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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Janela da casa azul.

 Depois de mais um dia de medíocre trabalho, ele volta pra casa. Só que hoje é diferente; entra no ônibus barulhento, sempre tem vontade de gritar pra que os outros passageiros calem a boca, mas nessa noite era como se estivesse somente ele e a solidão no ônibus. Sempre a velha solidão, essa velhinha de cabelos brancos e óculos enorme; pela manhã sem perceber, antes de sair de casa havia feito um pacto austero com ela.
   Sentia-se inerte, e especialmente hoje havia percebido que estava assim há muito tempo. Percebeu que os anos passaram, sua mulher estava velha, nem reparava mais nela. José não tinha culpa, a culpada era a vida, ela sim o endureceu, o deixou bruto e tosco, e o fazia sempre escorregar e recuar pelo caminho.
   José desce do ônibus e continua seu caminho a pé. Notou que chovera, o asfalto ainda estava molhado. No céu não havia uma unica estrela e o vento, que soprava manso, tocava sua pele rústica, seu cabelo sujo e tentava entrar pelo seu nariz quase fechado pelo pó da fábrica. A brisa tentava por vida dentro do pobre diabo, mas nem isso era possível. Chegou a sua casa, parou para observa-lá da calçada, era simples, lembrou que tinha economizado por muitos meses pra pagar pintura azul da casa.
   Entrou e encontrou sua mulher fazendo bordado enquanto assistia televisão. Ele reparou nos calos, nas rugas, nas cicatrizes, e notou o quanto não conhecia sua própria mulher. Não sabia de onde vinham aquelas marcas.
   - Que ta fazendo ai parado homem?! Vai tomar um banho, que eu já ponho tua janta.
   Ele, envergonhado por ter sido apanhado observando-a , obedeceu às ordens sem pensar muito, na verdade nem estava com fome. Tudo que ele queria era entender o havia acontecido com ele, e saber quem era aquela mulher que se dispunha a por sua janta.
  Entrou no chuveiro, e tomou uma decisão. Ao sair do banho lá estava a mulher encostada na pia olhando fixamente o piso. José respirou fundo e perguntou:
   - Rosa, você me ama?
   - Mas que pergunta meu deus! Pra que isso a essas horas? - ela rebateu envergonhada com a pergunta.
   Ele, então também sentiu-se envergonhado.
   - Não sei, é melhor mesmo parar de pensar nessas besteiras...
   - Amo.
   - Que?
   - Você não me perguntou se eu te amava?
   - É.
   - Pois então, respondi que amo. - Disse, olhando de novo para o piso.
   - Rosa, você ia achar besta se eu pedisse pra dançar com você?
   A mulher, sem responder foi até o aparelho de som e colocou um disco antigo. Começou uma balada que os dois gostavam muito: " Eu não me acostumo sem seus beijos. E não sei viver sem seus abraços. Aprendi que pouco tempo é muito se estou longe dos seus braços [...]"
   Toda a vizinhança notou a música que vinha da casa de seu José. Naquela noite todos perceberam  a felicidade que transbordava, pela janela carcomida pelo tempo, do quarto da casa azul.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Volta elefante, volta vacilante.

   Esse poema, marcou muitas fases da minha vida, e já atribui a ele muitas interpretações. Diria que é um poema que se encaixa onde eu quiser, já o li feliz, triste, com raiva e com luz. Enfim, agora o coloco aqui, pra marcar uma nova fase da minha vida, hoje pela manhã eu li ele com a alma leve e feliz, de peito e sorriso aberto. Adoro elefantes, é uma coisa desde criança, acho que começou com o rei Babar, e depois agreguei outros motivos pra gostar tanto deles.






Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos móveis
talvez lhe dê apoio.

E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
é a parte mais feliz
de sua arquitetura.
Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.

Eis meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê nos bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa
as formas naturais.

Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo sozinho.
É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há na cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.

Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos,
esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.

E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
e todo seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.
Amanhã recomeço.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Boas novas.

   Agora minha vida corrida acabou, pelo menos por enquanto! Enfim, estou com mil idéias na cabeça para criar novas histórias. Além disso preciso terminar os três livros que comecei a ler em setembro, e por causa do cursinho fui lendo muito devagar e deixando-os de lado, e também deixei de lado meu sono, e até minha saúde mental ( ta, exagerei um pouquinho!). Enfim, agora esse blog vai estar mais vivo do que nunca, e a dona dele também! Um beijo, e esperem boas novas, novas boas!
   "Das águas de março, é o fim da canseira."

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

   A FUVEST ta chegando, e eu sinto um misto de ansiosidade e raiva (não sei explicar o porque). Alterno entre esses dois estados de ser, e agora o meus olhos e minha alma querem ler Augusto dos Anjos. É escuro, mas de certa forma, acredito nos seus versos (em partes). Então, resolvi contagiar todos que passaram por aqui, sei que são poucos, se eu conseguir passar um pouco do mal augustense pra alguem já me sinto aliviada, rs. E também, porque dei um pequeno tempo nos contos, estou sem tempo pra tudo, vocês nem imaginam! Enfim :
                O Martírio do artista

Arte ingrata! E conquanto, em desalento,
A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,
Busca exteriorizar o pensamento
Que em suas fronetais células guarda!

Tarda-lhe a Idéia!  A inspiração lhe tarda!
E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,
Como o soldado que rasgou a farda
No desespero do último momento!

Tenta chorar e os olhos sente enxutos!...
É como o paralítico que, à míngua
Da própria voz e na que ardente o lavra

Febre de em vão falar, com os dedos brutos
Para falar, puxa e repuxa a língua,
E não lhe vem  à boca uma palavra!

domingo, 21 de novembro de 2010

Ah, Amaranta.

"Amaranta entrou na cozinha e pôs as mãos nas brasas do fogão, até doer tanto que não sentiu mais a dor, e sim o fedor de sua própria carne chamuscada. Foi uma dose cavalar para o remorso. Durante vários dias andou pela casa com a mão metida numa caneca cheia de ovo, e quando sararam as queimaduras era como se as claras de ovo tivessem cicatrizado também as úlceras do coração. A única marca externa que lhe deixou a tragédia foi a atadura de gaze negra qye pôs na mão queimada, e que haveria de usar até a morte.
          
                                                                 Gabriel García Márquez.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Like a rolling stones

   Ouço gritos, vozes confusas e gritos, e não sei de onde eles vem. Agora ouço nitidamente, é uma voz aguda, e parece que vem de mim, como se eu tivesse escutando algo no meu interior. Mas essa voz não é minha voz.
   Como pode, eu aqui, dentro deste apartamento escuro ouvir esse som angustiado? De onde vem essa dor?
   É a tortura e a privação. São os documentos falsos e a pólvora em mãos boas, mãos que sonham e que lutam. Mas que bobagem isso! Que ideologia é essa? Ele não tinha que fazer isso, deveria calar-se, pois, no fim de tudo isso, voltaríamos a rir, beber, e ler Rimbaud.
   Por que você escolheu ir na linha de frente, a antiga linha da esperança e futura linha da morte. Me deixa em paz, o que eu tenho com isso? Quero dormir, mas a sua imagem morta não sai de minha mente: você caído em meio às pessoas, com o rosto desfigurado, e também com uma mancha de sangue no peito, é um tiro.
  Fecho os olhos, num esforço inútil de me ver livre dessas vozes e da sua imagem, mas você vem de novo. Não adianta, não quero e não vou te acompanhar nessa loucura. Você está na zona do crepúsculo, sua morte é certa, mas não quero pensar nela, não quero isso. Tentei tantas vezes trazer você de volta pra casa. Mas percebi que a sua luta é muito maior que o amor que tínhamos.
   Ouço um disparo. E um grito rapidamente abafado, tenho uma sensação de terror, escuto agora murmúrios e um riso demoníaco. Abro os olhos. Foi um sonho? Não, você está morto, eu sei. O telefone toca.

sábado, 6 de novembro de 2010

" Eu quero é que esse canto torto, feito faca, corte a carne de vocês!"
                                                   
                                                                                               Belchior.
  

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Grande sacudida na Terra que está caindo.

   Fiz esse conto na varanda aqui de casa, fazia frio, subi com um café bem quente e quase sem açúcar. Fui lá pra varanda, pra ficar longe dos gritos da Elisa (apesar de adorá-la, ela tem uma garganta potente! rs).
   Escrevi pensando na coisa pequena que existe em muitos de nós, mas que não exterioramos e muitas vezes nem percebemos sofrer desse mal, ou até percebemos, mas a vida passa tão rápida e as vezes fria, que não importa esse estado de ser. Bem, que acho que vocês irão se identificar. Apesar de achar uma sensação real e de domínio público, não é um autoconto (nem sei se essa palavra existe). Espero que gostem.





   Sinto uma angústia que causa calafrios. É outono, as folhas estão caindo, e minha vida derrama-se aos poucos, nem sei mais quanto resta. Acabei de chegar do trabalho, e não tenho planos para essa noite. Há algum tempo atrás, tomaria um bom banho e leria um livro. Mas, agora não tenho a menor paciência de percorrer uma história e ter de ficar dias e até meses acompanhando o desenrolar de uma trama. Não tenho mais saco para as pessoas. E até meus filmes de Godard, Glauber e Sganzerla me irritam, não porque descobri serem ruins, mas sim porque não agüento esperar quase duas horas até o final. Não suporto mais o processo da vida, o amadurecimento dos frutos ou o crescimento dos filhos que não tive.
   Não tenho namorados, para poder afirmar que o amor murchou, e que não agüento mais ver seu rosto. Para então, poder dizer que meu problema é mal de amor. Será que é bom sofrer de amor? Já sei! Vou por um filme incrível, e esperar pacientemente o final. Escolho Terra em transe, fora meu filme preferido quando jovem, e há muito não o vejo. Ele começa com uma música, que, de certa forma, é contagiante. Sinto vontade de dançar. Pauso o filme, vou ao quarto e ponho uma saia antiga, também de quando eu era menina. Volto à sala, aperto o play e danço.A música acaba e eu sento ofegante no sofá. Começa a discussão; ao invés da deliciosa música, toca uma marcha militar acompanhando de tambores, que aumentam e diminuem de intensidade. Lembrei do final do filme. Merda! Já não quero mais acompanhar a história. Não adianta, nada adianta! Já tentei livros  filmes novos, nenhum me anima. Volto ao começo do longa, pois a única coisa que me faz feliz agora é dançar a música baiano-africana do começo de Terra em transe.