quarta-feira, 13 de março de 2013

Alívio imediato.

Da sala de aula vejo uma festa ser preparada. A provável mãe, de lenço verde- escuro nos cabelos, creio que grisalhos, varre sorrindo o terreno. Três meninos de uns 16 anos carregam mesas e cadeiras de plástico branco. Dois meninos, primos ou irmãos, empinam pipas sob o sol, com olhos apertados buscando ver no alto- céu a pipa colorida, ou não, pois daqui, o corte do concreto da janela não me permite vê- las.
Um muro de tijolo vermelho não me deixa ver o que tem sobre a mesa, minutos antes levada, mas sinto a boca aguar em pensar na maionese e no arroz de forno. Fios cortam a paisagem. Fios que repelem e aproximam. São eles fios de telefone e de internet, encurtando distâncias através do imaginário. Mas são também fio de eletricidade que alimentam a TV, que faz o pai não ter muitos olhos pro filho. Energia que faz pais e filhos seguirem cada qual para seu isolamento.
Aprendemos nessa aula a vida que fora vivida. E para isso, deixamos, penso eu, de viver a vida. Vejo um casal, numa janela aberta naquele muro vermelho, que se beijam e se amassam sem pensar na vida teórica que se ensina e acontece dentro do prédio feio- cinza. Enquando eu aqui, de dentro dele, imagino a vida vivida sem teoria desses dois e dos muitos da festa.
Nos preparativos da festa um homem sem camisa e portando um colar grosso, o suficiente pra ser visto daqui, abre uma lata de cerveja. Não posso ouvir dessa distância o barulho do lacre rompido, nem o gelado refrescando sua língua- garganta. Mas teorizo sobre o som, a sensação e a necessidade do lacre ser rompido, causando alívio imediato.

Nenhum comentário:

Postar um comentário