domingo, 6 de fevereiro de 2011

Cecília.

Pingou três gotas de limão na xícara. Foi até o armário e leu: Açúcar. Pôs duas colherinhas de açúcar e sem piscar vendo-o dissolver no limão. Pegou o chá de capim cidreiro artificial, esses de sachê, juntou: água, limão e açúcar. Pronto! - pensou.
Estava indo para o quarto tomar o chá, quase que deitada, quando ouviu uns gritos na rua. Nada que fosse inteligível, mas percebia-se logo que era mais um barraco na vizinha. Pobre mulher essa vizinha! Foi até a varanda, e observou a cena: mais uma vez o Seu Jonas chegou bêbado. A mulher dele, dona Lavínia, era jovem, apesar de castigada pela vida, era educada, ia à igreja aos domingos e tudo mais.
Resolveu sair e confortar a mulher, que, mais uma vez fora abandonada pelo seu homem embriagado.
- Dona Lavínia, precisa de ajuda?
- Ah não minha filha! Só Deus pode me ajudar. Você sabe, quando ele bebe sempre larga a gente aqui, nessa agonia. Ninguém sabe pra onde ele vai, e nem quando volta.
- Mas ele volta. Isso é o que importa. - disse a filha do casal, uma menina de uns quatro anos.
Cecília ficou tão impressionada com a fala da criança, que custou acreditar que havia sido ela quem disse:
- Como? - perguntou.
- É isso mesmo, ele sempre vai voltar pra nossa casa, é isso que me deixa feliz.
Cecília dando um tchau sem graça, voltou para o chá deixado as pressas. Ele sempre vai voltar. - seu inconsciente repetia. Mexia a colher, dando voltas e mais voltas. O chá esfriou.
Olhou pela janela e viu a Lua, que brilhava indiferente a todas dores humanas. Lá estava ela, sem saber da dor de Dona Lavínia, da esperança infantil e sincera da menininha. E sempre e cada vez mais indiferente a dor de Cecília. E qual é a dor de Cecília? É uma dor tão doída que não posso contar a vocês. Se eu sei? Sim eu sei, mas esse é um segredo que só cabe nos olhos negros e apertados dela. Dormiu sem querer dormir, vencida pelo cansaço, e pelo ardor dos olhos maresiados pelo choro.
Pela manhã, as 9:00, foi à varanda: viu Seu Jonas chegar, sendo, apesar de tudo, abraçado por sua mulher e filha, como se tivesse chegado do trabalho e merecesse, como recompensa, carinho. Quem sabe, talvez realmente aquele homem mereça mesmo.
Talvez vocês mereçam também saber qual é a dor de Cecíla. Ela chama-se Saudade.

Um comentário:

  1. O conto começa com a personagem colocando açúcar no chá, depois de olhar com atenção para a palavra açúcar. E o conto acaba com a açucarada palavra saudade. O final me lembrou o moralismo conservador dos filmes da moda neo-realista que os italianos fizeram no rastro de diretores de peso como Rossellini e Visconti, que nunca se disseram neo-realistas. Este conto não tem a cara da autora, a sua mirada corrosiva, o seu contar, sem nenhuma concessão à complacência nem ao final feliz. É uma Daniii sem o nocaute que sempre nos dava em cada texto,mesmo os mais poéticos. Cadê o mistério, a tênue passagem entre o real e o irreal tão presente nos outros contos ? Esse, parece que ela fez às pressas pra compensar o espaço vazio entre as comemorações do vestibular, o amor "bento em lágrimas" e a alegria das amigas e amigos que também saíram vitoriosos. Ou então : ela fez de propósito pra dar chance de um fã criticar.Da autora tudo se espera. Até histórias que não terminam como a daquele bordel num outubro qualquer.Termino lembrando : de Noel a Chico Buarque, de Pelé a Ronaldinho Gaúcho, de Gerald Thomas a Zé Celso,de Oswald de Andrade a Nelson Rodrigues, de Gláuber Rocha a Godard, ninguém conseguiu sempre criaro tempo todo o melhor que sabe, , nem fazer gols geniais em cada partida. Quem tem a genialidade de Daniiii pode se dar ao luxo de perder pênaltes e gols debaixo da trave.

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