quinta-feira, 7 de março de 2013

A Tempestade.

A garoa começa.

- A gente pode subir, tenho um cigarro de palha.
- Opa, vamos a chuva vai apertar, e um cigarrinho sempre vai bem.
- Sim - ela responde calçando o chinelo, pondo-se de pé sorrindo.

Balanço das mortes, América latina em luto, companheiro! Um cantor, um revolucionário.
- Os dois fazem parte de coisas tão boas na minha vida...
- De uma geração - ele num tom encantador de quem cresce mas não deixa de sonhar.

Ela canta:
"Eu quero estar amanhã do seu lado quando você acordar, eu quero um sonho realizado, uma criança com seu olhar."
- Olha só, olhos de criança, que música mais você. - ela.
- É, só falta você aceitar dormir comigo hoje e acordar amanhã ao meu lado.

Ela ri: - Sério?
- Muito.
- Bom, preciso pegar dinheiro e deixar umas coisas em casa, você me espera?

As esperas, os encontros, os dedos sedentos que se procuram, os corpos que são, cada vez mais chamados ao contato, ao encontro, à junção.
Ela chega, ele vem:
- Vamos?
- Claro.

- Posso lavar o rosto?
Ela volta com a pele fresca. Ele com três copos de água. Os corpos quentes na noite quente não tem pressa infantil:
- Meu, tenho um livro com fotografias do Fidel.
- Me mostra, olhos de criança!

Ficam um tempo que ninguém saberia precisar quanto, afinal o tempo dos relógios de parede, braço e bolso não são familiarizados com o furacão dos corpos, com a vida que não vale dinheiro ou endimentos. O tempo naquele quarto era tão importante quanto a poeira dos cantos que ninguém nunca limpa. O desejo, o compartilhar de cama, suor, sonhos, angústias, saliva, toques e olhares não são temporais, são cósmicos e ultra humanos.

Ele começa a brincar com os joelhos dela, ela com as costas dele, desenhando com suas unhas curtas, sem cor, sem forma especifica desenhos infantis. "Unhas descuidadas" diz sempre sua mãe, que porta unhas exuberantes.

Aos poucos os corpos se pedem e gritam um pelo outro. Ela mordendo a cintura branca e branda dele, ele se contorcendo devagarzinho, ela sorrindo vai subindo o encara e sugere uma homenagem a quem cantava os olhos de criança, os amores de criança, as loucuras de criança. A vida vivida intensamente, os valores certos mesmo que imorais:
 - "O dom é ver o que se faz, mas ela gosta de transar no escuro. No escuro a coisa ferve mais." Conhece essa dele?
- Não, mas a homenagem é mais que bonita! Vamos no escuro.

Ela num esforço de apertar o interruptor, encosta o seio no rosto dele que os morde. Ela brinca:
- Daria uma bela foto.
- É daria.
Luz apagada. Luz elétrica. Mas A tempestade, faz com que luzes entrem pela janela. "No escuro a coisa ferve mais". O gozo dentro dela, todas as pulsações sentidas, uma a uma. Sede, que é por eles matada na saliva e três copos d'agua. Ele deita, ela deita, corpos nus suados, lado a lado na cama iluminada pelos raios de uma Tempestade bem vivida.

-Um cigarro?
- Sempre.

Dormem: ela com o corpo agitado, ele acariciando sua bunda: "Eu gosto de bunda, aliás gosto de tudo numa mulher".

"Eu quero estar amanhã ao seu lado quando você acordar"
O pai liga: "Olha entra a noite na internet, estamos com saudades e queremos te ver."
11 hrs:

- Era meu pai - ela diz sorrindo - Poxa tá tarde, vamos né?
Ele levanta, vai à sala e começa no vinil: Vida louca vida.
Terminamos, atrasados e fumando com: "Você nem arrumou a cama, parece que fugiu de casa!"
Pode ser inventado, pode ser traquilo, pode ser um teste de sexo com ar de professor e até fruta mordida esse encontrar de corpos que a Tempestade presenciou.

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