar em outra coisa eu piorava a situação. E o pior aconteceu: A senhora morena, a que ouvia a que falava de sua doença desceu. E ficamos eu, o moço estranho que lia um livro estranho e a senhora do cancer.
Pronto. Bastou pra situação ficar mais estranha. Ela mexe na bolsa e me olha, eu sei que me olha. Tira de dentro algumas 4 bulas de remédio e poe-se a lê-las, consigo perseguir o olhar dela, e fico imaginando os nomes complicados de compostos e sei lá mais o quê que ela lê nesse momento.
Por que esse babaca desse homem não tira os olhos do livro de auto ajuda e me deixa mais confortável dividindo o peso do ambiente comigo? Ela me olha mais uma vez, fingo não ter notado nem ela, nem a conversa, mas ela continua, eu sinto.
O maquinista anuncia a próxima estação, ela levanta se apoiando na barra de ferro e gemendo de dor. Tenho um arrepio. Olho pra ela. Ela me olha com o sorriso tímido, retribuo, ela o abre mais. A porta abre, entram muitas pessoas, oculpam os lugares e uma menina de franja, uns 8 anos senta no lugar dela. Juro que por alguns minutos penso ter entendido as artimanhas da vida. E penso "Até quando ela existirá?" Agora até que este escrito existir, pena ela não saber.
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