quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

   Capitu dos olhos verdes, sexy sadie de olhos negros. Seus olhos são de fome, não de ressaca. A sua lente me lê: curvas, rugas de sol-idade-preocupação-vida, pintas e joelhos que contam a história. A história nua crua, como "A vida como ela é."
Ela não tem belos romances, nem boa família, nem grandes requintes: sua boa, sua boca é de fome, sua boca é um insulto. Como na música, os olhos com fome fitavam a boca: "A tua boca me dá água na boca" e queria "sugar, bem devagar, gota por gota".
- Vem dançar, vem menina.
- "There was a boy. A very strange enchanted boy"...
Ele a cala, com sede de boca, antes que possa terminar o próximo verso.
Os olhos de criança dele percorriam curiosos o corpo marcado da mulher. As vezes ele aperta os lábios com os dentes enquanto, com as duas mãos, a apertava a cintura. Os dedos dela se metiam na barba, sedentos pelo mistério: a sede sempre é maior quando se tem certeza que o mistério não se mostrará.
- Vem assim.
E ele vinha. Deita aqui: deitados, nus, entre os livros: "Tenho uma queda pelos ditadores". Vai cobrindo o corpo nu dela com livros, informações, preços, endereços: "Pega esse cartão, lá tem livros incríveis."
Ela lhe morde a orelha: "Não se assuste, pessoa, se eu lhe disser que a vida é boa"
Os dois, de pouca certeza, só queriam mesmo saciar a sede, não só de sexo ou de boca, mas a sede de vida. Parece vago? Se lhes parece fácil viver, é porque não viveram. Não foram até o fundo. Não sentiram dor de prazer. Não jogaram. Nem apostaram numa nova cara, numa nova aventura e muito menos no perigo delicioso de viver. Não se viram nunca diante do precipício do prazer. Aventura, era assim que ele chamava a saída na madrugada: "Vamos, eu te pego ai, é uma boa aventura vai!"
A vida sempre pode ser uma boa aventura. A janela suada, um bom dia, um cigarro, um isqueiro em comum, um "quer café? mas assim, é sem café", umas plantas no quintal e assim parte do mistério da vida vivida se insinua entre dois corpos, duas línguas e dentes, dentes que mordem e carne, carne que é quente.

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